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sábado, setembro 5, 2026

No Vale da Celulose, Fábio Trad cobra espaço e salário para o trabalhador do MS

Candidato do PT ouve sindicatos em Três Lagoas e põe no debate eleitoral a divisão da riqueza produzida por uma das cadeias industriais mais poderosas do Estado

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Em campanha pelo governo de Mato Grosso do Sul, o ex-deputado Fábio Trad encontrou em Três Lagoas um cenário que talvez sintetize melhor do que muitos discursos o desafio colocado ao candidato de um partido que carrega o trabalhador no próprio nome. No coração de um dos maiores polos de produção de celulose do mundo, cercado por fábricas bilionárias, recordes de exportação e uma transformação econômica que redesenhou o leste do Estado, o candidato do PT ouviu de trabalhadores uma reivindicação bem menos grandiosa e bastante objetiva: mais qualificação, melhores salários e maior participação da mão de obra sul-mato-grossense nos empregos gerados por toda essa riqueza.

A dimensão econômica ajuda a entender o tamanho do contraste. A celulose tornou-se o principal produto da pauta de exportações de Mato Grosso do Sul, respondendo em 2025 por quase 29% de tudo o que o Estado vendeu ao exterior. Três Lagoas, onde operam gigantes como Suzano e Eldorado Brasil, consolidou-se como o maior município exportador do Estado, enquanto a expansão da atividade para Ribas do Rio Pardo e outros municípios transformou a antiga concentração industrial num verdadeiro corredor da celulose. Só as unidades instaladas em Três Lagoas têm capacidade conjunta superior a 5 milhões de toneladas anuais, números que colocam a região entre os grandes centros mundiais do setor.

Foi justamente diante da outra ponta dessa cadeia que Fábio cumpriu sua agenda. O candidato reuniu-se com dirigentes e trabalhadores do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Papel e Celulose de Três Lagoas (SITITREL), do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação e Afins (STIAM) e do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil Pesada (SINTIESPAV-MS). Segundo relatos apresentados nos encontros, postos de maior qualificação — executivos, supervisores, gerentes, engenheiros e profissionais de alta tecnologia — ainda seriam ocupados predominantemente por gente trazida de outros estados. Os sindicalistas afirmaram também que cerca de 80% da chamada mão de obra volante viria de outras regiões.

A principal reivindicação, portanto, não é fechar as portas para trabalhadores de fora, mas preparar quem já vive no Estado para disputar também os melhores postos criados pela industrialização. Um dos trabalhadores lembrou que, quando as primeiras grandes fábricas chegaram, a contratação externa era explicada pela inexistência de profissionais especializados na região. Passados os anos, argumentou, a prioridade deveria ser outra: “O que o nosso trabalhador necessita hoje é de qualificação profissional, para podermos valorizar os nossos.” Os sindicatos também reivindicaram reajustes salariais com ganho real, acima da simples reposição inflacionária, e remuneração compatível com a pujança econômica das empresas instaladas na região.

É nesse ponto que a passagem de Fábio Trad por Três Lagoas ganha importância maior do que a tradicional fotografia de candidato visitando sindicato em época eleitoral. O atual governo apresenta justamente a expansão da celulose como uma das vitrines do desenvolvimento econômico do MS, apoiada pela atração de investimentos privados, incentivos e preparação de mão de obra. Os trabalhadores ouvidos pelo candidato petista apresentam a outra face desse processo: sustentam que a qualificação local ainda é insuficiente para garantir aos sul-mato-grossenses uma fatia maior dos empregos especializados criados pelas próprias indústrias atraídas para cá.

O encontro também coloca uma cobrança sobre o próprio candidato. Ouvir trabalhador é quase obrigação histórica para quem disputa uma eleição pelo PT. Dizer o que pretende fazer por ele é a etapa seguinte. Fábio defendeu a criação de programas efetivos de formação profissional e ouviu reivindicações para que trabalhadores locais estejam presentes tanto no chão de fábrica quanto nos cargos mais qualificados. Mas a campanha ainda tem espaço para detalhar como pretende transformar essa intenção em política de governo, especialmente numa cadeia econômica que movimenta bilhões, recebe incentivos públicos e continuará crescendo nos próximos anos.

A discussão é particularmente oportuna porque não precisa negar o sucesso da política industrial construída no Estado. As fábricas vieram, os investimentos estão aí, as exportações cresceram e a celulose mudou a economia de municípios inteiros. O debate eleitoral pode começar justamente onde termina o discurso da inauguração: quanto dessa prosperidade chega ao salário, à formação profissional e à ascensão de quem nasceu ou escolheu viver no MS?

Fábio aproveitou os encontros para atacar a atual administração, afirmando que o governador dispõe de estrutura política e apoio da grande maioria dos vereadores, mas enfrenta reclamações da população em áreas como saúde e segurança. Depois das reuniões sindicais, encerrou a passagem por Três Lagoas com uma carreata ao lado do candidato ao Senado Vander Loubet. É o ambiente natural de uma campanha, em que governo exibe realizações e oposição procura suas fissuras.

Mas talvez a melhor fissura encontrada pelo candidato petista naquele dia não estivesse num discurso contra o adversário. Estava dentro das próprias fábricas que simbolizam o crescimento do Estado. Mato Grosso do Sul conseguiu criar uma indústria capaz de competir entre as maiores do planeta. A pergunta que os trabalhadores de Três Lagoas colocaram na campanha é se conseguiu, na mesma velocidade, preparar e remunerar quem trabalha para movimentá-la.

Para um candidato do Partido dos Trabalhadores, dificilmente poderia haver pergunta mais apropriada.

contrapontoMS, com assessoria do candidato

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