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quinta-feira, outubro 22, 2026

Lula e Nantes vão ao pôquer da Globo sem saber quem tem a melhor mão

Às vésperas do segundo turno, o último debate presidencial lembra as grandes mesas do antigo Cassino Amambay, onde Roberto Razuk enfrentava jogadores temidos e sabia que nem sempre as melhores cartas garantem a vitória.

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Valfrido Silva*

O velho cassino de Pedro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com Ponta Porã, conheceu noites em que uma fortuna podia mudar de mãos sem que ninguém levantasse a voz. À volta de uma mesa de pôquer, homens capazes de apostar quantias respeitáveis estudavam uns aos outros com a paciência de quem sabia que uma sobrancelha erguida, um sorriso fora de hora ou o movimento involuntário de um dedo podem revelar mais do que as próprias cartas. O ambiente tinha algo daquelas cenas de cinema em que o silêncio vale mais do que o diálogo e a tensão se concentra nos olhos dos jogadores. Nesta sexta-feira, quando Lula e Nantes se encontrarem no último debate presidencial, nos estúdios da TV Globo, estarão diante de uma mesa igualmente exigente. Não haverá baralho, fichas ou dinheiro sobre o pano verde. Mas haverá apostas, blefes, provocações e dois jogadores tentando descobrir o que o adversário esconde. Com uma diferença decisiva: no cassino, ganha quem leva as fichas; na eleição, quem decide o vencedor é uma multidão que não está sentada à mesa.

A lembrança me transporta aos tempos do Cassino Amambay, em Pedro Juan Caballero, quando, segundo histórias que acompanhei na fronteira, a casa promovia grandes encontros de pôquer, trazendo de avião jogadores de São Paulo e de outros centros da América Latina. Não eram propriamente amadores procurando diversão depois do jantar. Tratava-se de gente acostumada a calcular riscos, reconhecer adversários e enfrentar apostas que fariam um cidadão comum perder o sono antes mesmo de receber a primeira carta. Do lado da casa estava Roberto Razuk, que ainda não havia ingressado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul e já carregava a reputação de jogador temível. O mesmo Razuk, depois deputado estadual por Dourados, que morreu semana passada, em São Paulo, encerrando uma polêmica trajetória que atravessou negócios, política e episódios pouco conhecidos da história regional.

Uma dessas histórias merece lugar especial nesta lembrança. Em determinada ocasião, o boeing com os convidados pousou em Ponta Porã, mas Razuk estava no Paraná. A ausência do homem que costumava enfrentar aquela turma representava um problema tão sério que obrigou o Cassino Del Amambay a fretar um jatinho para buscá-lo. Não se tratava de uma homenagem protocolar. O negócio precisava de alguém capaz de enfrentar jogadores que conheciam todas as artimanhas de uma mesa. Razuk, ligado naquele período aos negócios do cassino com integrantes da família Jamil, era considerado uma espécie de garantia de que a casa não ficaria entregue à própria sorte. Porque o pôquer, ao contrário do que imagina quem nunca acompanhou uma partida, não é apenas um jogo de cartas. É também um jogo de gente.

No truco, pode-se contar com o parceiro. Na canastra, uma dupla consegue corrigir os erros da outra mão. No pôquer tradicional, cada jogador responde sozinho pelas próprias decisões. Pode receber conselhos antes de sentar, estudar os adversários, ouvir especialistas e preparar estratégias. Mas, quando chega a hora de apostar, não há marqueteiro que possa segurar as cartas por ele. Lula e Nantes chegarão ao encontro da Globo cercados por equipes que passaram dias estudando frases, ensaiando respostas e imaginando armadilhas. Diante do jornalista César Tralli, porém, estarão por conta própria. Um conhece os caminhos do poder depois de décadas na política e de três mandatos presidenciais. O outro traz a experiência parlamentar, o sobrenome Bolsonaro e uma campanha que procura transformar a herança política do pai em votos suficientes para chegar ao Planalto. Ambos sabem atacar. A questão é descobrir quem sabe a hora de parar.

