31/03/2019 – 09h38
Ameaçado na eleição de 9 de abril, premier abraça mais um amigo da direita populista e vê oportunidade de reforçar narrativa de que sob seu comando o país cresceu de estatura nas relações internacionais
Depois de dez anos no poder, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, luta por sua sobrevivência política. Pressionado por denúncias de corrupção e por pesquisas eleitorais que apontam o risco de ser derrotado na eleição do dia 9 próximo, é neste contexto que Netanyahu decidiu receber o presidente Jair Bolsonaro. O espaço aberto por Netanyahu em sua agenda poucos dias antes da mais acirrada disputa eleitoral dos últimos anos em Israel pode parecer intrigante. Mas quem observa os passos do premier entende que o interesse imediato é usar Bolsonaro como peça de propaganda. A presença do líder de um grande país se ajusta perfeitamente a uma das narrativas preferidas de Netanyahu, a de que sob seu comando Israel cresceu de estatura nas relações internacionais, a despeito do que dizem seus opositores.
A exemplo do presidente brasileiro, “Bibi”, como o premer é conhecido, vive em guerra com a imprensa e prefere se comunicar com o público por meio das redes sociais. Assim, um evento diplomático na reta final da campanha oferece uma ótima oportunidade de criar um fato positivo para a imagem do governo, diz o jornalista israelense Akiva Eldar, colunista do site “Al-Monitor”, especializado em Oriente Médio.
Para Eldar, porém, Bolsonaro desempenhará o papel de um personagem menor da propaganda política de Netanyahu, já que o Brasil tem pouca relevância para a maioria dos israelenses, um país basicamente lembrado como destino de jovens em passeios depois que terminam o serviço militar. Diante do entusiasmo de Bolsonaro por Israel, a imagem internacional controversa do presidente é um mal menor para o premiê, afirma o jornalista.
— Ele não está em condições de escolher — diz Eldar.
A calorosa aproximação com Bibi ampliou a visibilidade do Brasil na mídia israelense, com destaque para a ida do premier à posse do presidente. A viagem ganhou relevo por ser um gesto raro de Bibi, que não compareceu nem à posse de seu maior aliado, o presidente dos EUA, Donald Trump. O gesto não foi livre de polêmica. Seu filho Yair, conhecido por publicar mensagens explosivas nas redes sociais, deixou dívida de quase R$ 10 mil no hotel em que ficou hospedado no Rio durante a visita do pai, segundo o jornal “Haaretz”.
Além de contar com a presença de Bolsonaro para capturar os holofotes na corrida eleitoral, Bibi também espera receber algo bem concreto: a transferência da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, uma promessa feita pelo brasileiro ainda antes da posse. Entretanto, segundo diplomatas familiarizados com as negociações, Israel sinalizou que aceitaria receber menos que o prometido, como por exemplo a abertura de um escritório de representação do Brasil em Jerusalém, que teria menor peso que a embaixada, mas ainda assim com valor político, a exemplo do que fez a Hungria recentemente.
“Abraços” na direita populista
Outro gesto esperado pelos israelenses é uma visita de Bolsonaro e Netanyahu ao Muro das Lamentações, o local mais sagrado do judaísmo. Seria mais um ato carregado de significado político, uma vez que o muro fica na Cidade Velha de Jerusalém, considerada pela ONU parte do território ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Trump esteve no local em 2017, mas em visita privada. Ao aceitar a proposta, Bolsonaro se tornará o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o muro junto com o premier de Israel.
— É um fundamento da diplomacia israelense assegurar que em todos os países tenhamos amigos em todos os campos políticos, nunca se identificar demais com um lado. Temo um processo em que os seguidores de Bolsonaro e a direita em geral apoiem Israel, e o preço seja criar antipatia entre seus opositores. Não é algo saudável para a diplomacia israelense — afirma Palmor, hoje diretor da Agência Judaica.(Marcelo Ninio/O Globo)

