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quinta-feira, outubro 22, 2026

A direita saiu do armário, a esquerda mudou de nome e o jornalismo perdeu a bússola

Quase quatro décadas depois da redemocratização, o Brasil transformou posições políticas em etiquetas de campanha e comentaristas em torcedores; enquanto isso, a verdade procura um lugar entre duas trincheiras

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Valfrido Silva*

A jornalista Fátima Bernardes, que durante 14 anos ocupou uma das cadeiras mais prestigiadas do jornalismo brasileiro, a bancada do Jornal Nacional, resolveu trocar a discrição política que marcou sua carreira na televisão pela declaração pública de voto. Num vídeo divulgado nas redes sociais nesta reta final da campanha presidencial, a ex-âncora da Globo pediu votos para Lula e Geraldo Alckmin, explicou suas razões e fez questão de dizer que não é necessário ser petista para escolher o candidato à reeleição. Fátima tem todo o direito de manifestar suas convicções, especialmente agora, fora da emissora. Mas sua aparição oferece um gancho irresistível para uma reflexão que vai muito além de sua preferência eleitoral: em que momento o Brasil transformou a identidade política numa espécie de profissão de fé e o jornalismo, que deveria examinar os dois lados da disputa, começou a ser confundido com uma extensão das trincheiras? A pergunta ganha dimensão ainda maior quando se observa a nova geração de brasileiros que, sem ter vivido a ditadura nem acompanhado a redemocratização, descobriu uma curiosa modalidade de apresentação pessoal: antes de dizer o que pensa, anuncia orgulhosamente que é de direita. Como se a palavra, sozinha, dispensasse qualquer explicação. E como se a história não tivesse nada a ensinar sobre o assunto.

A ironia é que Paulo Salim Maluf, um dos mais conhecidos representantes da direita brasileira no período da redemocratização, já tratava essa divisão com desdém. Em sabatina à Folha de S.Paulo, em agosto de 2002, afirmou que esquerda e direita eram sinais de trânsito e que, na Europa, o importante seria a eficácia dos governos. Não deixa de ser curioso ouvir semelhante simplificação de um político cuja carreira foi construída, em boa medida, sobre uma identidade conservadora. Maluf certamente não encerrou o debate ideológico com aquela frase. Mas ela retrata uma época em que parte da classe política procurava apresentar a velha divisão como assunto superado. Na Alemanha ou na Áustria, a orientação para ocupar um lado da escada rolante pode organizar a circulação de pessoas; na política, entretanto, as palavras continuam designando diferenças que não desaparecem apenas porque alguém resolveu transformá-las em instruções de trânsito.

O filósofo italiano Norberto Bobbio dedicou um livro inteiro, Direita e esquerda, a demonstrar por que a distinção permanecia relevante. Seu argumento central não dependia de camisetas, slogans ou palavras de ordem, mas das diferentes maneiras de compreender e enfrentar a desigualdade. De forma resumida, as tradições de esquerda tendem a atribuir maior importância à redução das desigualdades socialmente produzidas, enquanto correntes de direita aceitam determinadas diferenças e hierarquias como legítimas ou inevitáveis. Há inúmeras variações dentro de cada campo. Existem direitas democráticas e autoritárias, esquerdas reformistas e revolucionárias, conservadores comprometidos com as instituições e movimentos que as desprezam. Confundir tudo isso é transformar a ciência política numa briga de torcida. Bobbio oferecia instrumentos para compreender divergências; a propaganda eleitoral frequentemente prefere dispensar o eleitor desse trabalho.

O bolsonarismo recolocou a palavra direita no centro da identidade política brasileira, associando-a a pautas de costumes, segurança pública, antipetismo e críticas ao sistema político. Parte desse movimento pertence ao conservadorismo democrático; outra parte produziu manifestações de hostilidade às instituições e de contestação dos resultados eleitorais. A distinção não é detalhe acadêmico. A experiência histórica demonstra que regimes de extrema direita podem desembocar em perseguição política, supressão de liberdades e violência de Estado, como ocorreu sob o nazismo alemão. Mas seria historicamente incorreto atribuir automaticamente esse legado a qualquer jovem que hoje se declare de direita. O problema não é alguém assumir uma posição conservadora aos trinta anos. É fazê-lo sem compreender suas origens, suas diferentes correntes e, sobretudo, os limites que a democracia impõe a qualquer projeto de poder. O mesmo rigor precisa alcançar quem se identifica com a esquerda e ignora os crimes praticados por regimes autoritários que também reivindicaram esse nome.

A filósofa Hannah Arendt, autora de As Origens do Totalitarismo, mostra como movimentos políticos podem explorar o isolamento, a propaganda e a transformação de explicações simplificadoras em verdades absolutas. Sua reflexão alcança experiências históricas de diferentes matrizes ideológicas, sem apagar as diferenças entre elas. George Orwell, que conheceu os efeitos da propaganda e do autoritarismo, também fez da manipulação da linguagem um tema central de sua literatura. Em 1984, a deformação das palavras ajuda a sustentar a deformação da realidade. Não precisamos imaginar que o Brasil esteja vivendo literalmente dentro desses livros para reconhecer um mecanismo familiar: quando um grupo monopoliza o significado de patriotismo, liberdade, democracia ou justiça, o adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ser tratado como inimigo dessas próprias virtudes. A linguagem deixa de servir ao entendimento e começa a funcionar como instrumento de exclusão.

