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sábado, agosto 8, 2026

As operações sem ponto final, da PF e do Gaeco

Dos primeiros escândalos municipais às investigações que alcançaram o centro do poder estadual e o crime organizado, uma viagem pelas operações policiais que ajudaram a redesenhar o mapa político e institucional de Mato Grosso do Sul

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Valfrido Silva

Antes da primeira sirene, antes do primeiro mandado de busca e apreensão e muito antes de o noticiário descobrir o tamanho de um escândalo, existe uma providência quase invisível. Alguém precisa batizar a operação policial. Parece um detalhe burocrático. Não é. Em Mato Grosso do Sul, delegados da Polícia Federal e integrantes do Gaeco transformaram essa tarefa quase numa arte. Owari. Brothers. Uragano. Lama Asfáltica. Coffe Break. Vostok. Successione. Gutenberg. Cada nome carrega uma mensagem. Alguns anunciavam o começo do fim. Outros resumiam o método da fraude. Outros escondiam ironias que apenas o tempo trataria de revelar. Mas, muito mais do que nomes criativos, essas operações contam, em sequência, uma parte importante da história recente do Estado.

A primeira grande ruptura veio com a Owari/Brothers. Owari, em japonês, veio com a doce ilusão de ser “o começo do fim”. Brothers fazia referência a dois irmãos empresários presos durante a operação. O nome não poderia ter sido mais apropriado. A investigação abriu caminho para uma sucessão de desdobramentos que culminariam, pouco depois, na Operação Uragano — “furacão”, em italiano — responsável por desmontar um dos maiores esquemas de corrupção já revelados em Mato Grosso do Sul.

Na época, houve quem imaginasse que o nome Uragano fosse uma “homenagem” ao então prefeito de Dourados, Ari Artuzi, descendente de italianos. Descobriu-se rapidamente que o furacão não vinha para homenagear ninguém. Vinha para devastar um sistema inteiro. Levou à prisão o prefeito, que acabaria “renunciando” ao cargo numa cela de um presídio federal de segurança máxima, atingiu vereadores, empresários, secretários municipais e também personagens que se julgavam politicamente inatingíveis. Artuzi, delatado pelo próprio secretário de Governo, Eleandro Passaia, viveria ainda um longo e doloroso epílogo, encerrado anos depois com sua morte, vítima de câncer, distante do poder e enfrentando dificuldades financeiras.

Depois vieram outras operações que já dispensavam maiores explicações apenas pelo nome. Lama Asfáltica, a operação em que foi preso o ex-governador André Puccinelli e alguns de seus assessores mais próximos, talvez tenha sido o batismo mais feliz de todos. Bastava pronunciar aquelas duas palavras para compreender imediatamente o objeto da investigação e o lamaçal político que ela deixaria pelo caminho. A operação alcançou empresários, agentes públicos e contratos milionários, mostrando que a corrupção também sabia trafegar por rodovias aparentemente bem pavimentadas. Como desdobramento, veio a Coffee Break, que investigou a suposta compra de votos de vereadores para a cassação do então prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal.

Mas o roteiro das grandes operações ainda reservaria um capítulo de enorme repercussão política. Em 2018, a Polícia Federal deflagrou a Operação Vostok, voltada à investigação de um suposto esquema de pagamento de vantagens indevidas relacionadas à concessão de incentivos fiscais no Estado. A operação alcançou o então governador Reinaldo Azambuja e executivos do grupo JBS, entre eles Joesley e Wesley Batista, mostrando que as investigações já haviam ultrapassado os limites das administrações municipais para alcançar o próprio centro do poder estadual. Independentemente do desfecho judicial, Vostok tornou-se um marco por colocar, pela primeira vez, um governador sul-mato-grossense em exercício no foco de uma operação da Polícia Federal.

Era mais um capítulo de uma história que insistia em mostrar que as operações não encerravam ciclos. Apenas deslocavam o foco das investigações para novas estruturas de poder. Mas a história não terminava ali.

