Por não ter feito faculdade de jornalismo, passei boa parte da vida ouvindo discussões sobre quem é ou quem não é jornalista. Confesso que nunca encontrei resposta definitiva para a questão. Mas, depois de mais de meio século frequentando redações, repartições públicas, gabinetes, corredores de poder e algumas mesas de bar igualmente produtivas, comecei a suspeitar que a definição mais simples para esta profissão talvez não tenha nada a ver com diploma, registro profissional, carteira assinada ou endereço da redação. Jornalista, para mim, é aquele sujeito incapaz de passar por uma notícia sem parar para olhar. Enquanto o jornalista para no acostamento os demais seguem viagem.
A reflexão surgiu a partir de dois episódios recentes e aparentemente sem qualquer ligação entre si. Um, na Assembleia Legislativa. O outro, numa associação de agentes ecológicos de Dourados. No primeiro, o protagonista foi o veterano deputado Londres Machado. No outro, o prefeito Marçal Filho e o deputado federal Vander Loubet. Em comum, apenas um detalhe: os encarregados das respectivas coberturas jornalísticas desviaram da notícia e passaram reto.
No caso de Londres Machado, tudo aconteceu durante um pronunciamento aparentemente rotineiro. O decano da política sul-mato-grossense deixou escapar uma daquelas frases que apenas os políticos muito experientes sabem construir. Algo na linha de quem sabe mais do que pode contar. A inauguração do estacionamento continuou normalmente, com o discurso do “chinês” passando despercebido. Menos para um jornalista, que estava a 230 quilômetros dali, assistindo tudo, ao vivo, pela TV ALEMS.
Os deputados seguiram para seus compromissos. Mas a notícia já havia passado por ali. Ela não estava na pauta oficial, nem na homenagem, nem nos protocolos. Estava numa insinuação, numa entrelinha, numa observação quase casual. O suficiente para despertar a curiosidade de quem aprendeu que, em política, muitas vezes o mais importante não é o que está sendo dito, mas aquilo que está sendo cuidadosamente evitado. Daquela frase nasceu a reflexão sobre os segredos de Estado que a lucidez de Londres Machado impede de serem contados. Não porque ele os tenha revelado. Justamente porque deixou claro que ainda os guarda.
Dias depois, outro episódio aparentemente burocrático cruzou o mesmo caminho. A Associação dos Agentes Ecológicos recebeu um caminhão, uma esteira de separação de resíduos, equipamentos de proteção individual e novos uniformes. O release distribuído à imprensa estava correto. Falava de reciclagem, sustentabilidade, geração de renda e preservação ambiental. Tudo verdadeiro. Tudo relevante. Mas, para quem observava a fotografia da solenidade, havia outra notícia disputando espaço com o caminhão e a esteira. Ali estavam, lado a lado, o prefeito Marçal Filho e o deputado federal Vander Loubet.
Um identificado com o grupo político que hoje governa Mato Grosso do Sul. O outro, um dos principais nomes do lulopetismo sul-mato-grossense e pré-candidato ao Senado. Nenhum deles falou de eleição. Nem poderia. O caráter institucional do evento e as regras que disciplinam a comunicação pública impõem limites conhecidos. Mas a política, assim como a notícia, nem sempre mora nas palavras. Às vezes mora nas presenças. Nos gestos. Nas alianças. Nas ausências. No simbolismo. O caminhão era a notícia administrativa. A fotografia era a notícia política.
Foi então que me ocorreu uma constatação curiosa. Talvez a maior parte das notícias não esteja escondida. Talvez simplesmente passe propositalmente despercebida. Afinal, dezenas de pessoas ouviram o discurso de Londres Machado. Centenas viram as imagens da entrega dos equipamentos à Agecold. Os fatos estavam diante de todos. A diferença é que nem todos estavam procurando a mesma coisa. Há quem escute um discurso e registre apenas as palavras. Há quem olhe uma fotografia e veja apenas as pessoas retratadas. E há aqueles que procuram o significado das coisas. A notícia costuma morar justamente nessa diferença.
Talvez por isso eu continue desconfiando da ideia, tão em moda nos dias atuais, de que o jornalismo se resume à simples publicação de conteúdo. Ainda mais agora. Publicar nunca foi tão fácil. Reconhecer uma notícia é que são elas. Porque a notícia raramente chega anunciando sua presença. Não usa crachá. Não pede licença. Não envia convite. Muitas vezes aparece disfarçada de detalhe, escondida numa frase aparentemente banal ou numa fotografia que quase ninguém observou com atenção. E segue viagem. Cabe ao jornalista decidir se vale a pena parar no acostamento.
Porque, no fim das contas, essa talvez seja a única diferença entre quem apenas divulga fatos e quem exerce o velho ofício de procurar notícias. O primeiro relata o que aconteceu. O segundo tenta descobrir por que aquilo importa. E, convenhamos, são justamente essas notícias — as que ninguém escreveu, as que ninguém disse e as que quase passaram despercebidas — que costumam contar as histórias mais interessantes.
