07/07/2016 – 05h15
Nesses tempos em que o noticiário político ocupa cada vez mais espaço nas paginas policiais, nada a estranhar que a guerra do narcotráfico na fronteira, decorrência do assassinato de Jorge Rafaat, venha para o noticiário político, até porque serão grandes os reflexos disso tudo principalmente em Ponta Porã, onde sua influência costumava decidir eleições.
O brasileiro Jarvis Chimenes Pavão, 48, preso em um bunker na penitenciária de Tacumbu, em Assunção, é tido agora como o novo chefe do tráfico de drogas na região, segundo investigação da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai, conforme reportagem especial da Folha de S. Paulo desta quinta-feira..
Sucessor de Fernandinho Beira-Mar, posto ambicionado antes por uma dezena de outros traficantes, Pavão se tornou o maior fornecedor de cocaína para o Brasil. A guerra da qual saiu vencedor momentâneo visa o controle de um negócio que gera um lucro líquido mensal de pelo menos US$ 3 milhões, de acordo com o serviço de inteligência da polícia paraguaia.
Os efeitos da disputa pelo controle do tráfico não devem se restringir à fronteira. A ambição de Pavão segue a lógica de mercado e ele tende a expandir os negócios, conforme avaliam os investigadores. O Brasil já é o segundo maior consumidor de cocaína depois dos EUA, segundo a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, ligada às Nações Unidas.
A investigação da Senad aponta que Pavão abastece as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) com cocaína boliviana e colombiana, transportada em pequenos aviões até suas três fazendas no lado paraguaio da fronteira. A aliança estratégica com os maiores grupos criminosos do Brasil permitiu a ele tomar a frente dos negócios na região.
Condenado no Brasil a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro, Pavão fugiu para o Paraguai, onde foi preso em 2009 com outro brasileiro, Carlos Antonio Caballero, o Capilho, chefe de uma das unidades do PCC na fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã (MS). Na penitenciária onde cumpre pena de oito anos por tráfico, Pavão estreitou os laços com a facção.
FACÇÃO
Agentes policiais dizem que Pavão mantém regalias em Tacumbu, incluindo suíte com TV, celular e frigobar. É de lá que ele toma as decisões. A direção da penitenciária nega haver benefícios. A Senad aponta Pavão como suspeito de ordenar o assassinato de Rafaat. Um dos veículos usados no atentado ao traficante foi encontrado em uma propriedade de Pavão em Pedro Juan Caballero, fronteira com o Brasil.
Por meio de sua advogada, Laura Casuso, ele negou que tenha mandado matar Rafaat. Em nota nas redes sociais, a família do morto fez o mesmo, negando suspeitar de Pavão.
Para a secretaria paraguaia, Pavão teve ajuda do PCC para eliminar o maior concorrente. Rafaat estava jurado de morte pela facção, segundo mensagens encontradas em um celular apreendido pelo órgão. Introduzido na fronteira por Beira-Mar há 20 anos, o PCC tem aumentado a sua atuação na região.
ALIANÇA
Na aliança de Pavão com a facção, o traficante ganhou um braço armado para sustentar os seus negócios e o PCC conseguiu eliminar seu principal adversário na fronteira –e agora é aliado do novo chefão da região. Nos últimos cinco anos, Rafaat e o PCC travaram uma acirrada disputa pelo controle do narcotráfico e comércio de armas.
Rafaat, que dizia ser paraguaio, mas era registrado no Brasil, tinha uma rede de informantes e usava armamento pesado para impedir a expansão da facção no Paraguai. O PCC reagiu na mesma medida. Para assassinar Rafaat, 70 homens usaram fuzis e até uma metralhadora antiaérea.
No mês passado, Rafaat caiu numa emboscada no centro de Pedro Juan Caballero, a poucas quadras de Ponta Porã. Enquanto seus 30 seguranças trocavam tiros com os pistoleiros, a blindagem do jipe Hummer que ele dirigia foi transpassada pelos projéteis da metralhadora.50 instalada em um Toyota Fortuner roubada na Argentina. Rafaat foi atingido 16 vezes.
A operação teria custado em torno de US$ 1 milhão, considerando a logística, o número de pistoleiros e o valor do arsenal apreendido, conforme estimativas do serviço de inteligência da Senad.
Embora fosse traficante conhecido na região, condenado no Brasil a 47 anos de prisão por tráfico de drogas e formação de quadrilha, Rafaat transitava no Paraguai como próspero comerciante, lavando dinheiro em empresas de vários ramos, segundo a investigação.
Rafaat usava portos privados e pistas clandestinas para escoar a cocaína da Colômbia e da Bolívia. Foi um dos mais bem-sucedidos entre os narcotraficantes que ocuparam o vazio deixado por Beira-Mar após sua prisão.
BEIRA-MAR
O avanço das drogas no Brasil depende do modo como o tráfico atua na fronteira com o Paraguai. A chegada de Beira-Mar, em 1997, ao fugir de um presídio em Belo Horizonte, inaugurou na região a disputa sangrenta pelo poder.
Até então, traficantes atuavam em sociedade. O chefe da coalizão, João Morel, acolheu Beira-Mar em Capitán Bado, vizinha a Coronel Sapucaia (MS), quando ele fugiu de Pedro Juan Caballero para escapar da polícia.
