17/07/2016 – 10h01
Ministro diz que diz que as feridas na Câmara serão curadas e que a relação com a base será de harmonia
BRASÍLIA — Ministro encarregado da articulação política, Geddel Vieira Lima, da Secretaria de Governo, admite que o governo trabalhou contra a candidatura de Marcelo Castro, do PMDB, que representava “as forças da oposição” na Câmara. Mas diz que as feridas serão curadas e que a relação com a base será de harmonia. Veja a entrevista concedida a Júnia Gama e Catarina Alencastro, do jornal O Globo.
O que muda para o governo com a troca de comando na Câmara?
Com um presidente eleito pela maioria da Câmara, passa-se a ter uma interlocução como o presidente Michel gosta: preservando a independência da Câmara e construindo a harmonia com os demais poderes.
Acaba com a insegurança institucional?
Sem dúvida. Do jeito que estava, não tinha como tocar, sobretudo porque o presidente que interinamente exercia a função tinha uma postura extremamente instável e imprevisível, e isso causava imprevisibilidade ao país.
Já dá para governar de fato?
De fato você só terá um governo na medida em que o impeachment prove que este governo deixa de ser interino. Tivemos paciência até agora, e as coisas estão acontecendo. O presidente quer fazer uma grande reunião entre presidentes dos poderes com essa ideia de pacificar o país. Passado o impeachment, as coisas se tornarão mais sólidas ainda para as grandes propostas que o governo quer apresentar ao Congresso.
Não é o momento de enviar essas propostas?
Agosto tem Olimpíadas, uma série de temas que vão galvanizar a opinião da sociedade, tem a eleição que, por si só, esvazia o Congresso. É difícil manter quórum elevado neste período. Acho que temos que ter cautela. A economia já dá sinais de recuperação. O ministro Henrique Meirelles (Fazenda) aponta dados de que a confiança começa a voltar. O presidente começa a ser visto pela sociedade como um homem ponderado, que tem temperança para enfrentar os problemas.
Dá para falar de nova fase para o governo?
Dá para falar de uma fase de mais tranquilidade na tramitação dos processos, quando se tem previsibilidade, diálogo, esse conceito de independência e harmonia entre os poderes em que as demandas e diferenças se resolvem na política. É claro que é avanço para o governo e para a sociedade.
Rodrigo Maia se aliou à oposição para se eleger presidente da Câmara. Isto preocupa?
Não, falamos de um Congresso autônomo, assim como ele. Partilho da ideia de que, quanto mais forte for a oposição, mais forte será o governo. O antepasso do precipício de um governo é uma oposição frágil. E essa posição não foi só do Maia, foi também do belo gesto do Rodrigo Rosso ao abraçá-lo na tribuna. Falei com Rosso e senti dele absoluta responsabilidade e compromisso de que estará na liderança do PSD para ajudar. A disputa na Câmara foi democrática, uma página virada.
O governo preferia Maia ou Rosso?
O governo entrou nesta eleição com um compromisso claro de não se envolver e só se envolveu, e eu pessoalmente me envolvi, quando em determinado momento ficou muito claro para a opinião pública que o candidato apresentado pelo meu partido (Marcelo Castro) não era do meu partido, seria um candidato de forças da oposição para desestabilizar o meu governo. Quando o segundo turno se consolidou entre Rosso e Rodrigo, o governo já era vitorioso. É hora de cada um inventar uma historinha. Desafio alguém a dizer, de forma responsável, que o núcleo político do Palácio do Planalto — Padilha, Geddel, e o próprio presidente — tenha feito qualquer intervenção que contrarie a posição que tivemos.
O trabalho contra Marcelo Castro pode deixar sequelas no PMDB?
Em absoluto. Castro é um político experiente. Tem suas legítimas ambições, mas sabe que a política tem circunstâncias. Sabe que essa circunstância não favorecia a candidatura dele. Se ficaram feridas, vamos recompor e, se há críticas em relação à atuação do governo, devem ser dirigidas a mim, e não ao presidente da República.
A candidatura de Castro mostra que há algo a ser resolvido no PMDB?
Claro, mostra que teve algumas insatisfações. O erro fundamental no primeiro momento é que, no desespero para não ter impeachment, a presidente Dilma Rousseff distribuiu funções importantes para o PMDB. Quando do advento do impeachment, o PMDB teve que ceder espaços a outros partidos para assegurar a governabilidade do presidente Michel Temer. Isso pode ter gerado insatisfações por perda de espaço. Isso será resolvido. Não vamos dar tamanho de monte Everest a um pequeno mulundu do cerrado de Brasília.
O que achou da operação dos ministros nesta eleição?
É absolutamente natural. Natural que o (Gilberto) Kassab tenha pedido votos para o partido dele; que Ricardo Barros tenha pedido votos para o candidato dele; que o Moreira Franco possa ter pedido votos para o genro dele. Isso é da política. O governo, enquanto instituição que possa falar em nome do presidente, não o fez.
*Para o governo foi uma vitória ter se livrado do centrão?
Nunca acreditei muito nessa história de centrão, sempre acreditei no diálogo com os partidos. Nunca conversei com o líder do centrão. Quem é o líder do centrão? Conversei com líderes partidários que, circunstancialmente, receberam esse nome de centrão. Tanto não existia centrão, que a pulverização das candidaturas ocorreu dentro dos partidos intitulados de centrão. Se tivesse um centrão orgânico, teria havido uma candidatura só desse núcleo partidário. Serenada a disputa, vão prevalecer os interesses do Brasil. As conversas estão sendo às claras. Preenchimento de cargos públicos com base na nova lei das estatais. O grande objetivo agora é tentar conciliar o país.
O senhor acha que na eleição da Câmara emergiu um sentimento anti-Cunha?
Acho que não. Faço um raciocínio matemático. O Rodrigo, ao unificar o seu campo, criou as condições de ser visto como um candidato forte, o favorito. O Rogério Rosso, ao não unificar o seu campo, não transmitiu essa sensação aos seus eleitores. Fora daí, na minha ótica, é especulação. Quem não quiser ver dessa forma é porque insiste sempre nas teorias conspiratórias ou na fofoca.
O destino de Cunha faz alguma diferença para o governo?
O que estava fazendo diferença para o governo era a instabilidade da interinidade do presidente Waldir Maranhão. Isso estava prejudicando.
Para o governo é indiferente se Cunha for cassado ou não?
O que não é indiferente para o governo é o Congresso não analisar o teto dos gastos proposto, ou ter dificuldade numa reforma da Previdência, ou criar dificuldades para os projetos de interesse do país. O destino de Eduardo Cunha está sendo tratado no Congresso. Vamos parar com essa história de que o governo ajuda ou prejudica. Ainda que não fosse indiferente, o governo não tem o que fazer.
Como o governo vê o pleito do PSDB para presidir a Câmara em 2017?
Estamos a sete meses da nova eleição. O PSDB tem inteira legitimidade para pleitear uma candidatura à presidência da Câmara ano que vem. Todos os demais partidos têm essa mesma legitimidade. A estratégia do governo é repetir a que deu certo: se forem candidatos da base aliada, merecerão aplausos. Se for um candidato de unidade, merecerá aplausos dobrados.

