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sábado, setembro 12, 2026

Efeito Morishita pode eleger Vander e levar o Capitão Contar para o Senado, na garupa dos prefeitos

Com Nelsinho fora e o segundo voto liberado nos currais governistas, o petista encosta no bolsonarista e ressuscita uma velha armadilha eleitoral de Glória de Dourados

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Valfrido Silva

Vander Loubet não começou a encostar em Capitão Contar na pesquisa divulgada nesta quinta-feira. Começou a encostar no dia em que Nelsinho Trad desistiu da reeleição ao Senado e aceitou acomodar-se como primeiro suplente de Reinaldo Azambuja. Foi ali que se desfez, no interior, a obrigatoriedade política de um voto casado inteiramente controlado pelo azambujismo. No papel, sobraram dois candidatos do PL. Na prática, Contar nunca foi um nome orgânico do grupo que governa Mato Grosso do Sul há mais de uma década. É bolsonarista antes de ser liberal, tem eleitorado próprio e mantém com o ex-governador aquela convivência desconfiada de dois galos colocados no mesmo terreiro porque a conveniência partidária recomendou.

Com Nelsinho na urna, prefeitos, vereadores e lideranças ligados ao governo teriam uma razão política, partidária e até familiar para guardar os dois votos dentro de casa. Transformado em suplente de Azambuja, ele deixou de precisar de votos próprios. Contar, embora filiado ao mesmo partido de Reinaldo, não herdou automaticamente essa fidelidade. Para boa parte do establishment o primeiro voto continua carimbado para Azambuja. O segundo virou campo aberto. E foi nessa pastagem aparentemente desocupada que Vander começou a soltar sua boiada.

O movimento ganhou significado especial depois da passagem por Mato Grosso do Sul de Wellington Dias, ministro de Lula, e Henrique Fontana, secretário-geral nacional do PT, durante a convenção que homologou as candidaturas da Federação Brasil da Esperança. Não vieram apenas bater palmas para Fábio Trad, tirar fotografias e voltar a Brasília. A presença dos dois emissários mostrou que o Palácio do Planalto enxergava em Mato Grosso do Sul uma eleição menos fechada do que parecia e, sobretudo, uma possibilidade concreta de salvar a candidatura de Vander ao Senado por meio do segundo voto.

Quem abriu a porteira publicamente foi Juliano Ferro, prefeito de Ivinhema pelo PL, vedete das redes sociais e autointitulado “o prefeito mais louco do Brasil”. Juliano anunciou voto em Eduardo Riedel para governador, Flávio Bolsonaro para presidente, Reinaldo Azambuja para uma vaga no Senado e Vander Loubet para a outra. Conseguiu reunir no mesmo curral o candidato de Lula e praticamente toda a chapa que trabalha para derrotar Lula. Quando pediram sua expulsão do partido, respondeu que, se quisessem tirá-lo, que tirassem. Louco ou não, havia percebido antes de muita gente que, numa eleição com duas vagas para o Senado, o eleitor não é obrigado a comprar o pacote fechado pelo partido.

Depois dele apareceram outros. Nelson Cintra, prefeito de Porto Murtinho, e Júlio Buguelo, de Glória de Dourados, estão entre os nomes que passaram a defender a dobradinha Reinaldo e Vander. O petista afirma contar com a simpatia ou o apoio de cerca de 65 dos 79 prefeitos do Estado, quase todos evidentemente interessados em preservar pontes com o governo federal sem romper com o governo estadual. O número precisa ser recebido com a cautela devida a toda contabilidade apresentada por candidato durante a campanha, principalmente porque boa parte desses apoios permanece na categoria da conversa reservada. Ainda assim, os casos assumidos publicamente mostram que existe um movimento. E a nova pesquisa Ranking indica que ele já pode estar chegando ao eleitor.

No primeiro voto para o Senado, Reinaldo aparece com 33%, Contar com 20,2% e Vander com 18,3%. O petista e o bolsonarista estão tecnicamente empatados nesse recorte. Na pesquisa anterior do mesmo instituto, Contar tinha 21% e Vander, 16,2%. A distância entre eles, portanto, caiu de 4,8 para 1,9 ponto. No segundo voto, Contar ainda conserva vantagem mais confortável: aparece com 24,8%, contra 17% de Vander. Não existe, portanto, empate geral pela segunda cadeira nem motivo para soltar foguetes no diretório petista. Existe uma aproximação suficientemente consistente para obrigar o PL e o azambujismo a olharem com mais atenção para aquilo que seus próprios prefeitos estão fazendo.

