Anita Tetslaff*
A aprovação da escala 5×2, com jornada máxima de 40 horas semanais e dois dias de descanso, promulgada pelo Congresso Nacional em 16 de outubro de 2026, representa a maior alteração nas relações de trabalho no Brasil em décadas. O texto, que tramitou como Emenda Constitucional nº 141/2026, foi aprovado no Senado por 75 votos a 1 e prevê uma transição gradual com redução para 42 horas em até 60 dias, e a carga de 40 horas em até 14 meses, sem corte salarial. O feito, celebrado como vitória da classe trabalhadora, ocorre, no entanto, em um cenário que expõe as contradições do realismo capitalista e a ascensão da extrema-direita. A questão central não é se a redução da jornada é positiva, mas se ela é transformadora, porque, mesmo diante de uma conquista material concreta, o campo progressista segue perdendo a batalha narrativa para um adversário que transforma cada avanço social em nova trincheira de desinformação e ressentimento.
A aprovação da escala 5×2 é, em si, uma resposta a uma demanda histórica. Dados da própria Câmara dos Deputados revelam que 80% dos vínculos com jornadas superiores a 40 horas semanais concentram-se na faixa de renda de até dois salários mínimos, atingindo de forma desproporcional trabalhadores pretos, pardos e mulheres em situação de dupla precarização. O fim da escala 6×1, portanto, não é uma pauta abstrata, mas, sim, uma intervenção direta sobre a exaustão de quem tem menos poder de barganha. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao promulgar a emenda, rebateu as críticas empresariais com uma analogia histórica: “Eu lembro da campanha do 13º salário, no começo dos anos 1960, foi a mesma coisa: vai quebrar as empresas! […] Não quebrou as empresas”.
No entanto, a aprovação ocorre sob o signo do que Mark Fisher conceituou como “realismo capitalista”. A tese de Fisher é que o capitalismo naturaliza suas próprias limitações, fazendo com que a exploração e a precariedade sejam percebidas não como contingências históricas, mas como uma condição inescapável. A redução da jornada, nesse quadro, corre o risco de ser absorvida como uma concessão sistêmica, um ajuste que alivia o sintoma (a exaustão) sem tocar na raiz (a lógica da acumulação que produz a exaustão). A transição de 14 meses, com redução gradual e sem revisão da estrutura de poder nas relações laborais, ilustra como até mesmo uma vitória é enquadrada nos limites do “realismo”: é preciso negociar, adaptar, não rupturar. O risco, como Fisher argumentaria, é que o anticapitalismo gestual, que consiste em celebrar a conquista e seguir adiante, reforce o próprio sistema que produz a precariedade.
É nesse ponto que a atuação da extrema-direita se torna reveladora. A Emenda 141/2026 foi aprovada com o voto favorável de parlamentares do PL, partido do campo bolsonarista, em um movimento de recuo estratégico diante da popularidade da pauta. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, que inicialmente se opunha à proposta, decidiu votar a favor e, em seguida, passou a defender uma “jornada flexível” baseada na “liberdade para o trabalhador escolher a sua própria carga horária”. A proposta, na prática, vincula a remuneração e os direitos à quantidade de horas contratadas, permitindo a negociação individual direta com o empregador, um modelo em que, como alerta o economista Marcelo Manzano, “a redução da jornada viria acompanhada de redução da renda”. A deputada Jandira Feghali (PCdoB) denunciou manobras para descaracterizar a proposta, incluindo emendas que adiariam a implementação para 2036 ou ampliariam o poder patronal de negociação.
Aqui se revela a sofisticação da extrema-direita quando não nega o desespero popular, mas o canaliza. Diante de uma conquista real como a escala 5×2, o bolsonarismo não a combate de frente, porque isso seria impopular. Em vez disso, desloca o debate para o terreno da “liberdade individual”, oferecendo uma ilusão de autonomia que, na prática, aprofunda a precarização. É a mesma lógica do experimento da “Terceira Onda”: não se apresenta como fascismo, mas como uma oferta sedutora de pertencimento e poder. O trabalhador exausto, que conquistou dois dias de folga, é convidado a acreditar que pode negociar sozinho com o patrão as condições da própria vida. Isso é apenas uma ficção que ignora a assimetria estrutural entre capital e trabalho. A extrema-direita, assim, não apenas explora o desespero; ela o reorganiza em uma narrativa em que a exploração aparece travestida de liberdade.
Os fatos se relevam no Relatório do Observatório Internacional de Estudos sobre Terrorismo (OIET) que documentou 190 incidentes de extrema-direita em 2025, um aumento de 33,8% em relação ao ano anterior, com os Estados Unidos como epicentro global. O Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, aponta que 44 países estavam em processo de autocratização em 2026. A aprovação da escala 5×2, longe de ser um contraponto a esse cenário, é mais um dado que complexifica a análise. Mesmo quando uma demanda social é atendida, o ecossistema que alimenta a extrema-direita permanece intacto, e, em alguns casos, se fortalece, porque a conquista é usada como prova de que “o sistema funciona” ou, inversamente, como objeto de ressentimento por parte de quem se sente excluído dela.
A promulgação da Emenda Constitucional nº 141/2026 é uma vitória que não deve ser minimizada. Ela representa alívio concreto para milhões de trabalhadores e demonstra que a mobilização social pode produzir mudanças materiais. Mas seria um erro tratá-la como ponto final. O “realismo capitalista” ensina que o sistema é capaz de absorver demandas e transformá-las em novas formas de legitimação. A extrema-direita, por sua vez, demonstra que não precisa vencer todas as batalhas para seguir vencendo a guerra narrativa: basta que cada conquista seja enquadrada dentro de sua lógica de “liberdade individual” e desconfiança das soluções coletivas. Combater esse fenômeno exige mais do que a defesa de pautas progressistas isoladas. Exige a reconstrução de uma imaginação política que não se contente com a redução da jornada dentro do capitalismo, mas que ouse perguntar, como Fisher, por que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim de um sistema que produz exaustão e desigualdade. A escala 5×2 é um passo. A radicalização do debate, no sentido de ir à raiz, segue sendo a tarefa pendente.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
