Valfrido Silva*
O senador Flávio Bolsonaro, o Nantes, não é apenas o herdeiro político de uma pretensa dinastia derrotada nas urnas brasileiras. Pelo visto, é também um tremendo pé-frio. Bastou desembarcar nos Estados Unidos para o tio Trump experimentar uma daquelas noites eleitorais que ninguém gostaria de guardar no álbum de família. E não foi uma simples escorregada: a onda democrata nas eleições de 3 de novembro acendeu o sinal amarelo para o presidente americano, que agora terá de enfrentar uma oposição fortalecida e um Congresso menos disposto a lhe estender o tapete.
As eleições legislativas americanas desta terça-feira produziram uma onda democrata maior do que a prevista. A oposição avançou na Câmara e no Senado, conquistou disputas importantes e colocou Donald Trump diante de um cenário muito mais complicado para a segunda metade de seu mandato. O presidente, que convocou os eleitores a votar como se seu próprio nome estivesse nas cédulas, acabou como o principal derrotado da noite.
E agora, tio Trump? Depois de tanta disposição para acolher e fazer salamaleques a aliados brasileiros inconformados com o resultado das urnas, será que ainda sobrará tempo para cuidar dos hóspedes políticos que atravessaram a fronteira em busca de proteção e respaldo? A família Bolsonaro e sua caterva de traidores da soberania brasileira talvez descubram que a hospitalidade política também depende da conveniência de quem abre a porta.
A situação não é exatamente das mais confortáveis. A imprensa internacional informa que parlamentares democratas já cobravam explicações do governo americano sobre a acolhida a Flávio Bolsonaro e indicavam interesse em investigar possíveis interferências na política brasileira. Com uma oposição fortalecida no Congresso, a Casa Branca poderá enfrentar mais cobranças sobre suas decisões diplomáticas, comerciais e sobre a relação com o Brasil.
O avanço democrata não se limitou a um susto passageiro: Trump perdeu nas urnas e sofreu um revés político que enfraquece sua posição e altera a correlação de forças no Congresso. A partir de agora, terá de lidar com uma oposição fortalecida, mais disposta a cobrar explicações, abrir investigações e contestar decisões da Casa Branca. Para os aliados brasileiros que apostaram no prestígio do presidente americano, a mudança de cenário pode significar menos acolhimento político e mais portas fechadas.
Para Nantes, a coincidência tem o gosto de uma perversa ironia: saiu do Brasil depois da derrota eleitoral e foi parar num país em que seu anfitrião acaba de receber um recado contundente das urnas. O refúgio que parecia oferecer palanque internacional pode acabar cercado por perguntas inconvenientes.
O contrapontoMS (quem somos nós!) não precisa de bola de cristal para perceber o tamanho do constrangimento. Basta acompanhar o calendário: o derrotado brasileiro procura abrigo, o anfitrião americano perde terreno e os democratas se preparam para apertar o cerco. Se Nantes é mesmo pé-frio, tio Trump acaba de ganhar um hóspede que não trouxe sorte — e talvez ainda lhe dê trabalho.
Por tudo que se questionou da soberania brasileira nas eleições no Brasil, a ironia é pra lá de soberana: quem tentou transformar a política brasileira em quintal de interesses estrangeiros pode descobrir que, na casa do tio, a festa também acabou. E o anfitrião, “republicano”, agora, terá de se preocupar, primeiro, com o bode que os democratas acabam de colocar em sua própria sala.