Beira-Mar recrutou bandidos do PCC e do Comando Vermelho, do qual era chefe. Mesmo foragido na Colômbia, em 2001 mandou matar os filhos de Morel (Mauro e Ramon), que teriam colaborado com a Polícia Federal para reduzir a pena do pai. Teria sido a delação que levou à prisão o contador de Beira-Mar, Mário Amato Filho. Em seguida, Beira-Mar ordenou a morte do próprio Morel, dentro de um presídio em Campo Grande.
Carlos Cabral tomou o lugar de Morel e reuniu traficantes da região para expulsar o concorrente carioca. A reação veio após a transferência de Beira-Mar para o Brasil, em 2001. Ele foi preso na Colômbia, onde mantinha negócios com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Em janeiro de 2002, Cabral sofreu um ataque na sua casa em Capitán Bado. À frente do grupo estava o chefe local do PCC, Douglas Ribeiro Cunha, fugitivo do presídio de Ribeirão Preto e homem de confiança de Beira-Mar. O ataque comandado por Douglas contava com 20 homens armados com metralhadoras Uzi, granadas e fuzis. Entre eles estavam agentes da Divisão Antinarcóticos do Paraguai (Dinar), que antes eram subornados por Cabral.
Ele escapou, mas sua mulher e o filho de três anos foram mortos. Ao todo, 11 morreram no ataque. Nos 30 dias seguintes, mais 22 pessoas foram assassinadas na disputa pelo tráfico na fronteira. Cabral passou a viver em Andresito, cidade argentina próxima da tríplice fronteira com o Brasil e o Paraguai. De lá, comandava o tráfico de maconha e ia com frequência ao Estado do Paraná, onde foi preso em 2009. Só naquele ano, tinha enviado 100 toneladas de maconha para o Brasil, segundo a Polícia Federal.
PERFIL
As quadrilhas dedicadas ao tráfico de drogas na fronteira estão seguindo um padrão mundial de pulverização do poder de mando, trabalhando em unidades de forma cooperada. “A estrutura está mais horizontalizada, com menos hierarquia e mais cooperação entre os grupos”, avalia Alexandre Custódio Neto, chefe da Divisão de Operações de Repressão às Drogas da Polícia Federal brasileira. Para ele, Pavão será figura importante no tráfico, pelo poder de fogo e financeiro, mas não como outros antes dele, incluindo Rafaat.
Custódio afirma que as quadrilhas vêm trabalhando de forma cooperada para montar grandes carregamentos de drogas. Assim, compartilham os lucros ou diluem entre si as eventuais perdas. Para isso, teria surgido nesse meio o “corretor do tráfico”, que faz o meio de campo entre os traficantes para montar uma determinada carga. O PCC já trabalha nesse modelo, distribuído em grupos, considera o delegado. Pavão terá problemas e vai gerar conflitos se tentar se sobrepor às unidades da facção co
m as quais se aliou para matar Rafaat. O PCC deve negociar também com outros traficantes, se for mais lucrativo, na avaliação da PF.
Custódio salienta que essa mudança de perfil das quadrilhas é um complicador para o trabalho da polícia. Se antes o trabalho de inteligência policial precisava mirar apenas um chefão, agora tem de desarticular vários grupos.
A morte do traficante Jorge Rafaat Toumani, em junho, foi seguida de uma série de assassinatos na fronteira entre o Paraguai e o Brasil. Na avaliação da polícia, a facção PCC iniciou uma caçada aos capangas do traficante morto, uma forma de intimidar pela violência.
Quatro dias após a morte de Raffat, três foram metralhados em Pedro Juan Caballero. As vítimas, dois paraguaios e um brasileiro, jogavam vôlei no momento do ataque. No dia seguinte, pistoleiros mataram cinco homens com quase cem tiros de fuzil e pistola em Paranhos, cidade de 13 mil habitantes ao sul de Ponta Porã. O ataque pode acirrar a guerra na fronteira, uma vez que, entre os mortos, estava Arnaldo Andrés Alderete Peralta, traficante de Ypejhú, cidade paraguaia vizinha a Paranhos.
A ação teria sido o primeiro conflito com o PCC. A região é dominada pelo grupo do ex-prefeito de Ypejhú, Vilmar Neneco Acosta Marques. Acusado de mandar matar 23 pessoas, era procurado pela Interpol pelo assassinato do jornalista paraguaio Pablo Medina. Preso em março de 2015 no interior de Mato Grosso do Sul, foi extraditado para o Paraguai em novembro.
IDENTIDADES
Com o assassinato de Jorge Rafaat Toumani, um brasileiro de 32 anos se tornou o novo chefe da divisão do PCC na região de Pedro Juan Caballero. Conhecido como Gallant, ou Galã, ele usa três identidades: Oliver Giovanni da Silva, Elton da Silva Leonel e Ronaldo Rodrigo Benites.
Galã é aliado de Jarvis Chimenes Pavão, 48, suspeito de ordenar a morte de Rafaat de dentro da penitenciária de Tacumbu, em Assunção, onde cumpre pena por tráfico de drogas. Pavão foi preso em 2009 com Carlos Antônio Caballero, um dos cabeças do PCC no Paraguai.
Galã é foragido da Justiça paraguaia. Chegou a ser preso em Pedro Juan Caballero, em 2011, por posse de armas, munições e drogas. Com ele estava Paulo Augusto de Souza, também do PCC. Os dois foram resgatados da prisão por cinco homens armados. Por ordem do PCC em aliança com Pavão, Paulo Augusto já havia participado do primeiro ataque a Rafaat, em 7 de março, mas a operação fracassou. (Mauri König)

