19.6 C
Dourados
terça-feira, julho 28, 2026

Reconhecidos como patrimônio mundial, teatros de Belém e Manaus remontam à ‘Belle Époque amazônica’

Conquista amplia a projeção internacional de dois dos principais símbolos culturais da região

- Publicidade -

Conhecidos por sintetizar a arquitetura da Belle Époque — período de intensos avanços culturais e tecnológicos na Europa — com materiais, técnicas e referências da paisagem amazônica, o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, passaram a integrar a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O reconhecimento foi aprovado na segunda-feira pelo Comitê do Patrimônio Mundial, reunido na Coreia do Sul, e inscreve os dois edifícios, conjuntamente, sob a denominação “Teatros da Amazônia”.

A conquista amplia a projeção internacional de dois dos principais símbolos culturais da região, mas também reforça a responsabilidade pela preservação de um patrimônio submetido a pressões crescentes. Entre elas, estão a transformação urbana no entorno dos edifícios, o aumento do fluxo turístico, os impactos das mudanças climáticas e a proliferação de organismos que degradam a madeira, como cupins.

Com a nova inscrição, o Brasil passa a reunir 26 bens reconhecidos como Patrimônio Mundial: 16 culturais, nove naturais e um misto. Inaugurado em 1878, o Theatro da Paz, e, em 1896, o Teatro Amazonas, já eram protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde a década de 1960.

O presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, explicou que um comitê gestor será estabelecido para elaborar ações de conservação e promoção desses bens:

— O reconhecimento dá uma maior visibilidade para o bem cultural. A partir de agora, certamente os teatros serão mais visitados, sobretudo nas rotas de turismo cultural.

A passagem da chancela nacional para a internacional representa, segundo o museólogo Alberto Saraiva, um novo patamar de compromisso com a conservação desses monumentos. Para o especialista, nascido em Manaus, o selo da Unesco amplia a projeção e reforça a responsabilidade das instituições encarregadas de protegê-los.

— A Amazônia costuma ser vista sobretudo por sua relevância ambiental e climática. Esse reconhecimento ajuda a consolidar também sua importância cultural diante do mundo — afirma.

A candidatura foi apresentada pelo Iphan, em parceria com os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, com apoio das secretarias estaduais de Cultura do Amazonas e do Pará.

Ciclo da borracha

Mais do que monumentos vizinhos no tempo, os dois teatros traduzem um mesmo projeto histórico. Erguidos durante o ciclo da borracha, simbolizaram a modernização urbana e a inserção da Amazônia nos circuitos internacionais do comércio e da cultura. Entre as primeiras grandes casas de ópera das Américas, receberam companhias europeias e, ao longo das décadas, ampliaram sua vocação para acolher manifestações da cultura brasileira, como carimbó, boi-bumbá, jazz e cinema.

O Teatro Amazonas, por exemplo, já recebeu as Spice Girls em 1997, auge de seu sucesso, para uma coletiva de imprensa e até um minisshow na sacada. Em 1º de junho de 2005, a casa ganhou um capítulo inusitado em sua história ao receber o primeiro show de uma banda de rock em seu palco. A apresentação dos White Stripes teve ingressos esgotados e atraiu tantos fãs que muitos acompanharam o espetáculo por telões instalados do lado de fora. Considerado lendário, o concerto foi lançado como álbum duplo ao vivo e DVD, sob o título “Under amazonian lights”, com as 23 músicas apresentadas naquela noite.

Também já passaram pelo palco do Teatro Amazonas muitos outros artistas internacionais, entre eles, o tenor José Carreras e Roger Waters; assim como os brasileiros Heitor Villa-Lobos, Milton Nascimento, Ana Botafogo e Bibi Ferreira.

Idealizados por uma elite inspirada nos valores da Belle Époque — entre os anos de 1871 (fim da Guerra Franco-Prussiana) e 1914 (início da Primeira Guerra Mundial) — e construídos por trabalhadores locais, os edifícios acabaram por transcender os objetivos de seus fundadores. Seus projetos arquitetônicos combinaram referências europeias a materiais e elementos da floresta, como madeiras amazônicas e motivos decorativos inspirados na natureza regional. Também compartilham os principais responsáveis pela decoração: o pernambucano Crispim do Amaral e o italiano Domenico de Angelis.

Patrimônio vigiado

O reconhecimento da Unesco veio acompanhado de recomendações para a preservação dos edifícios. Em relatório técnico, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), órgão consultivo da organização para patrimônio cultural, identificou fatores que podem comprometer a integridade dos dois teatros caso não sejam monitorados.

Entre os principais riscos está a transformação urbana sem controle adequado nas áreas de entorno. O documento cita a construção de novos empreendimentos e obras de infraestrutura sem avaliações específicas de impacto sobre o patrimônio, além da possibilidade de incêndios e dos efeitos das mudanças climáticas, como o aumento da incidência solar e alterações no regime de chuvas. O relatório também alerta para a expansão de organismos xilófagos — insetos que se alimentam de madeira — favorecida pelo calor e pela umidade.

Outro ponto de atenção é o crescimento do turismo. Segundo o Icomos, a intensificação do fluxo de visitantes pode acelerar o desgaste dos espaços públicos associados aos teatros. Embora a gestão desses impactos já esteja prevista pelas autoridades responsáveis, o órgão considera que o monitoramento dessa pressão ainda representa uma das fragilidades do sistema de conservação.

Apesar dos alertas, o Icomos conclui que o estado de conservação dos dois monumentos é “bom” e avalia que os fatores de risco identificados permanecem, até o momento, sob controle.

Lívia Nani /O Globo — Rio de Janeiro

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-