A emissora estabeleceu regras para disciplinar o confronto, inclusive limitando a movimentação dos candidatos em determinados momentos. Depois do espetáculo de provocações no debate da Band, a providência parece uma tentativa de impedir que a disputa se transforme novamente numa competição de gestos, interrupções e encenações. O detalhe é revelador: numa eleição presidencial, tornou-se necessário estabelecer até onde um candidato pode caminhar enquanto o outro fala. Em qualquer cassino respeitável, também existem regras para impedir que um jogador perturbe a concentração do adversário. Mas nenhuma regra consegue evitar a principal tentação de quem se senta diante de uma mão difícil: blefar.

É aí que a analogia encontra seu limite moral. No pôquer, blefar faz parte da inteligência do jogo. Um jogador pode vencer com cartas ruins se conseguir convencer o adversário de que possui uma combinação imbatível. Na política, entretanto, uma promessa impossível não se torna aceitável porque foi apresentada com segurança. Uma acusação sem prova não ganha legitimidade porque arrancou aplausos. E uma mentira repetida com desenvoltura continua sendo mentira, mesmo quando produz um corte de vídeo destinado a circular nas redes sociais. O eleitor não está disputando uma partida de entretenimento. Está escolhendo quem administrará o país, responderá por suas instituições e tomará decisões que alcançarão milhões de pessoas muito depois de apagadas as luzes do estúdio.

Lula deverá apostar na experiência, na máquina de governo e na capacidade de apresentar resultados concretos, procurando convencer os indecisos de que sua mão é mais segura. Nantes tende a explorar o desgaste do adversário, os problemas da administração e o desejo de mudança, tentando demonstrar que a alternância de poder representa uma aposta melhor. Nenhum desses caminhos garante a vitória. O presidente pode receber uma pergunta para a qual seus assessores não encontraram resposta satisfatória. O desafiante pode descobrir que uma provocação cuidadosamente ensaiada produz efeito contrário ao esperado. Há ainda o perigo de ambos confundirem agressividade com coragem e transformarem a última oportunidade de falar ao eleitor numa repetição das acusações que já dominaram a campanha. Quando dois jogadores passam a noite tentando descobrir quem blefa melhor, às vezes esquecem que o público gostaria apenas de conhecer as cartas.

Roberto Razuk provavelmente compreenderia essa diferença. De trajetória política associada a posições progressistas e com a experiência de quem conheceu a repressão durante a ditadura, talvez tivesse suas preferências nesta eleição. Mas seria uma liberdade literária indevida imaginar o conselho que daria a Lula ou a Nantes. O que sua história permite recordar é outra coisa: os grandes jogadores não se tornam temidos apenas porque sabem apostar alto. São aqueles que observam, esperam, calculam e percebem quando o adversário tenta esconder uma fraqueza atrás de uma demonstração de força. A história do jatinho enviado ao Paraná diz muito sobre a confiança que a casa depositava naquele homem. Não sabemos que cartas ele recebeu naquela noite. Sabemos, pela história que atravessou os anos, que sua presença era considerada indispensável.

Amanhã não haverá um Roberto Razuk para salvar nenhum dos candidatos. Também não haverá jatinho capaz de trazer, na última hora, um jogador mais habilidoso para ocupar o lugar de quem estiver perdendo a partida. A Globo oferecerá o cenário, César Tralli cuidará das regras e os dois adversários terão a oportunidade de mostrar suas cartas, ou pelo menos aquelas que desejarem revelar. A plateia poderá se impressionar com uma resposta, uma ironia ou um silêncio. Mas a verdadeira decisão estará fora do estúdio, nas mãos de milhões de eleitores que terão até domingo para avaliar o que viram e ouviram.

Nos velhos tempos do Cassino Amambay, uma partida podia terminar com a casa respirando aliviada e os visitantes voltando ao avião com menos dinheiro do que trouxeram. Na disputa presidencial, ninguém deveria comemorar simplesmente porque conseguiu deixar o adversário sem fichas. O Brasil não é um cassino, embora alguns políticos pareçam esquecer disso quando chegam perto do poder. Lula e Nantes podem até tentar ganhar no blefe. Mas, no domingo, quem terá a última carta será o eleitor.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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