Valfrido Silva
O presidenciável Ronaldo Caiado anda acometido por uma sinceridade quase incompatível com a política nacional. Candidato à Presidência da República pela segunda vez, admite que ainda precisa ser conhecido pelo grande público e recomenda aos eleitores que procurem no oráculo Google aquilo que realizou como governador de Goiás. Até aí, palmas para o vivente. Num país em que qualquer candidato a síndico de condomínio já se apresenta como estadista, semideus e última esperança da civilização ocidental, reconhecer que boa parte do eleitorado talvez nem saiba direito quem ele é constitui um raro ataque de humildade. Caiado não pede que o brasileiro acredite nele; pede que dê uma busca. “Procure no Google.” Só faltou avisar que, se aparecer um anúncio patrocinado prometendo emagrecimento instantâneo, não faz parte do plano de governo.
A humildade, porém, dura até o candidato começar a conjugar os verbos. Aí o homem abandona o modesto “pesquise o que fiz” e embarca triunfalmente no “eu vou fazer”, “eu vou rever”, “eu vou encaminhar”, “eu vou resolver”. O verbo vai na frente, a faixa presidencial vem logo atrás e o eleitor é convidado apenas para assistir à posse. Calma, doutor Caiado! Entre aquilo que o candidato deseja fazer e aquilo que efetivamente poderá fazer existe uma eleição. Aliás, duas, se houver segundo turno. Existem adversários, votos, urnas e aquela figura cada vez mais tratada como estorvo nas campanhas: o eleitor. Antes do “vou fazer” deveria aparecer uma partículazinha minúscula, humilde, democrática e perigosíssima para a autoestima de qualquer candidato: o se.
Se Jânio Quadros baixasse mediunicamente nesta crônica, provavelmente resolveria o problema com uma mesóclise: “Fá-lo-ei porque eleger-me-ão.” E, caso alguém lembrasse que os votos ainda não foram contados, atribuiria a dúvida às forças terríveis que se levantam contra a conjugação nacional. Jânio ao menos tinha intimidade com os pronomes. Os candidatos atuais não querem saber onde colocá-los; querem colocar-se diretamente no cargo. Primeiro anunciam o que farão. Depois, se der tempo, convocam a eleição.
E aqui entra a gramática, essa instituição rigorosa que ainda não foi capturada pelos marqueteiros. “Vou fazer” é uma locução verbal: o verbo ir, conjugado no presente do indicativo — “vou” — acompanhado do infinitivo “fazer”. Embora esteja formalmente no presente, a expressão aponta para o futuro. É o chamado futuro perifrástico, muito usado na fala cotidiana e ainda mais por candidato que pretende transformar desejo em fato consumado. Já “farei” é o futuro do presente do indicativo, tempo verbal apropriado para uma ação que deverá ocorrer adiante. Mas, numa eleição, ele não deveria andar sozinho, estufando o peito pela propaganda. O casamento gramatical e democraticamente recomendável seria: “se eu for eleito, farei”. “For” está no futuro do subjuntivo, porque expressa uma condição possível, mas ainda incerta; “farei” está no futuro do presente do indicativo, porque anuncia aquilo que poderá acontecer depois de a condição ser cumprida. Primeiro o povo vota. Depois, se votar no abençoado, ele fará. Pelo menos na gramática, porque na política o verbo “fazer” costuma virar defectivo assim que termina a apuração.
Também seria correto dizer: “caso eu fosse eleito, faria”. Nesse caso, “fosse” está no pretérito imperfeito do subjuntivo e “faria” no futuro do pretérito do indicativo, tempo também conhecido pelo valor condicional. É uma construção que apresenta a eleição como hipótese mais remota, quase uma delicadeza adequada aos candidatos que aparecem nas pesquisas com menos votos do que uma enquete para escolher o sabor da pizza. “Caso fosse eleito, faria.” Bonito, honesto e gramaticalmente civilizado. O dito-cujo admite que pode não ser eleito, coisa que no Brasil parece mais humilhante do que confessar caixa dois. Convém lembrar ainda que o se não indica, sozinho, presente, passado ou futuro. Ele funciona, nesse caso, como conjunção condicional. Traduzindo para a língua da campanha: o “se” é aquela palavrinha que impede o candidato de tomar posse antes da votação.
