Valfrido Silva
À primeira vista, parece uma fotografia fora de foco. Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro, participando da elaboração do plano de governo do pré-candidato petista Fábio Trad. Basta ajustar a lente, porém, para perceber que a imagem revela muito menos uma contradição ideológica do que uma mudança de comportamento da própria política sul-mato-grossense. A participação do ex-ministro na equipe do pré-candidato petista mostra que, enquanto boa parte do país continua aprisionada à lógica da polarização permanente, Mato Grosso do Sul começa a produzir movimentos que desafiam os maniqueísmos fáceis. E talvez nenhum deles seja tão emblemático quanto este.
Mandetta nunca coube confortavelmente nas caixinhas ideológicas que tanto agradam aos marqueteiros. Entrou no governo Bolsonaro pela porta da competência técnica e saiu pela porta da coerência profissional. Foi demitido não por divergências partidárias, mas por insistir que uma pandemia deveria ser enfrentada pela ciência, e não pela retórica. Naquele momento, deixou de ser apenas ministro da Saúde para se transformar em um dos símbolos do enfrentamento ao negacionismo que marcou aquele período da vida brasileira.
O curioso é que essa história começa muito antes de Brasília. Mandetta construiu boa parte de sua trajetória administrativa em Mato Grosso do Sul, como secretário municipal de Saúde durante as duas administrações de Nelsinho Trad na Prefeitura de Campo Grande. Hoje, Nelsinho busca a reeleição ao Senado pelo PSD, alinhado politicamente ao governador Eduardo Riedel. Seu irmão, Fábio Trad, por sua vez, apresenta-se como uma das principais alternativas de oposição ao grupo que governa o Estado há mais de uma década. E é exatamente nesse ponto que as trajetórias voltam a se cruzar.
A participação de Mandetta na elaboração do programa de governo de Fábio Trad não significa aproximação entre PT e bolsonarismo. Ao contrário. Se existe uma marca política associada ao ex-ministro, ela nasceu justamente da ruptura com Bolsonaro em defesa da ciência e da responsabilidade na condução da maior crise sanitária do século. O que esse movimento revela é outra coisa: a tentativa de reunir inteligência administrativa e experiência de gestão acima das fronteiras partidárias.
Não por acaso, o próprio Fábio Trad vem procurando construir um discurso que procura escapar da simples reprodução da polarização nacional. Em recente entrevista a jornalistas de veículos de comunicação de alcance nacional, afirmou que Mato Grosso do Sul insiste em um “erro capital” ao manter uma economia excessivamente dependente da exportação de produtos primários, defendendo um modelo baseado em inovação, pesquisa, tecnologia e agregação de valor. É um discurso que procura deslocar o debate eleitoral para a qualidade do desenvolvimento, e não apenas para a disputa entre campos ideológicos.
Talvez por isso a presença de Mandetta faça tanto sentido dentro dessa estratégia. Ela reforça a ideia de que a campanha pretende discutir políticas públicas, gestão, saúde, inovação e desenvolvimento econômico sem a obrigação de consultar previamente o currículo partidário de quem pode contribuir tecnicamente para essas áreas. Em tempos de radicalização, não deixa de ser uma aposta ousada.
Há, ainda, um simbolismo que dificilmente passará despercebido aos observadores mais atentos da política sul-mato-grossense. Enquanto a sucessão estadual começa a desenhar novos blocos e antigas alianças são colocadas à prova, um ex-ministro que ganhou projeção nacional em um governo de direita senta-se à mesma mesa para ajudar a formular propostas de um candidato do PT. Não é uma fotografia comum. Mas talvez seja justamente por isso que ela diga tanto sobre o momento político que o Estado atravessa.
A política, afinal, nunca foi uma ciência exata. Biografias se cruzam, adversários de ontem dialogam, antigos aliados seguem caminhos diferentes e projetos acabam aproximando pessoas que, vistas apenas pelos filtros das redes sociais, jamais estariam no mesmo ambiente. Mato Grosso do Sul, mais uma vez, oferece um exemplo de que a realidade costuma ser muito mais sofisticada do que os slogans eleitorais.
E talvez seja exatamente essa a principal mensagem desse episódio. Enquanto muitos continuam preocupados em levantar muros cada vez mais altos entre os diferentes campos políticos, Fábio Trad parece mais interessado em ampliar o tamanho da mesa. Se essa estratégia produzirá votos, só as urnas responderão. Mas ela já produz um efeito imediato: obriga a política sul-mato-grossense a pensar para além dos rótulos. E isso, convenhamos, já representa uma boa novidade para uma campanha que mal começou.
