19/01/2017 – 08h36
Donald John Trump, 70, que toma posse como o 45º presidente dos Estados Unidos, repete seu colega brasileiro Jânio Quadros, que entrou para a história por causa do estilo histriônico, excêntrico e imprevisível, impulsionado por uma aguda intuição. A aproximação entre as duas polêmicas figuras é do ex-embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero, 79, que participou da Presidência de Jânio.
Jânio Quadros ficou apenas sete meses no cargo de presidente da República: de 31 de janeiro de 1961, data de sua posse, até o dia 25 de agosto daquele ano, quando renunciou de forma surpreendente.
[Jânio] Tinha as grandes intuições corretas, mas, na hora de implementar, fazia as coisas por impulso, por bilhetinhos, que eram o ‘tweet’ daquela época. Você vê que tudo tem um precedente na história.
A conta do republicano no Twitter foi veículo original de múltiplos “bilhetinhos” polêmicos durante a campanha presidencial e após a vitória na disputa contra a democrata Hillary Clinton.
“Ele era parecido com o Trump no sentido de que ganhava muita publicidade através de sua excentricidade”, compara o ex-embaixador brasileiro em Washington (1991-1993).
Na entrevista ao portal UOL, Ricupero também fala de Barack Obama e diz que ele é o melhor presidente dos Estados Unidos desde Franklin Delano Roosevelt, que comandou o país entre 1933 e 1945 e conseguiu a recuperação econômica norte-americana após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
Ele se diz também pessimista com os rumos do mundo, que julga hoje mais perigoso até do que foi durante a Guerra Fria, quando vigorava a disputa entre Estados Unidos e União Soviética e a ameaça de uma guerra nuclear. “É um mundo em que estamos assistindo de novo a uma exacerbação de política de uso de meios militares”, crava.
Baseado, por exemplo, na eleição de Trump, Ricupero diz que vivemos “um momento de descontinuidade”, que é imprevisível.
O ministro da Fazenda à época do lançamento do Plano Real, em 1994, também relembra o plano que estabilizou a economia e compara legados dos presidentes brasileiros, desde o governo de José Sarney (1985-1990).
E não deixa de falar do escândalo da parabólica, que o derrubou do cargo de ministro, quando vazou, em 1º de setembro de 1994, um áudio em que ele comentava com o jornalista Carlos Monforte, da TV Globo, critérios seletivos de divulgação de dados do governo: “Um episódio infeliz da minha parte”, reconhece.
Mais perigoso que na Guerra Fria
Olhando em retrospectiva, o ex-embaixador do Brasil em Washington acredita que o contexto internacional, hoje, oferece riscos grandes à humanidade: “O mundo de hoje é muito mais perigoso do que foi há poucos anos, até mesmo do que foi durante a época da Guerra Fria”.
Além da imprevisibilidade de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, pesa também na avaliação a figura expansionista do presidente Vladimir Putin, da Rússia; o reforço da linha nacionalista do governo chinês; os conflitos e desmandos no Oriente Médio, incluindo o Iraque e a Síria; e a situação em países conflagrados da África, como a Líbia e a Somália.
Ricupero ainda coloca na conta do risco as consequências do aquecimento global e a possibilidade de os Estados Unidos abandonarem o compromisso de reduzir emissões, assumido com o Acordo de Paris.
O que vai acontecer se os Estados Unidos abandonarem o acordo? O que vai acontecer se Trump adotar uma postura de mais confronto com a China?
O diplomata recorda também do drama vivido pelos refugiados, tentando escapar de catástrofes em seus países de origem, e a reação de boa parte do mundo de fechar as portas para eles. “Eis um mundo em que a virtude, a generosidade é quase uma vulnerabilidade. Ameaça você a perder a eleição”, lamenta.

