Valfrido Silva*
Ao ler a matéria de O Globo desta quinta-feira, apresentando cinco países com vantagens para quem deseja investir e morar no exterior, não pensei duas vezes. No afã de prestar um serviço a tantos bolsonaristas, tão ávidos por acompanhar o líder Nantes em sua tentativa de encontrar abrigo fora do Brasil, nem me preocupei em acionar minha editora-chefe IAIA (Inteligência Artificial Insubordinada e Antenada). Fui pelo caminho mais curto: o tradicional copia e cola. Afinal, esse povo deve estar numa angústia danada, arrumando as malas para deixar o país antes que Lula inicie seu quarto governo.
A leitura acabou me levando a uma associação curiosa, envolvendo um velho conhecido da teledramaturgia brasileira. Reginaldo Faria, hoje com 89 anos, voltou a ser lembrado tanto pela participação na atual novela das 7 da Globo, Por Você, quanto por um personagem que entrou para a história da televisão: Marco Aurélio, de Vale Tudo. No capítulo desta quarta-feira, uma situação envolvendo o ator, tratado como moribundo pela vilã Vanessa, personagem de Aline Moraes, despertou uma lembrança irresistível. Afinal, há quase quatro décadas, aquele mesmo ator protagonizou uma das fugas mais debochadas da televisão brasileira.
Em 1989, na primeira versão de Vale Tudo, Marco Aurélio, executivo corrupto da fictícia TCA, escapava do país em um jatinho particular, acompanhado de Leila, personagem de Cássia Kis. Antes de desaparecer no horizonte, presenteava o Brasil com uma banana monumental. Era a consagração televisiva da impunidade, embalada pela trilha sonora de Cazuza. O personagem fugia, escapava das consequências e ainda debochava de quem ficava.
Reginaldo Faria contou recentemente que aquela banana o persegue até hoje. E não é para menos. A cena entrou para o imaginário nacional como uma espécie de retrato acabado de uma elite que, depois de se servir fartamente do país, não sente o menor constrangimento em abandoná-lo quando a conta chega.
Mais calmo, depois de experimentar um Dark Roast — não confundir com o Dark Horse encilhado na Papuda para que o pai do fujão Nantes também saia a galope rumo à terra de Tio Trump —, liguei as pontas de tudo. A ficção, às vezes, tem dessas ironias.
Mas voltemos às opções de residência no exterior para nossos “patriotas” de malas prontas. O levantamento reproduzido por O Globo apresenta Portugal, Itália, Grécia, Estados Unidos e Paraguai como alternativas para brasileiros interessados em diversificar patrimônio, investir e eventualmente mudar de residência. Há, entretanto, uma informação que merece atenção especial: para quem não dispõe de fortunas em euros ou dólares, o Paraguai aparece como uma alternativa muito mais próxima, acessível e, sobretudo, menos complicada.
Quem diria! O país hermano, tantas vezes tratado com desdém por brasileiros, inclusive por conta das cicatrizes históricas da Guerra da Tríplice Aliança, surge agora como uma espécie de nova Canaã para aqueles que descobriram, subitamente, que o Brasil deixou de ser um lugar adequado para suas convicções políticas.
Não se trata de confundir as modalidades de residência. Portugal, Itália, Grécia e Estados Unidos oferecem programas específicos de investimento, com exigências financeiras bastante elevadas. O Paraguai, por sua vez, beneficia-se das regras de residência no âmbito do Mercosul, que tornam a mudança menos burocrática para brasileiros. E ainda permite manter negócios e atividades do lado de cá da fronteira. Não é pouca coisa.
O Paraguai, portanto, pode cumprir um papel que o Brasil desempenhou durante muito tempo para seus vizinhos: o de destino possível para quem procura melhores condições de vida, oportunidades econômicas e alguma tranquilidade. A ironia é irresistível. O país que já foi motivo de chacota agora aparece como alternativa para brasileiros que, até ontem, se apresentavam como donos da pátria e guardiões de suas tradições.
Mas há uma diferença entre mudar de endereço e mudar de país politicamente. A primeira operação depende de documentos, dinheiro e disposição. A segunda exige algo que não se consegue em repartição consular: aceitar que a democracia não funciona por encomenda, que eleições têm vencedores e vencidos e que o resultado das urnas não precisa da autorização dos derrotados para produzir seus efeitos.