Odorico Paraguaçu, que jamais permitiria à gramática atrapalhar uma inauguração, chamaria o se de “partícula condicionante da futurabilidade realizativa”. E explicaria aos sucupiranos: “Se eleito eu for, fazerei tudo quanto prometido estiver, salvo os impedimentos impeditivos das forças oposicionistas.” Pronto: não disse coisa com coisa, mas inaugurou a promessa, cortou a fita do futuro e ainda responsabilizou a oposição pelo que não fez. Odorico compreenderia perfeitamente a propaganda eleitoral brasileira. Talvez estranhasse apenas que os candidatos de hoje consigam superá-lo sem a ajuda de um único roteirista.
Caiado, vá lá, é político calejado, governou o Goiás, possui realizações para exibir e pretende se apresentar como alternativa viável à polarização, embora o messianismo bolsonarista continue açambarcando boa parte dos votos da extrema direita. Pode-se tolerar nele alguma intimidade prematura com o Palácio do Planalto. Risível mesmo é a legião dos chamados nanicos, viventes que não reúnem intenção de voto suficiente para encher uma Kombi, mas aparecem diante das câmeras prometendo construir ferrovias, hospitais, universidades, usinas nucleares, portos marítimos em estados sem mar e, sobrando tempo, resolver a guerra no Oriente Médio. O candidato “tem” traço na pesquisa e anuncia: “Quando eu for governador, vou transformar o Estado.” Quando? Nem o verbo acredita nisso, mas o marqueteiro manda repetir olhando para o horizonte.
Há ainda uma categoria mais avançada no curso de apropriação indébita do mandato: a dos candidatos que já se apresentam acrescentando o cargo ao próprio nome. “Sou Fulano de Tal, deputado estadual.” “Sou Beltrano da Silva, deputado federal.” Não, abençoado. Você é candidato a deputado. O título ainda pertence ao futuro, depende do voto e continua protegido por aquele pequeno se que a campanha resolveu abolir. Mas o vivente cola “deputado” ao nome como se fosse sobrenome de cartório e sai confundindo o eleitor, embora muitas vezes não saiba nem para que lado fica Brasília, muito menos em qual bloco do Parque dos Poderes funciona a Assembleia Legislativa. Deputado federal trabalha no Congresso; deputado estadual, na Assembleia. Parece elementar, mas para quem já tomou posse na própria imaginação, geografia, gramática e eleição são apenas entraves burocráticos. Na Justiça Eleitoral, registra-se como candidato; diante do microfone, promove-se por conta própria. É o único servidor público que ocupa o cargo antes da nomeação e recebe o mandato em parcelas de propaganda enganosa.
Em Mato Grosso do Sul temos o nosso já lendário açougueiro da Vila Vargas, candidato ao governo pelo Agir. O nome do partido entrega de graça uma campanha que os gênios da propaganda talvez ainda não tenham percebido. Bastaria colocar o homem diante da câmera e fazê-lo dizer: “Se eu for eleito, vou agir.” Pronto. Curto, coerente e relativamente sincero. Nem precisaria contratar marqueteiro; bastaria um redator de meia diária, que poderia receber em carne de segunda — porque filé-mignon deve estar reservado aos candidatos competitivos. O importante seria preservar o se. Sem ele, o açougueiro corre o risco de vender a prometida picanha do Lula antes de o eleitor cair na real, pois o que sobra não dá mais para comprar nem pé de galinha.
Mas esse problema não é exclusividade dos nanicos. As campanhas milionárias também despejam “eu vou”, “eu farei”, “eu garanto” e “eu prometo” como se dinheiro de fundo eleitoral comprasse até autorização para abolir o modo subjuntivo. Produzem filmes mais sofisticados que muito festival de cinema, com drones, trilha épica, famílias sorridentes e o candidato caminhando em câmera lenta, mas ninguém chama um professor de português para lembrar que a democracia é essencialmente subjuntiva: ela trabalha com possibilidade, condição, dúvida e vontade popular. A ditadura, essa sim, prefere o indicativo. Não pergunta “se”. Apenas anuncia o que fará.
Talvez não seja apenas arrogância. Pode ser ignorância mesmo — gramatical, eleitoral e, em determinados casos, existencial. Ao eliminar o se, o candidato não comete somente um tropeço de português. Comete uma pequena fraude narrativa: apaga da frase justamente quem decide se ele chegará ao cargo. Jânio recorreria à mesóclise, Odorico inventaria uma palavra e o candidato moderno simplesmente aboliria a condição. Por isso, antes do próximo programa eleitoral, todos deveriam repetir a lição: se eu for eleito, farei. Muito bem, turma! Agora falta enfrentar a prova. Depois, caso sejam eleitos, veremos se farão. Porque conjugar o verbo é relativamente fácil. Difícil é não matar a promessa depois da posse.
Texto produzido em parceria humano–IA para o contrapontoMS
