Seus olhos grandes e negros brilhavam na sexta-feira quando me anunciou:
— Ele sai na segunda-feira. Espero que agora tome juízo, entre no caminho certo.
Falava do filho. Estava preso pela segunda vez, cumprindo uma pena de um ano. Teria agora condições de se integrar à sociedade e deixá-la menos preocupada?
— Maravilha!
Disse, vendo seu largo sorriso enquanto realizava a limpeza do escritório. Pensei: será que ele teve a formação e as oportunidades necessárias para recomeçar, agora, com o pé direito?
— Sim, maravilha — respondeu, acrescentando que o que mais a preocupava eram os amigos. — Já disse para ele ficar longe deles, mas…
O rapaz não tinha estudado. Sem formação profissional, como poderia encontrar seu lugar na sociedade sem voltar a fazer o que ela condena e, consequentemente, cumprir outra pena?
— E hoje é o aniversário do meu segundo filho.
Continuava com o largo sorriso de mãe coruja.
— Opa! Então tem festa à vista?
Ela sai de casa muito cedo para começar o trabalho às seis horas da manhã. Depois desse emprego, que lhe consome mais de três horas, segue para o segundo, em um hotel, onde trabalha como arrumadeira. Não tem tempo de almoçar nem de voltar para casa para descansar. Come alguma coisa durante o dia, quando o tempo permite, entre um deslocamento e outro. Fez um regime que a ajudou a perder cerca de trinta quilos, mas ainda me parece estar muito acima do peso ideal.
Depois, é a vez do terceiro emprego, do qual não sai antes das oito horas da noite. Somando o tempo de transporte, nunca chega em casa antes das nove da noite para preparar o jantar, comer, cuidar um pouco da casa e conversar com o filho que completa dezessete anos. Dorme pouco.
— Vamos ver o que vamos fazer — respondeu quando lhe perguntei sobre a comemoração dos dois acontecimentos importantes.
Não teria tempo para fazer um bolo ou preparar algo especial para marcar a data. Compraria um pronto? No supermercado? As padarias provavelmente já estariam fechadas quando terminasse sua jornada.
Terminada a limpeza da sala onde eu trabalhava, partiu empurrando o carrinho. Na parte de trás, dois sacos pendurados: um para o papel destinado à reciclagem e outro para o restante do lixo. Na parte inferior, um balde com água; na superior, rolos de papel-toalha, papel higiênico, panos para secar as mãos e tantos outros materiais necessários ao seu trabalho: esvaziar lixeiras, tirar o pó dos móveis, limpar os banheiros…
— Bom fim de semana! — disse, voltando-se para mim ao chegar à porta.
— Igualmente! — respondi.
Seguiu para a sala ao lado, uma das várias que se alinhavam à direita do corredor, antes dos banheiros femininos. Depois, faria as salas do outro lado e, por fim, o andar inferior.
Não a vi na segunda-feira. Na terça, quando entrou no espaço onde trabalho, perguntei:
— Bom dia! Então, feliz com o reencontro do seu filho?
Bastou olhar seu rosto para perceber que seus olhos já não brilhavam. Ao contrário, neles se lia uma tristeza profunda.
— Ele foi enviado para um centro de retenção de imigrantes. Agora ele já é maior de idade. Tem vinte e um anos.
— Como assim? Ele não deveria ter sido libertado? Já tinha cumprido a pena!
— Ele assinou um papel sem ler direito, pensando que era o documento da saída. Mas era a transferência para esse centro.
Vera e seus filhos, de origem cabo-verdiana, nasceram em Portugal e têm cidadania portuguesa, o que lhes permite viver e trabalhar na França. Os filhos chegaram ao país ainda muito pequenos e praticamente não mantêm vínculos com Portugal, onde apenas o avô materno continua vivendo. Mesmo assim, pouco o conhecem, pois as férias sempre foram caras demais para o orçamento da mãe.
Vera continuou:
— Eles querem mandá-lo para Portugal. Mas lá não tem ninguém da família que possa ajudá-lo. Só o avô, que está doente e não tem condições de acolhê-lo. Nós vivemos aqui há quinze anos! Ele não conhece ninguém lá.
Sua voz vinha das profundezas do sofrimento.
Separada do marido, que se recusa a assinar o divórcio, nunca deu atenção aos filhos nem qualquer ajuda financeira. Agora, ela ainda precisa pagar mil euros ao advogado para cuidar do processo. Ela, que ganha pouco mais do que isso por mês somando os três empregos. É a única da família que trabalha para pagar aluguel, alimentação, contas… Felizmente, ainda conta com a ajuda dos serviços sociais franceses.
Tristeza. Angústia.
— O centro de retenção fica longe. Só posso ir até lá nos fins de semana.
Ela própria não compreendia exatamente o que estava acontecendo. Precisava ligar novamente para o advogado, obter mais informações e pedir para pagar seus honorários em prestações mensais.
— Ele me disse que, se for enviado para Portugal, voltará imediatamente, de ônibus ou de qualquer outro jeito. Mas, se for encontrado aqui depois de ter sido preso duas vezes…
Não tive coragem de lhe perguntar por que o rapaz de vinte e um anos havia sido preso. Roubo? Tráfico de drogas? Naquele momento, isso parecia secundário.
O que eu via diante de mim era apenas uma mãe exausta, consumida pelo trabalho e pela angústia, tentando impedir que o filho mais novo seguisse o mesmo caminho do irmão. Obeso, ele praticava esporte de competição, mas abandonara os treinos nos últimos tempos.
Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
