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sábado, agosto 8, 2026

O museu de uma vida

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Sua casa é um museu. Abriga coleções de livros, discos, dossiês sobre tantas personalidades que cruzou — ou não — ao longo da carreira de jornalista. Há também quadros, fotografias e objetos espalhados pelas paredes e estantes, cada um carregando uma história.

O apartamento é grande: três quartos, sala ampla e cozinha. Nele mora apenas uma pessoa: ela. Até no toalete há quadros nas paredes, estantes de livros e pilhas de discos. Os corredores estreitaram-se com as prateleiras que foram sendo acrescentadas ao longo dos anos. Quase não há espaços vazios. Cada canto parece ocupado por uma lembrança.

— Quanta preciosidade!

— É toda a minha vida!

Aposentada há muitos anos, vive sozinha nesse grande espaço. Já não é jovem. Deve ter ultrapassado os oitenta. Oitenta e cinco? Talvez mais. Os amigos foram desaparecendo, um a um, seguindo o curso natural das travessias humanas. Ela permaneceu. Aos poucos, deixou de viajar para o exterior. Hoje percorre sobretudo a cidade e, mais ainda, o passado, por meio dos filmes de que tanto gosta, dos festivais exibidos na televisão, das músicas que continuam a ecoar entre as estantes e dos livros que ainda consulta.

Os pais partiram. Não teve filhos. Os primos vivem longe e também já envelheceram. Então surge uma pergunta inevitável: o que será de seu futuro? E, sobretudo, de seu “museu”?

Quem cuidará de tantos papéis, cartas, fotografias, livros, discos, anotações? Em tempos digitais, esse acervo material parece pertencer a outro mundo. Terá ela pensado em um sucessor? Em alguém que compreenda o valor de cada objeto e da história que eles contam? Ou imaginado o destino que gostaria de dar a tudo isso?

Mas uma coisa é o desejo de quem preservou uma vida inteira de memórias; outra, bem diferente, é o interesse de quem as receberá. Nem sempre os herdeiros herdam também o sentido dos objetos.

Num tempo de livros eletrônicos, arquivos digitalizados e plataformas de música, que destino aguarda um acervo como esse? Será disperso entre sebos e antiquários? Doado a uma instituição? Vendido em lotes? Ou acabará, silenciosamente, no lixo, como acontece com tantas bibliotecas particulares quando desaparecem aqueles que lhes davam vida?

Talvez os objetos sobrevivam. Talvez desapareçam. O que permanece, afinal: as coisas ou as lembranças que nelas depositamos?

Nas passagens do tempo, nesse lento retorno à poeira — ou ao nada — é assim que vivemos. Por enquanto. Agora.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 15 livros publicados (seis em francês).

Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.

Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.

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