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quarta-feira, julho 29, 2026

No meu bolicho não tinha saco de plástico!

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No “meu bolicho”, que também chamávamos de secos e molhados, há mais de 50 anos, eu pesava um quilo de arroz, feijão ou farinha em sacos de papel. Uma pedra de sabão era embrulhada em folhas de jornal velho, enquanto um pão ou um pedaço de queijo era empacotado com outro tipo de papel, especial para produtos comestíveis. As cervejas e tubaínas vinham em garrafas de vidro, que o cliente devolvia — o “casco” — e recebia algo em troca.

Depois, o mundo se encantou pela produção de plástico, e os dois milhões de toneladas produzidos em 1950 passaram para 475 milhões /t em 2022 (o Brasil, quarto maior produtor em 2019, segundo a WWF, com 11 milhões de t /ano). E quase nada é reciclado: apenas cerca de 9%. Então, o lixo está em toda parte — inclusive no nosso corpo. Além de vê-los por todos os lados, inclusive em rios e oceanos, estamos ingerindo microplásticos — fragmentos minúsculos que resultam da degradação de plásticos maiores — na água potável, no sal, nos alimentos (peixes, frutos do mar, frutas e até cerveja). Microplásticos já foram detectados no sangue, nos pulmões, na placenta e nas fezes humanas.

Outros impactos ainda estão sendo estudados, como inflamações, desequilíbrios hormonais e problemas celulares. Sem falar que a queima de plásticos, que ocorre em muitos lugares sem controle, libera gases tóxicos como dioxinas e furanos, que podem causar problemas respiratórios, câncer e distúrbios neurológicos. Estima-se que 10% das mortes por doenças cardíacas entre adultos de 55 a 64 anos possam estar sendo causadas pelos ftalatos — compostos químicos usados para aumentar a durabilidade e a flexibilidade dos plásticos.

É preciso dizer também que transformar combustíveis fósseis em produtos plásticos libera milhões de toneladas de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global (mais de 5% das emissões globais em 2019). A maioria do plástico é fabricada a partir do petróleo — combustível fóssil produzido por Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia, Canadá, Iraque, China, Emirados Árabes Unidos, Irã, Brasil (9º lugar) e Kuwait, os mais importantes.

Um problemão que deve ser enfrentado. Em Genebra, nesta semana, houve a última rodada de negociações intergovernamentais para se chegar a um tratado internacional sobre poluição plástica — da fabricação ao descarte. O tratado deve exigir corte da produção de plástico, responsável por problemas ambientais e de saúde pública.

Ufa! Que coisa perigosa! Substituir o plástico é possível. Algumas decisões, como produzir sacos com materiais recicláveis ou usar canudinhos de papelão, por exemplo, já são realidade — sobretudo na Europa. A solução para o excesso de plástico é reduzir sua produção: o mal pela raiz! O consenso precisa ser buscado — não temos o direito de deixar um mundo pior para as gerações futuras.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.

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