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Bolsonaro levou o povo a um ‘desfiladeiro’, diz Mandetta a jornal britânico

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15/08/2020 – 18h42

Em entrevista ao site britânico The Guardian, o ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta acusou o presidente Jair Bolsonaro de desempenhar um papel ‘fundamental’ na condução do Brasil para uma catástrofe. ‘Bolsonaro jogou política com a vida dos cidadãos em um momento de crise global’, disse ele. O Brasil hoje tem mais de 105 mil mortes relacionados a covid-19. Atrás somente dos Estados Unidos, tanto em número de casos e óbitos. Número de mortos seria ‘infinitamente maior’ se seguíssemos Bolsonaro, diz Mandetta

Mandetta, que insinuou que vai desafiar Bolsonaro para a presidência em 2022, tornou-se um nome familiar nos estágios iniciais da pandemia deste ano. Ele arrancou elogios da esquerda e da direita por seus alertas acessíveis e baseados em ciência sobre a ameaça do coronavírus durante conferências diárias de imprensa.

O médico ortopedista foi nomeado ministro da saúde em novembro de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro. Mas ele foi demitido em meados de abril, depois de ser desafiado publicamente por Bolsonaro em relação ao distanciamento social.

No dia em que Mandetta foi demitido, o número de mortos de covid-19 no Brasil era cerca de 2 mil. Quatro meses depois, subiu para mais de 105 mil. O ex-ministro é um dos muitos que culpam Bolsonaro pela escala da tragédia.

Segundo ele, a luta contra a covid-19 foi fatalmente comprometida pelo ‘desprezo absoluto pela ciência’ de Bolsonaro – que menosprezou a doença como uma ‘pequena gripe’ e apoiou diversas vezes tratamento sem eficácia comprovada, como a cloroquina e hidroxicloroquina.

‘É interessante que ele rejeite totalmente a ciência e zombe de todos aqueles que falam de ciência. No entanto, quando há qualquer perspectiva de uma vacina ele é o primeiro a vir bater na porta da ciência … como se uma vacina iria redimi-lo de sua marcha desconcertante através desta epidemia’, disse ele ao jornal britânico.

Mandetta também atacou a ‘sabotagem completa’ de Bolsonaro no Ministério da Saúde. Depois que Mandetta foi despejado, outro ministro da saúde, Nelson Teich, assumiu o comando, mas durou menos de um mês depois de também entrar em conflito com o presidente sobre a covid-19. Desde maio, o ministério tem um general do exército sem experiência médica como líder interino.

‘Quando você está em uma situação onde você se cerca de pessoas que dizem o que você quer ouvir e não a verdade … o líder acaba cegando a si mesmo para o que está acontecendo’, afirmou ele. ‘Ele escuta, mas não ouve. Ele olha, mas não vê’.

‘Ele levou o povo brasileiro a um precipício em marcha rápida e as pessoas caíram e morreram – e ter de reconhecer que isso foi um erro, que isso causou dor, acho que deve ser politicamente complicado para ele agora”, opinou Mandetta. O ex-ministro ainda alertou que, sem uma mudança urgente na direção, o número médio de mortes diárias – que tem sido próximo ou superior a 1.000 por quase três meses – só poderia cair no final de setembro.

‘Espero que o líder que sair vitorioso em 2022 seja capaz de reconstruir o tecido social quebrado do Brasil, dando a este país um senso de unidade… e aceitar que não é normal sair por aí dizendo que os brasileiros gostam de rolar no esgoto’, disse Mandetta.

Bolsonaro levou o povo a um 'desfiladeiro', diz Mandetta a jornal britânico

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