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terça-feira, julho 21, 2026

Governo Lula aproveita reação ao tarifaço dos EUA para se aproximar do empresariado antes da eleição

Reuniões com os setores afetados pela nova tarifa de 25% imposta pelo governo Donald Trump começam hoje

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Em meio às conversas com os setores afetados pelo novo tarifaço dos Estados Unidos para calibrar a nova fase do plano Brasil Soberano, o governo Luiz Inácio Lula da Silva vê uma oportunidade para tentar trazer os empresários para o seu lado às vésperas das eleições. Após rusgas com as discussões sobre o fim da escala 6×1 e da taxa das blusinhas, a ideia é tentar se recompor com o empresariado, que historicamente já é mais próximo das candidaturas de direita, como a do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal oponente de Lula na busca pelo quarto mandato.

As reuniões com os setores afetados pela nova tarifa de 25% imposta pelo governo Donald Trump começam hoje e serão lideradas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), contando com a participação da Fazenda.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, os segmentos mais atingidos pela nova taxação, que entra em vigor amanhã, são os de madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar.

A ideia é ouvir as associações setoriais para entender as demandas de cada segmento, na direção de mitigar os impactos da política protecionista de Trump. Neste momento, além de calibrar o tamanho do pacote de auxílio aos exportadores, o governo poderá mostrar as ações já tomadas e reforçar a disposição de ajudar o empresariado dentro do possível.

Há uma avaliação de que muitos dos setores afetados são, historicamente, mais próximos à família Bolsonaro, mas, de forma geral, neste momento, a maioria da população brasileira entende que a oposição é culpada pelas tarifas.

Segundo pesquisa da Genial/Quaest divulgada na última quinta-feira, 51% dos entrevistados responderam que concordam com o argumento de Lula de que o senador apoiou a taxação dos EUA.

Se a campanha petista conseguir capturar de forma permanente parte desse sentimento, pode ganhar nova vantagem na disputa, na avaliação de auxiliares presidenciais. As pesquisas de intenção de voto mais recentes mostram que Lula conseguiu se distanciar um pouco do senador na corrida pela Presidência da República.

Os emissários do Palácio do Planalto consideram que é um movimento justo após a aplicação de um tarifaço sem justificativa técnica, apenas política, mas com o qual o governo terá de lidar. Um interlocutor cita que é pegar o “limão” enviado pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, e transformá-lo em uma “limonada”.

Não há intenção, no entanto, de usar o tarifaço como pretexto ou brecha para aumentar gastos em meio ao defeso eleitoral, afirmam integrantes do governo. A ideia é que o pacote de socorro seja mais modesto do que as iniciativas anteriores e que tenha algum tipo de limitação.

O cálculo é tanto econômico, considerando os compromissos fiscais, quanto político, em um esforço também de não perder nenhum apoio no pleito de outubro.

Crédito de R$ 30 bilhões

Na primeira versão do Brasil Soberano, em agosto de 2025, o governo bancou uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para os exportadores atingidos, que, no início deste ano, foi reforçada com mais R$ 15 bilhões. O primeiro pacote também tinha medidas de alívio tributário para os afetados e a facilitação de compra dos excedentes das empresas prejudicadas pela União, estados e municípios.

A lógica deve ser similar às discussões realizadas com o setor agropecuário no âmbito da repactuação das dívidas rurais. Na semana passada, houve o anúncio de um acordo sobre a edição de uma medida provisória (MP) com as regras para a repactuação entre a Fazenda e a bancada ruralista, um tradicional reduto bolsonarista.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, conduziu pessoalmente as negociações com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e conseguiu chegar a um meio termo entre o que os dois lados queriam.

No entanto, uma dificuldade para o governo com parte dos setores afetados deve ser a MP da taxa das blusinhas, que zerou a tarifa de importação para remessas internacionais de até US$ 50, medida vista como prejudicial ao varejo nacional.

Devem ser ouvidas hoje as associações brasileiras da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), das Indústrias de Calçados (Abicalçados), da Indústria do Plástico (Abiplast) e da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), segundo interlocutores. Outras reuniões devem ocorrer amanhã.

Defesa de negociações

As entidades devem defender a manutenção das negociações com a Casa Branca para tentar reduzir o alcance do tarifaço de 25% e detalhar às autoridades os pleitos para mitigar os impactos da decisão anunciada até o momento para cada segmento.

A nova taxa foi imposta após a conclusão de uma investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) sobre práticas supostamente “desleais” adotadas pelo Brasil que prejudicam as empresas americanas.

Segundo o Mdic, cerca de 18% da pauta exportadora com destino aos EUA devem ser afetados pelas tarifas, quando se considera o volume embarcado em 2024 — ou 15%, pelo de 2025. Nesta semana, o governo Trump ainda deve anunciar uma nova tarifa de 12,5% para o Brasil referente a uma investigação sobre a entrada de produtos importados supostamente fabricados com trabalho forçado, da qual são alvo ainda outros 59 países.

Em nota após o anúncio do tarifaço, o presidente do Conselho da Abiplast, José Ricardo Roriz, destacou que a nova tarifa pode representar perdas entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões em exportações brasileiras ligadas direta ou indiretamente ao setor plástico.

Da mesma forma, a Abit defendeu a continuidade das negociações para sanar “eventuais divergências” com os EUA e também citou o uso dos mecanismos previstos no sistema internacional de comércio.

O setor de calçados até já revisou a expectativa de exportações este ano após a confirmação do tarifaço de Trump, prevendo uma redução média de 7,1%, contra 3,6% antes. “A entidade seguirá atuando junto ao governo federal, às autoridades americanas e às entidades parceiras nos Estados Unidos para buscar alternativas que minimizem os efeitos da medida, preservem o fluxo comercial e fortaleçam a competitividade da indústria calçadista brasileira”, destacou a Abicalçados em nota.

Thaís Barcellos/O Globo — Brasília

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