Valfrido Silva
Talvez tenha chegado a hora de o jornalismo eleitoral importar do futebol uma invenção que, apesar de todas as reclamações dos torcedores, resolveu pelo menos um velho problema: diante de uma jogada duvidosa, pare a imagem, volte o lance e confira. Chama-se VAR. Nas eleições brasileiras, sobretudo quando candidatos a presidente da República, governador ou qualquer cargo importante se sentam diante de jornalistas para uma entrevista ou sobem ao palco de um debate, estamos precisando urgentemente de algo parecido.
Pensei nisso depois de assistir, quinta-feira, à entrevista de Lula ao Jornal Nacional e voltar à mesma bancada na sexta para acompanhar Flávio Bolsonaro. No primeiro caso, escrevemos aqui sobre a capacidade de um macaco velho da política de escapar de perguntas incômodas, inverter algumas delas e, em determinados momentos, colocar os entrevistadores na defensiva. Isso não significa que Lula tenha respondido tudo. Significa que soube jogar o jogo. Com Flávio, porém, a experiência foi diferente. Procurei durante os 40 minutos aquele momento em que o candidato deixaria de ser apenas o filho que defende o pai, o irmão que defende o irmão e o adversário que responsabiliza Lula por quase tudo para se apresentar, finalmente, como alguém pretendendo governar um país de mais de 200 milhões de habitantes.
Foi difícil encontrá-lo.
E talvez aí esteja justamente a utilidade do VAR. Porque uma entrevista eleitoral não deveria ser julgada apenas pela segurança com que alguém pronuncia uma frase, pela rapidez da resposta ou pela capacidade de escapar de uma pergunta. Convicção não transforma afirmação em fato. Se transformasse, a própria entrevista de Flávio estaria encerrada por uma de suas frases mais categóricas: “Eu não vou perder essa eleição. E eu digo mais: eu vou ganhar no primeiro turno”.
Pode ganhar? Evidentemente. Pode até ganhar no primeiro turno. Eleição existe justamente porque ninguém conhece antecipadamente o resultado. Mas é difícil encontrar exemplo melhor para demonstrar a distância que às vezes existe entre certeza verbal e realidade verificável.
O curioso é que o próprio Flávio forneceu, pouco antes, uma bela demonstração de como deveria funcionar esse VAR. Questionado por Renata Vasconcellos sobre declarações envolvendo as urnas eletrônicas, reconheceu que havia errado ao afirmar que uma empresa venezuelana fabricara urnas brasileiras. “Falei errado”, admitiu. E declarou que respeitará o processo e o resultado eleitoral. Quando Renata insistiu se isso valeria também em caso de derrota, veio a profecia do primeiro turno.
Ponto para o reconhecimento do erro. É exatamente isso que esperamos de quem é confrontado com um fato incorreto: corrigir.
O problema começa quando acionamos o VAR para outras jogadas.
Na economia, César Tralli perguntou algo bastante objetivo: qual seria o tamanho do ajuste fiscal prometido por Flávio e para qual patamar ele pretendia levar a dívida pública. O candidato respondeu falando da gastança de Lula, juros, impostos e endividamento das famílias. Tralli voltou: para qual patamar? Flávio respondeu “vou chegar lá”. O jornalista tentou novamente saber onde seriam feitos os cortes. O número prometido continuou sem aparecer. Mais adiante, Renata voltou à dívida e novamente não obteve a meta. O candidato prometeu reduzir ministérios, burocracia e cargos comissionados e afirmou que sua eleição, por si só, faria a taxa de juros cair já na reunião seguinte do Copom.
É uma promessa extraordinária. E justamente por isso merece replay.
Na questão ambiental, o VAR é ainda mais necessário. Confrontado com um artigo de 2019 no qual negara o aquecimento global, Flávio preferiu falar em “eventos climáticos extremos” e ciclos de calor, frio, chuva e seca. Renata perguntou diretamente se ele continuava achando que não existe aquecimento global. O candidato novamente falou em eventos cíclicos e relativizou a influência humana. Quando Tralli perguntou quais medidas seu governo adotaria para enfrentar as mudanças climáticas, Flávio respondeu principalmente com saneamento básico e acabou aproveitando o assunto para anunciar Cláudio Lottenberg como futuro ministro da Saúde.
Aqui não estamos mais no território da opinião política. Há ciência envolvida. E checagens publicadas após a entrevista apontaram que a posição apresentada pelo candidato contraria o consenso científico sobre a contribuição humana para o aquecimento global.
O Banco Master proporcionou outro lance digno de câmera lenta. Renata começou a entrevista lembrando as contradições anteriores de Flávio sobre sua relação com Daniel Vorcaro e os R$ 61 milhões destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro. O candidato sustentou que se tratava de patrocínio privado, sem dinheiro público ou contrapartida. Quando Tralli perguntou por que não apresentava contrato, notas, comprovantes e informações detalhadas sobre o financiamento, Flávio afirmou que não assinara contrato e que sua participação consistira em autorizar sua imagem e captar investidores. Diante da insistência sobre a documentação, procurou deslocar o foco para as relações de Vorcaro com Lula e integrantes do governo.