Foi nesse ambiente que parte do jornalismo brasileiro perdeu a distância necessária entre observar e participar. Comentaristas passaram a ser identificados menos pela qualidade de suas análises do que pelo campo político ao qual supostamente pertencem. Alguns veículos cultivam espaços de opinião declaradamente alinhados; outros procuram preservar a separação entre reportagem e comentário, nem sempre com sucesso. A pluralidade editorial é legítima, assim como o direito de um jornal defender posições em seus editoriais. O problema começa quando a seleção de fatos, a escolha de fontes e a maneira de formular perguntas são subordinadas à necessidade de confirmar uma convicção anterior. O repórter deixa de procurar o que aconteceu e passa a procurar o que serve à sua tese. E o público, em vez de receber informação para formar opinião, recebe opinião apresentada com a aparência de informação.

Os grandes grupos de comunicação ainda dispõem de estruturas capazes de produzir investigações, manter correspondentes, consultar documentos e submeter informações a processos de edição e verificação. Isso não os torna imunes a interesses empresariais ou preferências editoriais, mas seria injusto negar a importância do jornalismo profissional que continuam realizando. Também há publicações independentes, como a piauí, que investem em reportagem aprofundada e narrativas mais demoradas. O tamanho da empresa, entretanto, não assegura independência, assim como o rótulo de alternativo não garante qualidade. Há veículos pequenos que investigam com seriedade e grandes redações que erram; há iniciativas independentes que corrigem distorções e outras que apenas reproduzem, em escala menor, a militância que criticam. O critério precisa ser o mesmo para todos: fatos verificáveis, fontes identificáveis, direito de resposta, disposição para corrigir erros e liberdade para contrariar o próprio público.

A campanha presidencial oferece um exemplo quase didático da confusão entre identidade e conveniência. Na reta final do segundo turno, Lula passou a utilizar na propaganda eleitoral as críticas do general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, enquanto Geraldo Alckmin, seu vice-presidente e antigo adversário, dirige mensagens aos eleitores conservadores. O general da reserva não se transformou em petista por criticar Bolsonaro, assim como Alckmin não apagou décadas de trajetória política ao ingressar no PSB e compor a chapa de Lula. Do outro lado, Flávio Nantes procura ampliar sua identificação para além do eleitorado mais fiel ao pai. As campanhas reconhecem, assim, aquilo que a militância frequentemente se recusa a admitir: os cidadãos não cabem perfeitamente nas duas caixas ideológicas que lhes oferecem. É possível discordar da esquerda e rejeitar o bolsonarismo, assim como é possível criticar o governo Lula sem aderir à extrema direita.

Talvez a consequência mais grave da polarização seja a erosão da confiança na própria possibilidade de uma verdade compartilhada. Um dado econômico deixa de ser examinado por sua metodologia e passa a ser aceito ou rejeitado conforme favoreça determinado candidato. Uma decisão judicial é celebrada ou condenada antes mesmo de se conhecerem seus fundamentos. Uma denúncia contra um aliado vira perseguição; contra um adversário, torna-se prova definitiva. A mesma régua muda de tamanho conforme a pessoa que será medida. Quando o jornalismo aceita participar desse jogo, abre mão justamente daquilo que o distingue da propaganda. Não lhe cabe fabricar uma falsa equivalência entre fatos comprovados e alegações sem fundamento, nem distribuir críticas mecanicamente para parecer equilibrado. Cabe-lhe aplicar a mesma exigência de prova, contexto e responsabilidade a quem quer que esteja no poder ou pretenda alcançá-lo.

O contrapontoMS não está fora desse desafio. Nenhum veículo está, especialmente quando precisa sobreviver economicamente, convive com pressões políticas e publica análises assinadas por profissionais que, como qualquer cidadão, têm convicções próprias. A independência não nasce de proclamar-se insubordinado, mas de demonstrar, edição após edição, que o compromisso com os fatos pode contrariar amigos, anunciantes, leitores e até o autor do texto. É uma obrigação trabalhosa, às vezes ingrata, que não se resolve com uma declaração de neutralidade na página de apresentação. Exige a humildade de reconhecer um erro, a coragem de publicar uma informação inconveniente e a disciplina de não transformar suspeita em sentença.

No domingo, os brasileiros escolherão um presidente. Na segunda-feira, independentemente do resultado, continuarão convivendo com vizinhos, parentes e colegas que pensam de maneira diferente. A democracia não exige que todos abandonem suas convicções, mas depende de que ninguém considere sua própria convicção uma autorização para destruir a legitimidade dos demais. Direita e esquerda continuarão existindo, como Bobbio demonstrou, porque expressam divergências reais sobre a organização da sociedade. O que não precisa continuar é a transformação dessas diferenças em atestados de virtude ou certificados de culpa. E o jornalismo, se quiser recuperar a confiança que a polarização ajudou a corroer, terá de reaprender uma lição antiga: não nasceu para escolher em qual trincheira a verdade deve morar, mas para procurá-la mesmo quando ela incomoda os dois lados.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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