Anita Tetslaff*
O Sport Club Corinthians Paulista, clube que carrega em sua história a luta pela democracia e que veste suas “Brabas” com a mensagem “Respeita as Minas”, protagoniza uma das maiores contradições éticas do futebol brasileiro contemporâneo. Ao fechar um contrato de R$ 22 milhões com a Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto gerida pela Atlas Technologies, a mesma por trás da Fatal Model, que teve sua publicidade banida pela Justiça por ferir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), coloca o clube em xeque com seus valores históricos em troca de um alívio financeiro imediato.
A decisão de estampar a marca no calção da equipe masculina de futebol, basquete e futsal, enquanto esconde no uniforme feminino sob a campanha de combate à violência, revela uma estratégia de marketing conhecida como purpose washing, quando usa causas sociais para disfarçar contradições comerciais. Segundo a comunicadora social Nayara Ruiz, “esse gesto simbólico do Corinthians não resolve a contradição de fundo, só maquia”. De fato, o clube protege sua vitrine no time feminino para evitar críticas diretas, mas mantém o caixa abastecido com recursos que vêm de um ecossistema que a Justiça já considerou prejudicial a crianças e adolescentes.
O histórico da patrocinadora acende o alerta. Em 2025, a Justiça de Alagoas, atendendo ao Ministério Público, determinou que CSA e CRB suspendessem a exibição da Fatal Model por considerar que a publicidade violava princípios de proteção à infância. O promotor de Justiça Gustavo Arns ressaltou que a plataforma promove “serviços que envolvem conteúdos de caráter explicitamente adulto”, sendo incompatível com ambientes frequentados por menores. Agora, sob o novo nome Fatal Fans, a mesma empresa tenta se legitimar no esporte, enquanto a ativista Sheylli Caleffi denuncia que “essa não é uma empresa de conteúdo pornográfico, é uma empresa de prostituição. Sempre foi. Agora inventaram essa outra empresa para tentar disfarçar o negócio principal”.
O argumento do clube de que a marca não aparecerá nas categorias de base e não será vinculada a atletas femininas não elimina o problema central porque é o time principal que as crianças assistem, os jogadores que elas imitam e o uniforme que sonham em vestir e que gora é uma vitrine de uma empresa ligada à pornografia. A advogada Gisele Karassawa, especialista em direito digital, explica que “a criança vê a marca no uniforme, pesquisa o nome e pode chegar a perfis da plataforma. O logotipo pode funcionar como uma porta de entrada para esse ecossistema”.
Diante da repercussão negativa, que já mobilizou mais de 40 mil assinaturas em abaixo-assinado e representações ao Ministério Público, o caso ganhou contornos políticos. A deputada federal Tabata Amaral apresentou projeto para vedar publicidade de conteúdo adulto em espaços públicos e concedidos. Em São Paulo, a deputada estadual Marina Helou protocolou propostas semelhantes, afirmando que “qualquer criança pode pesquisar o que aquilo significa. É claramente uma apologia a um conteúdo inadequado”.
O Corinthians alega que o patrocínio é um avanço na diversificação de receitas, mas o timing da negociação, fechada após o clube sofrer punições (transfer bans) da Fifa por dívidas, sugere que a necessidade financeira falou mais alto que os princípios. Resta saber se o clube está disposto a arcar com o custo moral de sua decisão. A infância precisa ser protegida, sem lobby, sem patrocinador e sem departamento jurídico para defendê-la. Cedo ou tarde, a incoerência será cobrada.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
