Antes de ler a nota oficial em que a assessoria do governador Eduardo Riedel anuncia sua participação nos debates eleitorais, convém gastar alguns segundos com a fotografia que acompanha o post. Está todo mundo lá, democraticamente espremido no mesmo mosaico, como se eleição para governador fosse fotografia de formatura: apareceu no dia, ajeitou o cabelo, olhou para a câmera e entrou no álbum. Antes de mais nada, reconheça-se que estamos numa democracia e que qualquer cidadão que cumpra as exigências legais tem o direito de disputar o cargo que bem entender. Mas convenhamos: tem muita gente aí, para sermos bonzinhos, que ainda precisa demonstrar se está realmente concorrendo ao governo ou apenas brincando de candidato a governador. Alguns são personagens recorrentes dessa fauna eleitoral, daqueles eternos “competentes” que não podem ouvir falar em eleição, não importa para quê, sem procurar saber onde está a ficha de inscrição. Jefferson Bezerra, por exemplo, o açougueiro da Vila Vargas, é um desses persistentes frequentadores das urnas. Vereador, prefeito, deputado? Vamos lá! Senador, governador, porque não? A democracia também tem espaço para o sonho, para a aventura, para a candidatura destinada a marcar posição partidária e até para aquela cuja verdadeira motivação talvez obrigasse este velho escriba a ressuscitar o repórter investigativo para descobrir o que, afinal, leva alguém a atravessar um Estado inteiro atrás de votos que, em eleições anteriores, caberiam com alguma folga numa reunião de condomínio. Só não se pode exigir do eleitor — nem do jornalismo — que finja que todas as candidaturas possuem a mesma musculatura apenas porque os rostos aparecem com o mesmo tamanho na montagem fotográfica. Ah esse princípio de isonomia…
É justamente por isso que a nota de Eduardo Riedel merece uma leitura menos apressada do que aquela que poderia produzir a acusação fácil de que o governador está simplesmente fugindo dos debates. O comunicado informa que, diante da quantidade de convites e da necessidade de conciliar a campanha com as atribuições de chefe do Executivo, ele participará (apenas), dos encontros promovidos pelo Jornal Midiamax e pela TV Morena. A justificativa é defensável: governador continua governador enquanto pede votos para continuar governador e precisa dividir o tempo entre despacho, reunião, viagem, secretários, crises, agenda administrativa e campanha. Também é compreensível que qualquer candidato estabeleça prioridades num período eleitoral curto. O problema — ou a delícia, dependendo de que lado da bancada se esteja — é que, em política, escolher debate significa também escolher palco. Importa quem organiza, quem pergunta, quem transmite, qual é a audiência e, principalmente, quem estará no púlpito ao lado.
E aí voltamos à fotografia, porque, descontadas as candidaturas que ainda precisam convencer o eleitor de que não estão apenas passeando pelo processo eleitoral, há naquele mosaico alguns encontros capazes de transformar o protocolar “debate de propostas” num belo tête-à-tête, daqueles intensos e turbulentos que, guardadas todas as proporções e pedindo antecipadamente perdão à filosofia francesa, talvez despertassem alguma curiosidade até em Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Só que, em vez das angústias do existencialismo discutidas nos cafés de Saint-Germain-des-Prés, teríamos as nossas próprias inquietações pantaneiras sendo resolvidas num bom e velho teretetê de pé de orelha.
O primeiro deles, inevitavelmente, seria Eduardo Riedel diante de Fábio Trad. Aí, sim, estaria o tête-à-tête que a fotografia praticamente oferece de bandeja: governador e principal adversário frente a frente, cada qual defendendo uma leitura completamente diferente de Mato Grosso do Sul. Trad já avisou que pretende abrir sua caixa de ferramentas assim que a campanha entrar para valer e tem escolhido como alvo justamente aquilo que considera o coração do modelo político e econômico construído nos últimos anos no Estado. Questiona concentração de poder, incentivos fiscais, o modelo excessivamente dependente da exportação de produtos primários e promete confrontar o crescimento exibido nas estatísticas oficiais com a desigualdade que, segundo ele, permanece escondida debaixo do tapete da prosperidade. Riedel, por sua vez, terá a oportunidade de defender exatamente esse modelo, apresentar seus resultados e responder diretamente às críticas daquele que, pelo desenho inicial da disputa, surge como seu adversário mais competitivo. Não seria apenas governo contra oposição. Seriam duas leituras de Estado colocadas frente a frente. E isso, convenhamos, é exatamente para que servem os debates.