Pode ser uma estratégia política eficiente. Mas mudar o objeto da pergunta não é respondê-la.
O mesmo mecanismo apareceu quando o assunto foi o tarifaço americano. Flávio defendeu Eduardo Bolsonaro, embora tenha reconhecido que o irmão errou ao agradecer a Donald Trump depois da imposição das tarifas. Disse também ter sido praticamente o único agente público brasileiro a ir aos Estados Unidos defender o país. Renata contrapôs que a carta enviada por ele não pedia o encerramento da investigação americana, mas o adiamento da medida. Flávio respondeu que havia tentado usar a possibilidade de mudança de governo como argumento para evitar as tarifas. Checagens posteriores também contestaram algumas das afirmações feitas pelo candidato sobre sua atuação e a de Eduardo nesse episódio.
Talvez o trecho politicamente mais importante, porém, tenha sido aquele em que Flávio voltou ao território que conhece melhor: Jair Bolsonaro. Contestou a condenação do pai pela tentativa de golpe, chamou o processo de “grande farsa”, atacou parte do Supremo e prometeu trabalhar pela anistia ainda durante a transição de governo ou, se isso não ocorrer, conceder indulto. Diante dos depoimentos de militares de alta patente e das investigações sobre o plano contra autoridades, sustentou que responsabilidades deveriam ser individualizadas e que seu pai fora julgado por inimigos.
É legítimo que um candidato defenda politicamente o pai. Também é legítimo que discorde de uma decisão judicial. Mas uma candidatura presidencial precisa necessariamente ultrapassar a árvore genealógica.
Esse talvez tenha sido o maior problema da entrevista de Flávio. Lula compareceu ao JN carregando o peso de um governo para defender. Flávio compareceu carregando uma família para explicar. Vorcaro levava ao pai. O golpe levava ao pai. As urnas levavam ao pai. O tarifaço levava ao irmão. Adriano da Nóbrega levava à própria trajetória familiar e política. Quando finalmente chegaram economia, salário mínimo e clima, faltou muitas vezes a objetividade que se espera de alguém apresentando-se para comandar o Executivo federal.
Isso não significa que Tralli e Renata tenham vencido uma luta e Flávio perdido. Entrevista não deveria ser luta. E esse é justamente o vício que um VAR eleitoral poderia ajudar a combater. O jornalista pergunta. O candidato responde. Depois, alguém precisa voltar ao lance.
Disse que criou 20 mil empregos? VAR.
Prometeu economizar R$ 500 bilhões? VAR.
Afirmou que determinado governo criou ou extinguiu tantos impostos? VAR.
Falou que uma obra custou tanto, que a pobreza caiu por causa de determinado programa, que uma taxa estava em determinado patamar, que nunca disse aquilo que o vídeo mostra que disse? VAR.
E isso precisa valer para Flávio, Lula, Fábio Trad, Riedel, Delcídio, Catan e qualquer outro que queira administrar dinheiro público. Isonomia não consiste em elogiar um candidato na quinta e procurar alguma coisa para elogiar no adversário na sexta. Consiste em aplicar aos dois a mesma régua. Se Lula driblou uma pergunta sem respondê-la, o replay deve mostrar. Se Flávio fez o mesmo, idem. Se qualquer um deles falou a verdade, que receba o ponto. Se exagerou, omitiu contexto ou apresentou como fato aquilo que não resiste à conferência, que apareça no telão.
Agências de checagem fizeram isso ainda durante e depois da entrevista de Flávio. Aos Fatos apontou informações falsas ou imprecisas sobre o filme, o tarifaço e mudanças climáticas; o UOL Confere listou problemas também em declarações sobre Adriano da Nóbrega, Pix, cargos comissionados, 8 de Janeiro e juros. Não significa entregar a essas organizações o monopólio da verdade. Significa apenas fazer o que o jornalismo sempre deveria ter feito: conferir.
Aliás, há aqui também uma ironia deliciosa. Flávio chegou à entrevista solidarizando-se com Renata pelo embate dela com Lula na noite anterior e prometendo que, com ele, a jornalista poderia perguntar o que quisesse. Quarenta minutos depois, não havia conseguido responder objetivamente algumas das perguntas mais simples sobre dívida, documentação do filme e mudanças climáticas.
E terminou como começou: cheio de certeza. Depois de afirmar que respeitará o resultado das urnas, ouviu de Renata a pergunta definitiva: mesmo se perder? Flávio não admitiu sequer a hipótese. “Eu não vou perder essa eleição.”
E foi além:
“Vou ganhar no primeiro turno.” Se todas as verdades pronunciadas naquela bancada tiverem o mesmo grau de certeza dessa última, talvez o Brasil tenha um problema. Ou talvez não. Chama o VAR.
