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sábado, agosto 22, 2026

A utopia, as quirerinhas do ‘insubordinado’ e o Robin Hood às avessas

Um golpe na conta bancária, uma conversa entre pai e filhos e uma mansão vizinha da pobreza acabaram transformando a velha discussão sobre desigualdade em assunto para a sacada

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Valfrido Silva

Depois do golpe em que caí esta semana, fazendo desaparecer de minha conta corrente as últimas quirerinhas que ainda restavam por lá — e já dentro do limite, porque dinheiro mesmo, aquele azulzinho e cheiroso que pertence ao correntista, anda sendo uma utopia —, o assunto da sacada com meus filhos nesta sexta-feira acabou sendo justamente este: utopia. Não a deste velho pai descuidado e insubordinado, que vira e mexe consegue se meter numa enrascada. Essa veio menos de quarenta dias depois de um acidente automobilístico que já havia “quebrado minhas pernas”, entre aspas porque, graças a Deus, saí inteiro fisicamente. Quem foi para a oficina, além do carro, foi o orçamento.

Falávamos da outra utopia. Aquela palavra que ainda produz calafrios em determinados setores da política, principalmente quando a conversa encosta na concentração de riqueza. E então me lembrei de uma história ouvida esta semana na Padaria do Fuxico. Uma fazenda da região teria sido vendida por coisa de R$ 100 milhões. “Nunca mais o fulano faz um negócio desses na vida”, comentou alguém. Não revelarei o personagem, naturalmente. Rico também tem direito à privacidade — inclusive quando dispõe de dinheiro suficiente para comprar uma quantidade de privacidade inimaginável para o resto de nós.

O detalhe é que, antes mesmo de embolsar tamanha fortuna, o personagem já havia construído uma mansão de aproximadamente três mil metros quadrados, onde, segundo a conversa, apenas os móveis teriam custado outros R$ 2,5 milhões. Para um casal e dois filhos. Nada contra. Cada um constrói a casa que seu dinheiro permite e coloca dentro dela quantos sofás couberem. O que fez aquela conversa sobre riqueza enveredar para a utopia foi a geografia: a mansão fica num condomínio fechado vizinho às aldeias Jaguapiru e Bororo, onde uma população indígena numerosa convive há décadas com carências que nenhum muro consegue tornar invisíveis. E não recorro a esse contraste apenas porque a fartura e a necessidade praticamente se enxergam por cima do muro. Há também a solidariedade deste insubordinado do jornalismo com seus irmãos do Jaguapiru, onde nasci e cuja realidade, guardadas as devidas proporções, nunca esteve assim tão distante daquela enfrentada pelos povos da maior Reserva Indígena urbana do país.

De um lado, três mil metros quadrados para quatro pessoas. Do outro, famílias espremidas disputando aquilo que deveria ser elementar. Não é preciso ser comunista, socialista, petista, bolivariano nem esconder um exemplar de Marx debaixo do colchão para perceber que há alguma coisa estranha nessa fotografia. Basta ter olhos. A questão nunca deveria ser impedir alguém de possuir muito. A utopia talvez esteja em imaginar uma sociedade na qual ninguém fosse obrigado a viver com tão pouco para que outros possam ostentar tanto.

E foi então que meu golpe bancário voltou à conversa. Pensei nos iluminados criminosos cibernéticos capazes de atravessar sistemas de segurança, enganar bancos, driblar senhas e fazer dinheiro desaparecer com alguns cliques. Com tamanho talento tecnológico, por que diabos esses gênios não desenvolvem um algoritmo minimamente seletivo? Uma espécie de Robin Hood digital que identificasse primeiro quem possui R$ 100 milhões sobrando antes de raspar as últimas quirerinhas de um jornalista que, mesmo em período eleitoral — bons tempos aqueles em que jornalistas e marqueteiros eram paparicados pelos poderosos do poder —, continua fazendo malabarismo para sair do vermelho.

Claro que é brincadeira. Roubo continua sendo roubo, seja a vítima milionária ou esteja no cheque especial.

Mas talvez esteja justamente aí a ironia da nossa utopia brasileira. Conseguimos conviver com fazendas de R$ 100 milhões, mansões de três mil metros quadrados, móveis de R$ 2,5 milhões e tecnologia suficiente para um sujeito que talvez esteja do outro lado do mundo entrar numa conta bancária sem bater à porta. O que ainda não conseguimos inventar é um sistema capaz de fazer prosperidade atravessar o muro que separa a abundância da necessidade.

Quanto às minhas quirerinhas, o banco, a polícia e eu ainda vamos conversar bastante. Só peço aos próximos gênios da informática que, antes de apertarem o Enter, deem uma conferida no saldo. Pobrema por pobrema, até para ser roubado é melhor ter dinheiro.

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