No meio desse percurso surgiu uma das operações mais emblemáticas dessa longa sequência: Successione. O nome, também italiano, significa sucessão. E poucas vezes um batismo policial traduziu com tanta precisão o conteúdo da investigação. A operação desarticulou a organização criminosa comandada por Jamil Name, levou à prisão o empresário — que morreria posteriormente em um presídio federal — e também seu filho, Jamilzinho, que permanece preso na mesma unidade. Mais do que atingir seus principais líderes, revelou como organizações criminosas constroem mecanismos de continuidade, preservando estruturas e alianças muito além de seus comandantes.

O impacto dessa investigação foi ainda maior porque alcançou um grupo familiar que, durante décadas, exerceu forte influência política e institucional em Mato Grosso do Sul. Além de Jamilson Name, filho de Jamil Name e deputado estadual, a família teve representantes na Assembleia Legislativa, alcançou a presidência da própria Casa e do Tribunal de Contas do Estado, ambas exercidas por Jerson Domingos, cunhado dos Name, enquanto o ramo dos Razuk também consolidava sua presença política com Roberto Razuk e, posteriormente, seu filho, Neno Razuk, ambos deputados estaduais. Foi justamente a Successione que abriu novos caminhos investigativos. Seus desdobramentos atravessaram diferentes fases processuais e, anos depois, voltariam ao noticiário com a prisão, na Bolívia, do ex-deputado Neno Razuk, após a perda do mandato. A sucessão anunciada no próprio nome da operação acabaria se confirmando também na realidade dos fatos: uma investigação puxou outra, um processo levou ao seguinte e uma prisão abriu caminho para novas prisões.

Agora surge Gutenberg.

Confesso que dificilmente alguém encontraria ironia maior. Johannes Gutenberg inventou a imprensa para multiplicar livros e democratizar o conhecimento. Séculos depois, seu nome reaparece numa investigação sobre suspeitas de desvios justamente na aquisição de livros destinados às bibliotecas públicas. Caso as irregularidades sejam confirmadas, será uma dessas coincidências que parecem escritas por um romancista especializado em humor ácido.

Talvez o aspecto mais curioso dessa história não esteja na criatividade dos nomes, mas na trajetória de seus personagens.

Passadas as manchetes, alguns desapareceram dos holofotes. Outros voltaram à política. Alguns morreram. Outros continuam presos. Muitos seguem respondendo a processos que parecem caminhar em velocidade muito inferior àquela das operações policiais. Entre uma investigação e outra reaparece sempre a personagem da trilogia desta semana: a Thêmis pantaneira. Caminhando no seu próprio ritmo, ela permite que o calendário eleitoral avance muito mais depressa do que o calendário judicial.

É aí que mora a maior ironia. As operações costumam nascer com nomes brilhantes, mas nem sempre encontram, na mesma velocidade, um desfecho igual. E enquanto investigadores demonstram criatividade admirável para batizar suas investigações, a lentidão dos processos produz outro fenômeno bastante brasileiro: a amnésia coletiva. O eleitor esquece. Os personagens retornam. As campanhas recomeçam. E, quando finalmente chega uma sentença definitiva, muitas vezes o tabuleiro político já foi completamente reorganizado.

Por isso vale a pena revisitar esses nomes. Não apenas para recordar escândalos. Mas para compreender que eles contam uma mesma história. Owari anunciou o começo do fim. Uragano varreu estruturas de poder. Lama Asfáltica revelou a profundidade do lamaçal. Vostok levou as investigações ao coração do governo estadual. Successione mostrou que o crime também organiza sua própria sucessão. Gutenberg lembra que nem os livros escapam da tentação dos desvios.

Cada operação parecia encerrar um capítulo. Na verdade, abria outro. Talvez porque, em Mato Grosso do Sul, a história das grandes operações policiais talvez ainda esteja longe do ponto final.

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