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quarta-feira, julho 29, 2026

2026: o tira-teima entre o besteirol dos algoritmos e a solidez dos projetos políticos

As eleições deste ano podem marcar o primeiro grande teste da política brasileira desde que as redes sociais passaram a fabricar fenômenos eleitorais. Afinal, o eleitor continuará premiando a performance diante das câmeras ou começará a cobrar trabalho, coerência e resultados?

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Valfrido Silva

As eleições deste ano prometem muito mais do que a escolha de deputados estaduais e federais, dois senadores, governador e presidente da República. Elas poderão responder uma dúvida que a política brasileira vem empurrando com a barriga desde que as redes sociais passaram a fabricar celebridades eleitorais em escala industrial. Afinal, basta dominar um celular para conquistar votos ou chegou a hora de o eleitor cobrar algo além da performance diante da câmera?

Dourados oferece um dos melhores laboratórios para essa observação. Poucas cidades reúnem, numa mesma eleição, candidatos que construíram sua trajetória quase exclusivamente na força das redes sociais e outros que preferiram apostar no caminho mais lento, menos barulhento e quase sempre menos glamouroso do trabalho parlamentar. O resultado dessa disputa talvez diga muito mais sobre o futuro da política do que propriamente sobre quem vencerá a eleição.

O caso mais emblemático talvez seja o da vereadora Isa Marcondes. Ela surgiu como um fenômeno eleitoral explorando, com enorme habilidade, a indignação popular diante dos problemas da cidade. Sua linguagem direta, sem filtros, encontrou eco principalmente entre os eleitores cansados das promessas convencionais. Durante a campanha, chegou a afirmar que tinha condições de resolver os problemas da saúde porque, segundo sua própria e polêmica definição, “de zona entendia”. A frase viralizou, ajudou a consolidar sua imagem de candidata diferente e acabou transformando-a num dos maiores fenômenos eleitorais da história recente de Dourados.

A política, entretanto, costuma cobrar uma segunda prova. Ser oposição é uma coisa. Participar da engrenagem do poder é outra completamente diferente. Aos poucos, Isa deixou de ocupar apenas a trincheira da crítica para assumir publicamente posição ao lado da administração municipal e integrar a base política que dialoga diretamente com o Governo do Estado, justamente a esfera responsável por boa parte das políticas públicas que antes atacava com tanta veemência. Sua candidatura à Câmara Federal acaba despertando uma curiosidade inevitável: aquele fenômeno eleitoral era fruto apenas da revolta popular ou conseguirá sobreviver quando o eleitor passar a comparar discurso com resultados?

A deputada estadual Lia Nogueira representa outro modelo de construção política ancorado na força da imagem. A experiência acumulada durante anos na televisão lhe proporcionou enorme facilidade para comunicar-se com o eleitor e compreender a lógica das redes sociais. Também ela soube transformar essa exposição em patrimônio eleitoral. O problema é que mandato parlamentar não se mede apenas pelo alcance de vídeos ou pelo número de seguidores. Depois de quatro anos, o eleitor inevitavelmente começa a perguntar o que efetivamente mudou graças ao trabalho do parlamentar. Emendas todos apresentam. Discursos todos fazem. Redes sociais todos utilizam. A diferença aparece quando termina a campanha e começa a prestação de contas.

O caso de Tiago Botelho talvez seja ainda mais interessante. Depois de disputar o Senado apresentando-se como o candidato mais identificado com o presidente Lula em Mato Grosso do Sul e, posteriormente, perder a eleição para prefeito de Dourados, ele volta à disputa apostando, mais uma vez, numa estratégia fortemente apoiada nas redes sociais. Dança, produz vídeos diariamente, explora uma comunicação leve e descontraída e transformou o deputado federal Rodolfo Nogueira em personagem permanente de sua campanha, chamando-o repetidamente de “boca de sacola”. Em muitos momentos, fala mais do adversário do que dele próprio, como se derrotar politicamente o bolsonarista fosse parte essencial da construção de sua própria candidatura. As urnas dirão se essa estratégia continua suficiente para produzir votos.

Curiosamente, os contrapontos mais claros a esse modelo também estão em Dourados. A deputada Gleice Jane dificilmente disputará um campeonato de curtidas ou aparecerá dançando nas redes sociais. Seu mandato foi construído sobre pautas historicamente identificadas com o PT, especialmente a defesa dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, dos direitos humanos e das políticas sociais. Pode-se concordar ou discordar de suas posições, mas dificilmente alguém lhe negará coerência entre aquilo que defende e aquilo que pratica na Assembleia Legislativa.

Situação semelhante vive Renato Câmara. Agrônomo por formação, preferiu construir um mandato voltado para infraestrutura, desenvolvimento regional, agricultura familiar e agronegócio. Chegou, inclusive, a reconhecer publicamente a dificuldade enfrentada por parlamentares que trabalham longe dos holofotes digitais para competir com candidatos que transformam as redes sociais em palco permanente. Enquanto alguns disputam visualizações, outros passam boa parte do tempo em reuniões técnicas, audiências públicas, elaboração de projetos e articulações políticas que dificilmente rendem vídeos virais.

Ninguém está propondo demonizar as redes sociais. Elas democratizaram a comunicação, aproximaram representantes dos representados e romperam um monopólio que durante décadas pertenceu aos grandes meios de comunicação. O problema começa quando alguns imaginam que um vídeo bem editado seja capaz de substituir estudo, experiência, articulação política, capacidade administrativa e entrega de resultados. Não é.

Talvez seja exatamente essa a grande curiosidade destas eleições. Pela primeira vez desde que a política descobriu o poder dos algoritmos, o eleitor terá diante de si dois modelos bastante claros. De um lado, candidatos que apostam quase tudo na velocidade das redes sociais, na viralização de vídeos e na construção permanente de personagens. De outro, políticos que talvez jamais se transformem em influenciadores digitais, mas acreditam que mandato continua sendo oportunidade de trabalhar.

As urnas, soberanas como sempre, darão o veredicto. E ele poderá responder a uma pergunta que ultrapassa, de longe, os limites de Dourados e de Mato Grosso do Sul: o Brasil continuará elegendo fenômenos fabricados pelo algoritmo ou começará a prestigiar, acima de tudo, a consistência do trabalho político?

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