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domingo, novembro 1, 2026

A melancolia de um domingo, a missão da vida e os beijinhos de Nantes aos brasileiros

Entre o Evangelho no Lar, as lembranças de Dourados e o espetáculo político transmitido diretamente dos Estados Unidos, uma manhã de domingo acabou oferecendo uma reflexão sobre o sentido da existência — e sobre certas figuras públicas que parecem confundir liberdade com licença para continuar fazendo campanha.

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Valfrido Silva*

Confesso que acordei meio macambúzio neste domingo. Não chega a ser uma novidade, nem motivo para alarme. De vez em quando, até os mais empedernidos sobreviventes da vida pública e das batalhas do jornalismo são visitados por uma dessas melancolias que chegam sem pedir licença, sentam-se à mesa e começam a fazer perguntas incômodas. A minha, nesta manhã, foi bastante direta: será que já cumpri minha missão terrena? A pergunta não significa que esteja preparando as malas, muito menos que tenha decidido entregar os pontos. Ainda tenho algumas pendências com a posteridade. Falta lançar o livro Como se vira jornalista e, pelo menos, escrever mais um daqueles que prometem deixar os habitantes da terra de seu Marcelino de cabelo em pé. Mas isso é assunto para outro domingo. Hoje, a conversa é outra.

Como faço habitualmente depois do ritual do breakfast, fui tomar meu café preto na sacada, para me deleitar com a paisagem da cidade. É um privilégio que procuro não desperdiçar. Começo contemplando o que sobrou do meu Jaguapiru e, da esquerda para a direita, vou percorrendo com os olhos até os altos do Harrison de Figueiredo, o conjunto habitacional que leva o nome de um amigo muito querido, que me ensinou a gostar de Ernesto Che Guevara de la Serna, o que, convenhamos, ajuda a explicar muita coisa que ainda encafifa alguns leitores deste espaço.

É meu breve momento de contemplação, antes de espiar o cada vez mais oceânico festival de bobageiras das redes sociais. E foi justamente ali, na primeira incursão pelo território digital, que a melancolia ganhou um inesperado concorrente: o Nantes.

Sim, ele mesmo. Flávio Bolsonaro, diretamente dos Estados Unidos, ao lado da esposa, distribuindo beijinhos para os brasileiros. A cena me devolveu, por alguns segundos, ao domingo anterior, quando, diante da expectativa eleitoral e do temor de que o pior pudesse acontecer, cheguei a reforçar minha dose de Rivotril. Uma semana depois, o personagem que tanta apreensão provocava aparecia na tela com a serenidade de quem acaba de descobrir uma nova modalidade de comunicação política: a diplomacia dos beijos à distância.

Não quero acreditar que a fuga para a terra do tio Trump tenha servido apenas para isso. Depois da derrota nas urnas, da saída do país e de toda a confusão política que acompanhou o episódio, seria uma pobreza de roteiro imaginar que o grande projeto internacional de Nantes se resumisse a mandar beijinhos para seus compatriotas. Mas, pelo andar da carruagem, a política brasileira anda tão pródiga em cenas insólitas que já não convém subestimar a capacidade de seus protagonistas de transformar qualquer gesto em espetáculo.

Quase oito da manhã. Era hora de recolher a tela, deixar os beijinhos transatlânticos em seu devido lugar e cumprir meu compromisso dominical: a escola de sempre, sem matrícula, sem mensalidade e sem necessidade de deslocamento. “O Evangelho no Lar”.

Estou relendo integralmente O Evangelho segundo o Espiritismo. Não sei quantas vezes já percorri suas páginas, mas há leituras que não se esgotam na primeira, na segunda ou na décima tentativa. O mesmo texto, encontrado em outra circunstância da vida, parece conversar com perguntas diferentes. Na semana passada, o item 24, “A desgraça real”, inspirou uma reflexão que já publiquei neste espaço. Neste domingo, na sequência, o item 25, “A melancolia”, de François de Genève, e a coincidência com meu estado de espírito foi daquelas que fazem a gente interromper a leitura por alguns instantes.

A mensagem começa com uma pergunta simples e profunda: por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera de nossos corações e nos leva a considerar amarga a vida? A explicação oferecida pelo texto espírita parte da tensão entre as aspirações do Espírito e os limites da existência material. O Espírito deseja felicidade e liberdade, mas se vê submetido às contingências do corpo e da vida terrena. Quando os esforços parecem inúteis, sobrevêm o desânimo, o abatimento e uma espécie de apatia que nos faz imaginar que somos infelizes.

Não é pouca coisa. E, para quem não professa a doutrina espírita, a passagem ainda conserva uma reflexão que ultrapassa os limites da religião: a tristeza existe, não precisa ser escondida nem confundida com fracasso moral. O texto não manda fingir alegria. Recomenda resistência, coragem e paciência diante das impressões que enfraquecem a vontade.

Mas foi no quarto parágrafo que encontrei a passagem que mais me tocou: “Durante o vosso degredo na Terra, tendes de desempenhar uma missão de que não suspeitais”. A mensagem acrescenta que essa missão pode estar na dedicação à família ou no cumprimento das diversas obrigações que nos foram confiadas.

Parei ali.

Afinal, como saber se cumprimos nossa missão? Quem estabelece a medida? O número de anos trabalhados, os livros publicados, as reportagens que incomodaram os poderosos, as amizades construídas, as brigas compradas em nome de convicções? Ou aquilo que fizemos sem sequer perceber que poderia ter importância na vida de outra pessoa?

