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segunda-feira, julho 27, 2026

O eleitor que costuma contrariar as pesquisas

Num Estado que se orgulha da força do agronegócio, os números da assistência social talvez escondam um personagem que ainda não entrou de verdade na campanha eleitoral

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Valfrido Silva

Enquanto os partidos fazem contas sobre chapas, federações, pesquisas e alianças, existe um personagem que continua praticamente invisível no debate político de Mato Grosso do Sul. Ele não frequenta as reuniões das associações rurais, não participa dos grupos mais barulhentos das redes sociais, raramente aparece nas entrevistas de televisão e dificilmente é ouvido pelos institutos de pesquisa além do tempo suficiente para responder a um questionário. Mas ele existe. E existe em quantidade suficiente para merecer muito mais atenção do que tem recebido.

Os números divulgados nesta segunda-feira pela Prefeitura de Dourados ajudam a enxergar apenas uma parte desse retrato. Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, a Secretaria Municipal de Assistência Social realizou 28.814 atendimentos relacionados ao Cadastro Único, sendo 18.148 no ano passado e outros 10.666 apenas no primeiro semestre deste ano. O município contabiliza ainda 4.022 famílias com cadastro desatualizado e registra 5.948 estrangeiros inscritos no sistema, dos quais 5.330 são venezuelanos.

Mais revelador, porém, é outro dado: Dourados reúne atualmente cerca de 33 mil famílias cadastradas, o equivalente a aproximadamente 84 mil pessoas inscritas no Cadastro Único. São milhares de atendimentos realizados pelo Cadastro Único, milhares de famílias em processo permanente de atualização cadastral e um universo de pessoas que depende, em maior ou menor grau, da principal porta de entrada das políticas sociais brasileiras. Não significa que todas recebam Bolsa Família. Não significa que todas vivam em situação de extrema pobreza. Significa apenas que a realidade social é bem mais complexa do que a fotografia produzida pelo debate político cotidiano. É justamente aí que começa uma das maiores curiosidades da eleição que se aproxima.

Mato Grosso do Sul consolidou, nos últimos anos, a imagem de um Estado predominantemente bolsonarista. O agronegócio tornou-se sua principal vitrine econômica, o discurso conservador encontrou terreno fértil e qualquer candidatura identificada com a direita larga, em princípio, com enorme vantagem. As pesquisas vêm confirmando essa tendência. Nada de surpreendente até aqui.

O que chama a atenção é que esse mesmo Estado abriga um contingente expressivo de famílias inseridas em programas sociais cuja espinha dorsal é administrada pelo governo federal. Em Dourados, esse contingente já pode ser dimensionado: são cerca de 84 mil pessoas, praticamente um em cada três moradores do município, inscritas no Cadastro Único. Se a proporção observada no município se repetir em outras regiões, talvez estejamos diante de um universo eleitoral muito maior do que normalmente aparece nas estatísticas eleitorais. É aqui que a matemática começa a conversar com a sociologia.

Durante décadas acostumamo-nos a explicar eleições a partir de grandes blocos: o voto do agronegócio, o voto evangélico, o voto urbano, o voto sindical, o voto indígena, o voto empresarial. Cada grupo ocupa seu espaço no tabuleiro. Mas talvez exista outro bloco, muito menos visível, formado por brasileiros cuja principal preocupação não é discutir geopolítica, Supremo Tribunal Federal, guerra cultural ou os tarifaços do trumpismo-bolsonarista. Sua preocupação é infinitamente mais simples: saber se haverá comida na mesa no mês seguinte.

No interior existe uma expressão antiga para definir quem depende exclusivamente da força dos braços para sobreviver: “pegar no guatambu”. É voltar ao cabo da enxada, ao serviço pesado, ao trabalho que castiga o corpo antes mesmo do sol esquentar direito. Essa expressão nasceu muito antes do Bolsa Família, do Cadastro Único ou de qualquer programa de transferência de renda. Ela traduz uma memória coletiva profundamente enraizada em boa parte da população brasileira.

Talvez seja justamente por isso que esse eleitor permaneça tão silencioso. Silencioso não porque não tenha opinião. Silencioso porque aprendeu, ao longo da vida, que política costuma ser assunto delicado para quem depende do patrão, do vizinho, da comunidade ou do ambiente onde vive. Em muitos lugares, declarar voto continua sendo quase um ato de exposição pública. E quem vive em situação de maior vulnerabilidade costuma desenvolver um instinto poderoso de autopreservação.

É evidente que ninguém vota apenas porque recebe um benefício social. Se fosse assim, a política brasileira seria muito mais previsível do que realmente é. As pessoas votam por identidade, religião, valores morais, percepção econômica, segurança pública, tradição familiar, liderança local e por uma infinidade de fatores que nenhum cientista político consegue medir com absoluta precisão. Reduzir o eleitor ao tamanho do benefício que recebe seria tão injusto quanto reduzir um produtor rural ao tamanho da sua propriedade.

Mas também parece simplista imaginar que programas sociais capazes de alcançar milhões de brasileiros não produzam absolutamente nenhum reflexo eleitoral. Será mesmo? Ou estaremos diante de um eleitorado que simplesmente não gosta de falar sobre política antes da hora?

Talvez exista um erro de perspectiva. O agronegócio produz riqueza extraordinária para Mato Grosso do Sul, movimenta exportações, sustenta boa parte do PIB estadual e projeta internacionalmente a economia sul-mato-grossense. Tudo isso é inegável. Mas também é verdade que a moderna agricultura é altamente mecanizada e gera muito menos empregos diretos do que gerava há quarenta anos. O progresso tecnológico aumentou a produtividade e reduziu a necessidade de mão de obra. Essa transformação econômica não eliminou automaticamente a vulnerabilidade social. Em muitos casos, ela apenas mudou sua configuração.

Daí nasce uma pergunta que talvez ainda não esteja sendo feita com a atenção que merece. Afinal, quem representa eleitoralmente esse enorme contingente de brasileiros que vivem entre a esperança de melhorar de vida e o medo permanente de voltar a “pegar no guatambu”? Não sei se esse eleitor decidirá a eleição. Também não sei se as pesquisas já conseguiram captá-lo por inteiro. O que sei é que a política costuma cometer um erro recorrente: ouvir com atenção apenas quem fala alto. Os silenciosos quase sempre entram na história apenas depois da apuração.

Quando isso acontece, há sempre alguém olhando para o telão, na noite da eleição, perguntando como foi possível errar tanto. Talvez porque passou a campanha inteira observando o barulho das redes sociais, enquanto a vida seguia seu curso, discretamente, muito longe dos algoritmos, nas filas dos CRAS, nos balcões do Cadastro Único e nas casas onde a ideologia costuma perder espaço para uma pergunta infinitamente mais urgente: como atravessar mais um mês sem precisar voltar a pegar no guatambu?

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