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Dourados
sexta-feira, outubro 23, 2026

De malas prontas

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Seca dos calorões do último verão, a cidade bebe, agora, somente agora, um pouco mais do que o sereno dos últimos tempos. Uma chuva que aliviou pouco, molhou menos do que o necessário e deixou a natureza ainda chorando pela falta de umidade. Enquanto isso, no sul do país, águas violentas devastam ruas, casas, tudo o que encontram pela frente. A água que falta aqui, a água que sobra ali.

O outono começa a se instalar, aos poucos, nesta capital francesa, abaixando as temperaturas e ensaiando suas cores. O dourado das folhas começa apenas a aparecer. Talvez, quando eu voltar, as folhas já tenham passado do dourado para o marrom e caídas por completo durante a minha ausência.

Sim, exercitarei meu direito de voto neste domingo pela manhã. Depois, enquanto espero os resultados, atravessarei o Atlântico, feliz ou infeliz, conforme o resultado que deverá aparecer antes de o avião fechar suas portas, no escuro da noite. Temos urnas eletrônicas e resultados rápidos, felizmente. Assim, talvez eu já embarque sabendo se levo comigo a alegria ou a preocupação. Ou as duas.

Mais uma vez, descerei na terra que foi da garoa. Atravessarei corredores com vontade de andar, andar, andar após mais de 11 horas sentada. E, pela manhã, percorrerei, espero, as margens do Tietê, numa manhã de luz clara e suave. Pedirei ao motorista, sobretudo, que não abra os vidros, para que eu não precise sentir os “odores” do rio. Há certas realidades que a saudade prefere manter a uma distância segura.

Sonharei, então, com o projeto de ver aquele rio que, no passado, permitia ao seu povo navegar por suas águas, respirar o ar perfumado das árvores ao redor e encontrar nele o alimento da pesca. Sonharei com o dia em que o Tietê voltará a ser rio, deixará de ser depósito de detritos de todo tipo e poderá devolver à cidade um pouco da beleza e da vida que lhe foram roubadas. Sonhar ainda é permitido!

Depois, enfim, seguirei em direção à periferia oeste, para chegar e abraçar a família. Ah, esses abraços! Aqueles que não precisam de palavras, que encurtam distâncias e fazem o tempo parecer menos comprido. Abraços que nos devolvem, por alguns instantes, ao lugar de onde nunca saímos por inteiro.

E vou me lambuzar de mangas, mamões e água de coco gelada. Pensarei também no bolo de massa puba e nas coxinhas de massa de mandioca, que não poderei comer desta vez. Paciência! Ficam para o começo do ano seguinte, quando voltarei ao nosso estado.

Depois dos afagos, será hora de apresentar a nova cria: Ele: uma procura infinita, da qual já falei por aqui. Um livro sobre a busca incessante por aquela que Ele jamais encontrará, porque ela só existe na idealização que faz do outro. E assim a procura se torna infinita!

Visitarei escolas, falarei com crianças, jovens e adultos, em diferentes pontos da capital paulista e do Oeste dela, lugares por onde circulei durante minha temporada de estudos universitários nos anos 1970. Voltarei a percorrer ruas, a reconhecer paisagens, a reencontrar memórias e, descobrir que muitas coisas mudaram muito.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 16 livros publicados (seis em francês). Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.

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