Valfrido Silva*
O presidente Lula antecipou o Natal. Trocou dezembro por outubro, acomodou o saco de presentes no calendário eleitoral e saiu oferecendo alívio a uma população que tem motivos de sobra para recebê-lo. O microempreendedor endividado quer respirar, o estudante precisa permanecer na universidade e quem depende do transporte coletivo sabe quanto custa atravessar a cidade. O Papai Noel do Planalto conhece os pedidos. Falta apresentar, com o mesmo entusiasmo, a contabilidade da oficina. Porque os presentes do governo têm uma peculiaridade: quem recebe também participa do pagamento, inclusive quando não encontra nada com seu nome debaixo da árvore.
O levantamento publicado pela Folha de S.Paulo neste domingo reúne R$ 290 bilhões em medidas, considerando valores para 2026 e 2027. Há benefícios, subsídios, financiamentos e promessas ainda dependentes de execução. O governo contesta a soma, alegando diferenças de natureza, origem dos recursos e prazos. A objeção merece ser examinada. O tamanho do saco impressiona, mas precisamos abrir os embrulhos para saber o que está sendo contado. Nem tudo representa despesa adicional, muito menos dinheiro já desembolsado.
Um levantamento distinto, atribuído pela CNN à Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado, contabiliza R$ 298,4 bilhões. Desse total, R$ 185,7 bilhões correspondem a operações financeiras destinadas a programas de crédito. Outros R$ 63,2 bilhões são despesas primárias, R$ 30,6 bilhões representam renúncias fiscais e R$ 18,9 bilhões vêm de recursos de terceiros, fora do Orçamento. Os dois levantamentos não devem ser tratados como uma única planilha. Tampouco cabe transformar todo empréstimo em dinheiro perdido: há recursos que precisam voltar, embora subsídios, inadimplência e formas de financiamento possam deixar custos públicos. Contabilidade exige mais discriminação do que propaganda.
Feita essa distinção, permanece a pergunta que o governo precisa responder: de onde vem o dinheiro? Se a nova despesa cabe no Orçamento porque outra perdeu espaço, qual foi a escolhida para emagrecer? Se haverá compensação tributária, quem pagará mais? Se o benefício continuará pelos próximos anos, qual receita sustentará sua continuidade? A etiqueta “dentro das regras fiscais” precisa vir acompanhada dessas informações. O cobertor pode conservar exatamente o mesmo tamanho e, ainda assim, alguém terminar a noite com os pés descobertos.
A cobrança também exige olhar para o ponto de partida. Segundo o Banco Central, a dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto. Os juros nominais do setor público acumularam R$ 1,18 trilhão em doze meses. Essa conta não nasceu dos anúncios das últimas semanas, e seria desonesto pendurá-la inteira no saco natalino de Lula. Ela mostra, porém, que os novos compromissos chegam a uma casa que já tem prestações pesadas. Papai Noel deveria conferir o extrato antes de autorizar mais uma rodada na fábrica.
Nada disso transforma o beneficiário em culpado. Quem espera uma oportunidade de estudar, trabalhar ou reorganizar um pequeno negócio não tem obrigação de apresentar uma tese de equilíbrio fiscal antes de procurar ajuda. Essa responsabilidade pertence ao governo. Uma política pode ser necessária, produzir resultados e render votos ao mesmo tempo. O calendário eleitoral também não suspende as necessidades da população. Mas a proximidade da urna torna ainda mais importante explicar por que a solução chegou agora, como será mantida e o que precisará ceder lugar a ela.
O efeito sobre a economia dependerá da qualidade de cada medida. Crédito que amplia produção, uma política que ajuda o jovem a concluir os estudos ou uma despesa bem direcionada podem produzir benefícios duradouros. Também podem existir programas mal desenhados, subsídios caros e promessas que envelhecem antes da primeira parcela. Por isso, anúncio de crescimento futuro não substitui estimativa de custo, critério de acesso, avaliação de resultados e fonte de financiamento. O governo precisa demonstrar o caminho entre a entrega do benefício e o retorno esperado. A fé no trenó não dispensa a manutenção das renas.
Lula tem direito de defender suas escolhas e pedir ao eleitor que reconheça seus resultados. O eleitor tem direito de exigir que a explicação sobreviva ao dia 25 de outubro. Antes de agradecer o Natal antecipado, merece saber quanto custam os presentes, quem os financia e por quanto tempo estarão disponíveis. Afinal, na infância a gente acredita que Papai Noel paga tudo. Na vida adulta, descobre o carnê. E, na eleição, convém lê-lo antes de colocar a assinatura.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