E o apoio do prefeito Júlio Buguelo a Vander traz de Glória de Dourados uma história que deveria ser relembrada sempre que alguém imagina poder controlar até onde chegarão os votos dados a um candidato auxiliar.

Na eleição municipal de 1982, o fazendeiro Yassuo Morishita disputava a prefeitura por uma das sublegendas do antigo PDS. Naquele tempo, uma mesma legenda podia lançar até três candidatos, cujos votos eram somados para enfrentar o partido adversário. Como Deodato Leonardo da Silva, candidato da oposição, era muito forte, Morishita resolveu buscar um nome capaz de acrescentar votos à legenda governista. Trouxe de volta a Glória de Dourados o ex-prefeito José de Azevedo, poeta respeitado, homem de reconhecida retidão e já residente fora do município.

A missão de Azevedo parecia simples: entrar na disputa para somar os votos necessários à vitória do PDS e ajudar Morishita a chegar à prefeitura. Ajudou demais. Somou tanto que ultrapassou o candidato que o havia chamado, tornou-se o mais votado da legenda e voltou à prefeitura quando já nem morava na cidade. Morishita armou a estratégia correta para derrotar a oposição, mas errou ao imaginar que continuaria sendo o principal beneficiário dela.

É mais ou menos esse o risco corrido agora pelos prefeitos de direita que oferecem o segundo voto a Vander. Eles acreditam estar ajudando o petista sem prejudicar Reinaldo. Entregariam o primeiro voto ao ex-governador, o segundo a Vander e todos sairiam satisfeitos: Azambuja preservaria sua cadeira praticamente assegurada, os prefeitos manteriam aberta a porta do governo Lula e o eleitor receberia uma dobradinha apresentada como prova de maturidade administrativa.

A urna, entretanto, não costuma respeitar combinações feitas nos gabinetes. Capitão Contar conserva uma base ideológica que não depende dos prefeitos e olha enviesada para Reinaldo Azambuja. Para o bolsonarista mais radical, Azambuja continua sendo um tucano por natureza, convertido recentemente ao PL e ao bolsonarismo pelas conveniências da eleição. Esse eleitor pode dar o primeiro voto a Contar e usar o segundo em qualquer outro nome, anular ou simplesmente não acompanhar a orientação inicial do azambujismo. Enquanto isso, o municipalismo pelo qual Azambuja tanto se gaba entrega a Vander o voto complementar de eleitores que jamais escolheriam espontaneamente um petista.

O resultado possível dessa soma é uma daquelas ironias que a política prepara com prazer: prefeitos governistas podem ajudar Vander a ultrapassar Contar, mas também podem fortalecê-lo o suficiente para que ele conquiste uma das vagas enquanto Contar, sustentado pela extrema direita, fique com a outra. Reinaldo, que hoje lidera com folga e continua sendo o favorito, seria o Morishita dessa história em escala estadual: o homem que abriu espaço para um candidato somar votos e descobriu tarde demais que a soma não obedecia ao dono da calculadora.

É apenas uma possibilidade. Os números atuais ainda colocam Azambuja à frente nos dois votos e não autorizam anunciar sua degola. Mas a eleição para o Senado tem duas urnas dentro da uma só, e o eleitor pode construir combinações que nenhum marqueteiro colocou no santinho. A multiplicação de prefeitos de direita apoiando Vander altera justamente essa matemática.

Juliano Ferro pode ser o prefeito mais louco do Brasil, mas não parece ter feito uma escolha irracional. Ao apoiar Reinaldo e Vander, protege-se em Campo Grande e em Brasília. O risco fica para o comando estadual do PL, que precisa decidir se tolera a infidelidade para não perder prefeitos ou se tenta fechar a porteira e acaba provocando um estouro de boiada.

Em Glória de Dourados, Yassuo Morishita chamou José de Azevedo para ajudá-lo a vencer Deodato. Azevedo ajudou tanto que ganhou a eleição. Agora, prefeitos da direita chamam Vander para ajudá-los a manter uma porta aberta com Lula. Se essa boiada estourar de verdade, poderá levar Vander e Contar diretamente ao Senado. E deixar Azambuja segurando a porteira.

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