É nesse ponto que a aventura migratória ganha contornos mais interessantes. Durante a campanha eleitoral, não faltaram ameaças de deixar o Brasil caso Lula fosse reeleito. A vitória veio, Lula conquistou seu quarto mandato, e parte dos inconformados parece ter levado a promessa mais a sério do que se imaginava. Entre eles, o senador Flávio Bolsonaro, o nosso Nantes, cuja situação no exterior passou a integrar o noticiário político e diplomático.
A Polícia Federal informou, em 28 de outubro, que havia solicitado ao Supremo Tribunal Federal medidas cautelares contra o senador, incluindo a apreensão de seus passaportes e a proibição de deixar o país, depois de identificar risco de evasão. Após a decisão judicial, os documentos brasileiros foram cancelados. A própria PF esclareceu que não havia registro oficial de saída pelos controles migratórios brasileiros e que investigava as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais. As notícias sobre sua passagem pela Argentina e chegada aos Estados Unidos, entretanto, acrescentaram novos ingredientes ao episódio.
Eis que entra em cena outro personagem dessa história: Donald Trump. Como revelou a Folha de S.Paulo, o governo americano estava ciente da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. A relação entre a família Bolsonaro e o governo republicano, portanto, acrescenta uma dimensão política à tentativa de encontrar abrigo no exterior.
Só que a política americana também resolveu produzir suas próprias reviravoltas. Nas eleições de meio de mandato realizadas nesta semana, os democratas conquistaram a maioria nas duas Casas do Congresso, impondo uma expressiva derrota ao partido de Trump. A mudança na correlação de forças abre espaço para uma fiscalização muito mais rigorosa da Casa Branca, inclusive de suas relações internacionais.
Entre os assuntos que podem entrar na mira dos parlamentares estão justamente as relações do governo americano com o Brasil, as tarifas comerciais e a acolhida concedida a Flávio Bolsonaro. Uma maioria democrata poderá ampliar a fiscalização sobre decisões da administração Trump e questionar a atuação de autoridades americanas em episódios envolvendo interesses brasileiros.
É uma ironia e tanto: o governo que parecia oferecer abrigo político aos inconformados com a vitória de Lula passa a enfrentar uma oposição parlamentar fortalecida em seu próprio território. A hospitalidade política pode deixar de ser tão confortável quando os anfitriões também começam a ter problemas em casa.
E se a maré continuar mudando, quem sabe não veremos uma inversão de papéis? Americanos desembarcando no Brasil em busca de tranquilidade, enquanto nossos patriotas de ocasião procuram abrigo na terra de Tio Trump. Nesse troca-troca migratório, Nantes poderia até assumir o timão de algum navio de bandeira trumpista, trazendo na tripulação o garimpeiro-chefe interessado nas nossas terras raras. A imaginação não paga imposto, embora certas fantasias políticas possam custar caro.
O que não deixa de ser curioso é observar como a pátria, tão exaltada nos palanques, nas motociatas e nas manifestações de verde e amarelo, parece perder parte de seu encanto quando o poder muda de mãos. Amar o Brasil, ao que tudo indica, tornou-se para alguns uma atividade condicionada ao resultado das urnas. Se o candidato vence, é patriotismo; se perde, providencia-se um visto. Pior: sai-se na calada da noite.
Não há problema algum em morar no exterior, investir em outros países ou buscar melhores oportunidades para a família. O mundo é livre, as fronteiras existem para serem atravessadas e ninguém precisa pedir licença a um governo para escolher onde deseja viver. O problema começa quando a mudança de endereço é apresentada como gesto de superioridade moral, uma espécie de protesto contra a vontade da maioria dos brasileiros.
Afinal, o Brasil não é propriedade de quem ganha eleições, muito menos de quem perde. É de todos, inclusive daqueles que não suportam o resultado das urnas e precisam de um tempo para digerir a derrota.
Quanto à banana de Marco Aurélio, ela continua lá, suspensa na memória nacional, como um gesto que a ficção imortalizou e a política insiste em atualizar. Só falta descobrir quem, na sequência, vai ocupar a janela do avião.
E, se a nova Canaã dos “patriotas” for mesmo o Paraguai, convém avisar aos interessados que a fronteira está logo ali. Não precisa atravessar o Atlântico, nem enfrentar a alfândega de Tio Trump. Só não vale levar a banana como símbolo nacional. Os paraguaios já tiveram problemas históricos demais com o Brasil para ainda precisarem importar nossas crises políticas.
Bye Bye Brasil!
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
