Valfrido Silva*
A sucessão no comando do Senado Federal, cuja eleição está prevista para fevereiro de 2027, começa a movimentar os bastidores da política nacional. Entre os nomes que aparecem no tabuleiro está o da senadora sul-mato-grossense Tereza Cristina (PP), candidatura que poderia representar uma alternativa de centro, capaz de reduzir a temperatura de uma disputa contaminada pela polarização política. O problema é que, nesse caminho, o bolsonarismo pode acabar sendo mais obstáculo do que aliado.
A atual presidência de Davi Alcolumbre é uma referência importante nessa articulação. O senador amapaense conhece os caminhos regimentais e políticos da Casa e tem influência decisiva na construção de sua sucessão. Do outro lado, aparece o senador Rogério Marinho (PL-RN), nome associado ao bolsonarismo, lançado oficialmente nesta quarta-feira, e que conta com a simpatia do grupo político de Jair Bolsonaro. É justamente aí que começa a complicação para Tereza Cristina.
A senadora tem credenciais políticas que não se limitam à sua identificação com o agronegócio ou à passagem pelo Ministério da Agricultura no governo Bolsonaro. Sua trajetória tem raízes mais antigas na política sul-mato-grossense. De origem familiar ligada à tradição udenista, neta e bisneta de personagens que ocuparam posições de destaque na vida pública, Tereza construiu sua própria carreira, passando pela Secretaria de Agricultura de Mato Grosso do Sul, durante o governo de André Puccinelli, antes de chegar à Câmara dos Deputados e, posteriormente, ao Senado.
Sua trajetória também ajuda a compreender as ambiguidades do momento. Embora tenha integrado o governo Bolsonaro e mantenha interlocução com setores conservadores, Tereza Cristina não é uma personagem que se encaixe necessariamente na condição de representante de uma única corrente partidária ou de um projeto familiar de poder. Sua capacidade de diálogo com diferentes setores pode ser justamente o diferencial de uma candidatura alternativa.
Mato Grosso do Sul, aliás, tem uma relação histórica com a presidência do Senado. Antes mesmo da criação do Estado, Filinto Müller, pelo antigo Mato Grosso, ocupou o posto. Já na história de Mato Grosso do Sul, os ex-governadores José Fragelli e Ramez Tebet chegaram à presidência da Casa. Simone Tebet também tentou, em duas oportunidades, construir seu caminho para o comando do Senado, sem conseguir consumar o projeto. Uma eventual chegada de Tereza Cristina representaria, portanto, mais um capítulo de uma tradição política que o Estado conhece bem.
Mas o cenário nacional é outro. Rogério Marinho não é apenas um concorrente com ambições próprias. Sua candidatura carrega o peso da disputa entre os grupos que pretendem manter o bolsonarismo como força de influência sobre o Congresso. A insistência nessa lógica pode dificultar a formação de uma maioria mais ampla, justamente aquela de que o próximo presidente do Senado precisará para administrar uma Casa plural e politicamente fragmentada.
É nesse espaço que Tereza Cristina poderia encontrar uma oportunidade. Uma candidatura construída em torno da independência relativa, da capacidade de negociação e do compromisso com a instituição teria condições de atrair parlamentares que não desejam simplesmente trocar uma hegemonia por outra. Mas, para isso, seria necessário que a senadora pudesse se apresentar como alternativa de fato, e não como uma candidatura subordinada aos interesses de um dos polos da disputa.
A questão ultrapassa, portanto, a escolha do próximo presidente do Senado. Como o presidente do Senado também preside o Congresso Nacional, o que está em jogo é o comando de uma instituição central para o equilíbrio entre os Poderes e para a própria governabilidade do país.
Tereza Cristina tem história, trânsito político e identidade própria para entrar nessa disputa. O que ainda precisa demonstrar é se terá liberdade para construir uma candidatura que não seja tutelada pelos mesmos interesses que hoje ameaçam inviabilizar sua alternativa.
Na política, às vezes, o maior adversário de uma candidatura não está do outro lado da mesa. Pode estar sentado ao lado, tomando cafezinho e dizendo que está tudo combinado.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do editor.
