Valfrido Silva*
Zeca do PT resolveu avisar que não pretende continuar andando na rabeira de ninguém. A declaração, publicada pelo InvestigaMS, tem endereço conhecido: a hegemonia política construída por Reinaldo Azambuja em Mato Grosso do Sul, sustentada por uma ampla rede de prefeitos e lideranças municipais. O deputado estadual e ex-governador quer que o PT comece desde já a organizar suas forças para as próximas eleições municipais e apresente candidatos próprios onde tiver condições de disputar. A frase é curta, mas carrega uma mudança de orientação: “Onde tiver candidato, o PT tem que ter candidato. Chega de apoiar e andar na rabeira de gente que a gente sabe que em 2030 vai estar contra nós”. Traduzindo do idioma partidário: acabou a temporada de emprestar votos, palanques e musculatura política para aliados que, na hora decisiva, podem estar do outro lado.
A ofensiva tem uma razão eleitoral e outra histórica. Zeca conhece o peso de uma máquina política organizada, sabe como se constrói presença nos municípios e não ignora que uma eleição estadual começa muito antes da campanha para governador. Prefeitos, vereadores, diretórios partidários, lideranças comunitárias e capacidade de mobilização formam uma engrenagem que não se improvisa às vésperas da votação. Se o PT pretende disputar, pra valer, o governo de Mato Grosso do Sul em 2030 — ou simplesmente recuperar terreno nas cidades —, precisa deixar de ser o parceiro que entra em determinadas alianças para garantir a vitória alheia e sai delas com pouco espaço para reivindicar protagonismo.
Zeca não é um estreante tentando descobrir o mapa político do Estado. Governou Mato Grosso do Sul por dois mandatos, entre 1999 e 2006, e participou de um período decisivo para a consolidação do PT no plano nacional. Sua relação com Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassa o vínculo protocolar entre correligionários. Os dois são amigos e companheiros políticos de longa data, com uma intimidade construída também longe dos palanques, nas conversas e pescarias do Pantanal. O sítio Estrela Vermelha, às margens do Rio Paraguai, em Porto Murtinho, tornou-se cenário conhecido dessas temporadas pantaneiras. Lula já recordou publicamente as pescarias com Zeca, inclusive brincando que foi ele quem ensinou o governador a pescar. A política, como se vê, também se faz entre uma prosa e outra, sem microfone, bandeira ou discurso preparado.
Essa amizade não deve ser confundida com uma explicação única para a trajetória presidencial de Lula, mas o papel de Zeca na primeira eleição do petista à Presidência, em 2002, foi politicamente relevante. O governador sul-mato-grossense ajudou a construir o palanque de Lula no Estado e saiu daquele ciclo fortalecido. Era o momento em que a vitória nacional do PT ampliava horizontes para seus aliados regionais e conferia novo peso a lideranças que, até então, enfrentavam estruturas políticas consolidadas. Zeca conheceu, portanto, uma época em que a onda nacional impulsionava o partido também nos Estados. Agora, diante da vitória de Lula em 2026, pretende transformar novamente o capital político do presidente em força organizada — mas sem repetir o papel secundário que considera ter desempenhado em alianças anteriores.
Do outro lado está Reinaldo Azambuja, ex-governador por dois mandatos e senador eleito pelo PL, com 903.554 votos, equivalentes a 34,64% dos votos válidos para o Senado em Mato Grosso do Sul. Sua vitória pessoal é incontestável do ponto de vista eleitoral. O resultado, porém, não encerra a discussão sobre a dimensão de sua força política. Azambuja construiu uma rede de influência que alcança prefeitos, partidos e lideranças municipais; durante a campanha presidencial, essa estrutura foi mobilizada em favor de Flávio Bolsonaro. O próprio Azambuja declarou confiança numa vitória folgada do candidato do PL e coordenou a campanha em Mato Grosso do Sul. O candidato presidencial perdeu nacionalmente, embora tenha obtido votação expressiva no Estado. A conta política, portanto, não é de derrota completa para Azambuja, mas tampouco de vitória sem ressalvas.
