Valfrido Silva*
A bancada do jogo do bicho na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul chega a um fim melancólico, desses que não se anunciam com discurso de despedida nem merecem fotografia na escadaria. Os antigos chefes vão para o cemitério; os herdeiros políticos esbarram nos tribunais. Depois da saída de Neno Razuk, os registros negados de Jamilson Name e de seu tio Jerson Domingos estreitam o caminho de volta ao plenário para personagens de uma estrutura que, durante décadas, converteu dinheiro, influência e relações pessoais em respeitabilidade pública. O pano vai baixando entre operações policiais, decisões judiciais e votos que precisam ser contados outra vez. Um desfecho difícil de imaginar nos tempos em que o bicho tinha tamanha intimidade com a Casa que dispunha até de banca dentro do prédio.
Nos tempos em que Jerson Domingos presidia a Casa de Leis estadual o jogo do bicho dispensava cerimônia para entrar no plenário. Em dezembro de 2009, o Fantástico mostrou um cambista oferecendo apostas pelos corredores, usando crachá de visitante do gabinete da Presidência. A reportagem provocou cobrança de explicações pelo Ministério Público. Jerson declarou desconhecer a atividade e prometeu providências. A cena ficou como retrato de uma época: enquanto o Parlamento discutia as leis, alguém recolhia apostas sob o mesmo teto. O bicho não precisava rondar a Assembleia. Já havia encontrado acomodação.
Dezessete anos depois, Jerson teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Superior Eleitoral, após disputar a eleição de 4 de outubro e recolher 16.884 votos. Seu sobrinho Jamilson Name, deputado estadual, havia sido barrado em 2 de outubro, praticamente com a urna na porta. Os dois tinham recebido autorização do Tribunal Regional Eleitoral para concorrer; recursos do Ministério Público levaram o TSE a decidir de outra maneira. O eleitor acompanhou campanhas, ouviu pedidos e digitou números enquanto a Justiça ainda discutia quem poderia estar naquela disputa. A urna tem horário para abrir e fechar. A certeza jurídica nem sempre consegue chegar dentro do expediente.
No caso de Jerson, o julgamento no TSE ocorreu entre 6 e 8 de outubro e terminou por unanimidade contra o registro. Ele havia ficado na suplência. Agora, seus votos sairão da conta, e o TRE-MS anunciou para 21 de outubro uma nova totalização. É necessário aguardar o resultado oficial antes de anunciar quem ganha ou perde posição. Mas a pergunta institucional já está pronta: por que o eleitor precisa votar primeiro para descobrir depois o alcance de seu voto? Recursos e divergências entre tribunais têm explicação processual. O custo dessa incerteza para a representação política também precisa entrar na conversa.
Não se trata de colocar todos os processos no mesmo balaio. Jamilson foi condenado em primeira instância a oito anos de prisão por organização criminosa e lavagem de dinheiro, em ação ligada à Arca de Noé, fase da Operação Omertà. A defesa recorreu e contestou o enquadramento utilizado para impedir sua candidatura. No caso de Jerson, a Procuradoria apontou supostas ligações com organização criminosa investigada na Omertà; seus advogados negaram que as acusações demonstrassem participação ou utilização de estrutura armada na campanha. Indeferimento eleitoral, investigação e condenação criminal são situações diferentes. A análise ganha força quando preserva essas diferenças.
A Omertà, deflagrada em setembro de 2019, rompeu uma acomodação antiga. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, atingiu uma milícia armada ligada à exploração do jogo do bicho, com participação de agentes de segurança e atuação em crimes como homicídios, extorsão e lavagem de dinheiro. No balanço de cinco anos, o órgão contabilizou 17 condenados e penas que somavam 269 anos. O que aparecia socialmente como contravenção tolerada exigia ser examinado também pelas armas, pelas vítimas e pelas estruturas de proteção. O talão da aposta era apenas a parte que podia ficar sobre o balcão.
Depois veio a Successione. O nome explica a investigação: conforme o Gaeco, outro grupo procurava ocupar o espaço deixado pela estrutura atingida na Omertà. A operação, iniciada em outubro de 2023, apurou organização armada, exploração do jogo e roubos usados na disputa por território. Neno Razuk recebeu condenação em primeira instância nesse contexto, ainda sujeita a recurso. Sua saída da Assembleia, porém, teve outra origem: a retotalização dos votos de 2022, realizada em 21 de maio deste ano, após a anulação dos votos de Raquelle Trutis. O PL perdeu uma cadeira, transferida ao PSDB, com João César Mattogrosso chamado para ocupá-la.
É nesse caso que o desencontro dos relógios se torna ainda mais desconcertante. Mais de três anos depois da posse, a Justiça refez uma conta que alterou o titular do mandato. Neno exercia o cargo amparado pela diplomação então vigente; a decisão posterior modificou a distribuição das vagas. Não cabe transformar essa sequência em usurpação deliberada de cadeira. Cabe perguntar o que significam, para o candidato que esperou e para a população representada, os anos que uma decisão não consegue devolver. Mandato tem prazo de validade. A tramitação pode consumir boa parte dele.
O ocaso político coincide com a morte dos patriarcas. Jamil Name morreu em junho de 2021, num hospital de Mossoró, onde estava internado enquanto permanecia sob custódia após a prisão na Omertà. Roberto Razuk morreu nesta quinta-feira, 15, no Sírio-Libanês, em São Paulo. Preso na quarta fase da Successione, em novembro de 2025, havia recebido prisão domiciliar por seu quadro de saúde. Dois personagens de trajetórias próprias, influência econômica, relações políticas e presença social que ultrapassavam o universo das apostas. A morte encerra suas biografias; não apaga os processos, as realizações, as acusações nem as contradições.
Seria precipitado proclamar extinta toda influência da contravenção sobre a política. As próprias operações mostram que espaços vagos despertam sucessores. O que se pode reconhecer é o enfraquecimento de uma geração que transformou poder econômico, relações pessoais e prestígio social em acesso duradouro às instituições. A antiga banca dentro da Assembleia continua sendo uma imagem difícil de superar. Hoje, o bicho perde espaço nas cadeiras. Falta à Justiça acertar o relógio para que a sociedade saiba quem pode sentar nelas antes de terminar a aposta na urna.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