Depois de 56 anos de jornalismo, seria natural tentar fazer um balanço. Há matérias que permanecem na memória, personagens que atravessaram décadas, injustiças que não puderam ser corrigidas e outras que, pelo menos, deixaram de passar despercebidas. Há também erros, impaciências, escolhas que talvez hoje fossem diferentes. O jornalismo não é uma carreira de santos, e o jornalista que se imagina imune às próprias contradições provavelmente já deixou de prestar atenção ao mundo.

Ainda assim, uma coisa aprendi: não é possível medir a repercussão de uma palavra apenas pelo barulho que ela provoca no dia da publicação. Às vezes, uma reportagem produz consequências que o autor jamais conhecerá. Um texto pode incomodar um poderoso, esclarecer um leitor, encorajar alguém a denunciar uma injustiça ou simplesmente impedir que determinada história desapareça no esquecimento. Não há contador de audiência capaz de registrar tudo isso.

Talvez seja esse um dos sentidos possíveis da missão de que fala o Evangelho: não necessariamente uma tarefa grandiosa, anunciada em praça pública, mas um conjunto de responsabilidades cujo alcance não conseguimos conhecer por inteiro. O trabalho de cada um pode ultrapassar a intenção com que foi realizado. E talvez a vida não nos entregue um certificado de conclusão justamente porque não somos os únicos responsáveis por avaliar o que fizemos.

Aí volto à sacada, ao Jaguapiru, aos altos do Harrison de Figueiredo, o amigo que me apresentou Che Guevara. Volto também a Dourados, cidade que mudou diante dos meus olhos, mas que continua guardando pedaços de uma história pessoal e coletiva. O cenário que contemplo pela manhã não é apenas paisagem: é memória, convivência, formação e pertencimento. É parte daquilo que me trouxe até aqui.

E, no meio dessa reflexão, a política insiste em bater à porta. Não há como ignorá-la, sobretudo quando o país acaba de atravessar uma eleição marcada por uma disputa áspera e quando setores da direita radical, depois da derrota, ainda parecem procurar uma maneira de prolongar a campanha por outros meios. O sobrenome Bolsonaro pode ter perdido a disputa nas urnas, mas a cultura política que alimentou o radicalismo não desaparece por decreto, nem se dissolve com uma fotografia sorridente tirada no exterior.

É nesse ponto que a mistura entre religião e política se torna perigosa. O Evangelho não pode ser transformado em instrumento para santificar aliados ou demonizar adversários. A fé não é cabo eleitoral, e a espiritualidade não deve servir de atalho para dispensar o pensamento crítico. Mas também não precisamos fechar os olhos quando a vida pública contraria valores elementares de respeito, responsabilidade, fraternidade e convivência democrática.

A mensagem de François de Genève fala em liberdade, paciência e deveres. Não se trata de uma liberdade que autorize cada um a fazer o que bem entende, muito menos de uma paciência que obrigue os outros a suportar ameaças, intimidações ou desrespeito. A liberdade que merece esse nome precisa conviver com a liberdade alheia. E a missão de cada pessoa, seja qual for sua crença, não pode ser construída à custa da dignidade dos demais.

Por isso, os beijinhos de Nantes acabaram funcionando como uma espécie de intervalo cômico nesta manhã de reflexão. Enquanto eu tentava compreender o sentido de minha própria caminhada, a política me oferecia mais um capítulo de sua interminável novela. O ex-futuro presidente, agora instalado nos Estados Unidos, aparece sorridente, como se a distância geográfica pudesse resolver as contradições deixadas em casa. Talvez seja apenas uma saudação. Talvez seja mais um gesto calculado para manter acesa a chama de uma personagem política que não se conforma com o fim da campanha. O tempo dirá.

Mas não quero gastar o domingo inteiro tentando decifrar a coreografia dos beijinhos. Tenho coisas mais importantes a fazer. Há um livro para lançar, outro para escrever, histórias para contar e uma cidade que continua merecendo ser observada com atenção. E há, sobretudo, a obrigação de não permitir que a melancolia se transforme em desistência.

O Evangelho recomenda coragem para enfrentar os encargos da existência. Não promete que a caminhada será fácil, nem que receberemos aplausos ao final de cada etapa. Tampouco afirma que conheceremos todas as consequências de nossas escolhas. Talvez seja justamente por isso que a ideia de missão me parece tão instigante: ela nos convida a continuar fazendo o que consideramos correto, mesmo sem a garantia de que veremos o resultado.

Ao terminar a leitura, voltei mentalmente à pergunta que havia feito diante do café preto: minha missão terrena já estaria concluída? Não encontrei uma resposta definitiva. Encontrei, porém, uma boa razão para não me apressar em procurá-la.

Afinal, enquanto houver uma história mal contada, uma injustiça a denunciar, um livro por publicar ou uma ideia capaz de provocar algum movimento na cabeça de alguém, ainda haverá trabalho pela frente. E, se a missão não estiver inteiramente cumprida, que ao menos não me falte disposição para continuar tentando.

Quanto a Nantes, que mande seus beijinhos à vontade. Eu, por enquanto, prefiro continuar conversando com os vivos, com os livros e com a paisagem da minha cidade. A posteridade pode esperar mais um pouco. O café esfria, a manhã avança e a sacada continua oferecendo uma vista muito melhor do que o oceano de bobageiras das redes sociais.

E, para quem ainda está tentando descobrir se cumpriu sua missão na Terra, fica uma suspeita: talvez a resposta não esteja no ponto final de uma biografia, mas na coragem de escrever mais um parágrafo.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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