É aqui que aparece a ironia da chamada vitória de Pirro. Azambuja conquistou uma cadeira no Senado, com mandato de oito anos a partir de fevereiro de 2027, mas seu candidato à Presidência não chegou ao Planalto. O senador eleito terá espaço institucional em Brasília, enquanto precisará avaliar o custo político de ter associado sua liderança estadual a um projeto nacional derrotado. A votação de Flávio em Mato Grosso do Sul não apaga a derrota nacional, assim como a derrota nacional não anula a vitória de Azambuja para o Senado. A política raramente oferece balanços tão simples. O desafio é saber quanto da força acumulada pelo ex-governador continuará disponível quando o tabuleiro começar a se reorganizar para 2030.
Durante a campanha, Azambuja fez uma aposta pública e enfática em Flávio Bolsonaro, com uma retórica de lealdade que, para os adversários, beirava a entrega integral do patrimônio político ao projeto do candidato. A imagem é forte, mas ajuda a dimensionar o compromisso assumido. Agora, com o resultado presidencial conhecido, o senador eleito terá de conciliar essa fidelidade com os interesses do Estado e com uma realidade nacional em que Lula continuará no comando do governo federal. Não basta conservar o controle de uma rede de prefeitos; será necessário mostrar que essa rede produz resultados para os municípios e não funciona apenas como correia de transmissão de um projeto partidário.
Zeca, por sua vez, quer aproveitar a nova conjuntura para reorganizar o PT. Sua proposta de lançar candidatos próprios onde houver condições competitivas não significa necessariamente romper toda e qualquer aliança, mas mudar a posição de partida. Em vez de negociar sempre como força auxiliar, o partido quer construir chapas, formar novas lideranças e disputar o voto municipal com identidade própria. O deputado fala em começar desde já, justamente porque sabe que a estrutura necessária para enfrentar a hegemonia de Azambuja não se ergue na véspera das convenções. Se o PT pretende recuperar prefeituras e vereadores, terá de trabalhar nos bairros, nas comunidades e nos diretórios muito antes de pedir votos.
O movimento também revela uma disputa por interpretação do resultado de 2026. Para o campo de Lula, a vitória presidencial oferece fôlego e argumento para retomar a organização partidária em Estados onde a direita consolidou redes municipais robustas. Para o grupo de Azambuja, a eleição ao Senado e a votação expressiva de Flávio no Estado continuam sendo ativos políticos importantes. A questão é como cada lado transformará seus resultados em capacidade de organização. A eleição presidencial não resolve automaticamente a política municipal, e a força de uma máquina estadual não garante, por si só, a manutenção indefinida de sua hegemonia.
O Pantanal, que tantas vezes serviu de cenário à amizade entre Zeca e Lula, volta agora como metáfora de uma disputa que exige paciência, estratégia e leitura das correntes. Zeca conhece o terreno e quer deixar de navegar a reboque. Azambuja tem uma embarcação política maior, com prefeitos e aliados espalhados pelo Estado, mas precisa provar que a derrota nacional de seu candidato não comprometeu o rumo da travessia. Nenhum dos dois tem o futuro garantido. Em política, o barco que parece dominar o rio também pode encontrar correnteza contrária; e quem passou muito tempo seguindo na esteira de outro pode, com organização, tentar assumir o leme.
A frase de Zeca — “chega de andar na rabeira” — é, por isso, mais do que um desabafo. É um recado ao próprio PT, às lideranças municipais e ao grupo de Azambuja. O petista quer transformar a vitória de Lula em oportunidade de reconstrução partidária; o senador eleito terá de demonstrar que sua influência regional sobrevive ao revés presidencial e continua capaz de entregar resultados. A disputa pela hegemonia de Mato Grosso do Sul já começou, embora a próxima eleição municipal ainda esteja no horizonte. E o primeiro movimento é claro: Zeca não quer mais ser passageiro na embarcação dos outros.