Mas a fotografia ainda oferece outras combinações interessantes. João Henrique Catan diante do próprio Fábio Trad, por exemplo, colocaria frente a frente dois opositores de campos ideológicos distintos, um identificado com a direita e outro carregando a bandeira do PT, obrigados não apenas a atacar o governo, mas a explicar ao eleitor por que suas respectivas alternativas seriam melhores. Catan diante de Delcídio do Amaral também promete entretenimento político de primeira linha. Um conhece por dentro a Assembleia Legislativa e dificilmente pisaria num estúdio preocupado em preservar porcelanas; o outro já passou pelo Senado, disputou o governo, frequentou o andar de cima da República e também conheceu seus subterrâneos, carregando uma biografia suficientemente acidentada para não entrar num debate disposto a trocar gentilezas. Dependendo do assunto, um tête-à-tête entre os dois talvez dispensasse até mediador. Bastaria afastar os copos e deixar o cronômetro funcionando.
Mas calma, porque é justamente neste ponto que aparece aquela parte desagradável do jornalismo que costuma estragar as melhores teorias: os fatos. Convenção é uma coisa, anúncio de candidatura é outra, fotografia de candidato é outra, registro na Justiça Eleitoral é outra e urna, meus queridos, é um departamento completamente diferente. Antes de transformar o mosaico numa arena romana e começar a acusar Riedel de escolher adversário, talvez seja mais prudente esperar o TRE-MS terminar o serviço burocrático que antecede o espetáculo. Vamos ver quem estará efetivamente registrado, quem terá chapa, estrutura partidária e condições reais de atravessar a campanha, quem sobreviverá a eventuais questionamentos e, principalmente, quem chegará diante do eleitor carregando alguma coisa além da fotografia. Todos os candidatos que efetivamente estiverem na disputa merecem respeito institucional e espaço compatível com as regras democráticas. Isso não significa, entretanto, que o jornalismo seja obrigado a suspender o senso crítico e fingir que registro eleitoral automaticamente produz densidade política. Não produz. Quem produz isso é voto, aquela mercadoria inconveniente que não aceita release, fotografia bonita, convenção animada, santinho bem diagramado nem currículo autoproclamado como forma de pagamento.
Talvez Riedel reveja seus conceitos e aceite outros convites. Talvez mantenha apenas Midiamax e TV Morena. Talvez algum candidato hoje tratado como figurante cresça durante a campanha e obrigue todo mundo — inclusive este escriba — a engolir algumas palavras acompanhadas de um copo generoso de água. Faz parte. Jornalismo analítico não é exercício de adivinhação, mas observação de um tabuleiro cujas peças ainda estão sendo colocadas. Por enquanto, a fotografia vale mais como provocação do que como retrato definitivo da eleição. Tem Riedel, tem Fábio Trad, tem Delcídio, tem Catan, tem os demais postulantes e tem democracia suficiente para acolher todos eles. O que ainda não sabemos é quanto de candidatura existe dentro de cada candidato. Daí a cautela contrapontiana: antes de exigir que o governador sente diante de oito, dez ou quinze adversários, antes de organizar ringue, sortear púlpito, contratar cronômetro e encomendar pipoca para o eleitor, vamos esperar mais um pouquinho. O TRE ajuda primeiro, a campanha ajuda depois e, finalmente, chega a urna, aquela velha senhora indiscreta que possui o péssimo hábito de revelar aquilo que fotografia, marqueteiro, convenção e discurso conseguem esconder durante meses.
Depois disso, voltaremos ao assunto, inclusive para cobrar de Eduardo Riedel tantos confrontos quantos a disputa política efetivamente justificar. Até lá, deixemos a fotografia pendurada no mural, porque eleição tem candidato de todo tipo: favorito, azarão, franco-atirador, candidato procurando espaço, candidato marcando posição, candidato preparando a eleição seguinte e aqueles que a democracia, generosamente, permite sonhar. Nada contra o sonho. Absolutamente nada. Mas aqui se pretende fazer jornalismo analítico, não distribuição gratuita de certificados de competitividade. Portanto, antes de decretar quem Riedel deve ou não enfrentar, cá com meus botões, vamos esperar o registro das candidaturas e descobrir quem está verdadeiramente no jogo. Depois a gente volta ao tema. Afinal, como ensina aquela velha sabedoria dos balcões onde se negociava de tudo um pouco, antes de começar a discutir o preço da mercadoria é recomendável verificar quem realmente tem garrafa vazia para vender.
