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sábado, setembro 12, 2026

Do fundão à rua, a “última perna” do pagamento dos cabos eleitorais

Relatos de cotas de R$ 15 mil destinadas a lideranças de bairro expõem a fronteira entre trabalho remunerado, propaganda particular e compra de apoio — que não pode ser confundida, sem provas, com compra de votos

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Valfrido Silva

O dinheiro do fundão deixou os cofres dos partidos, atravessou as contas bancárias das candidaturas e começou a chegar às ruas. No DivulgaCandContas, esse percurso aparece sob denominações técnicas como militância, mobilização, produção de material, aluguel de veículos, combustível, publicidade e serviços prestados por terceiros. Nos bairros, onde a campanha abandona a linguagem dos contadores e passa a falar o idioma dos cabos eleitorais, ganha nomes mais simples. Um deles é “última perna”, expressão usada para designar a parcela final da cota acertada com determinada liderança. É o dinheiro que completa o valor combinado, reforça a fidelidade na reta decisiva e ajuda a manter bótons no peito, cartazes no vidro traseiro dos carros e o nome do candidato circulando nas reuniões, nas visitas e nas conversas que continuarão até a véspera da eleição.

Nessas eleições, em Dourados o parâmetro é aproximadamente R$ 15 mil, geralmente divididos em três parcelas de R$ 5 mil. A última perna estaria começando a chegar justamente agora, quando a campanha entra na fase mais cara, nervosa e dependente de gente capaz de alcançar o eleitor que não frequenta comícios, não acompanha entrevistas e passa longe dos programas eleitorais. Até o momento, porém, não apareceu documento, comprovante bancário, contrato ou testemunho formal que permita atribuir esse modelo de pagamento a uma candidatura específica. A informação deve permanecer, portanto, no terreno dos relatos que merecem apuração, não no das acusações que dispensam provas. Isso não esvazia a história. Apenas desloca o centro da investigação para a pergunta que realmente interessa: o que exatamente se compra quando uma liderança de bairro recebe R$ 15 mil?

A resposta separa situações muito diferentes. Campanhas podem contratar cabos eleitorais para distribuir material, organizar reuniões, visitar moradores, mobilizar apoiadores e executar outras tarefas. O trabalhador não está obrigado a oferecer gratuitamente seu tempo, sua sola de sapato, seu conhecimento do bairro e a rede de contatos construída durante anos. Se os R$ 15 mil remuneram serviços efetivamente prestados, o pagamento pode ser perfeitamente legal, desde que saia de conta eleitoral, respeite os limites de contratação, identifique o beneficiário e apareça na prestação de contas. Também deve existir documentação capaz de mostrar o objeto do contrato, o período trabalhado e a compatibilidade entre o serviço realizado e o valor recebido. A campanha precisa demonstrar não apenas que pagou, mas pelo que pagou.

A situação muda quando o dinheiro serve para remunerar a exibição da propaganda no automóvel. O eleitor pode usar bóton, vestir camiseta e colocar adesivo no próprio carro. Pode transformar o vidro traseiro em espaço de manifestação política, observadas as dimensões estabelecidas pela legislação, mas não pode receber dinheiro para isso. A Justiça Eleitoral determina que a propaganda em bem particular seja espontânea e gratuita, vedando qualquer pagamento em troca do espaço. O proprietário pode ceder o vidro por convicção, amizade, militância ou preferência eleitoral; não pode alugá-lo como se administrasse um outdoor ambulante. Se a liderança foi contratada para trabalhar e, durante o serviço, usa bóton e identifica seu automóvel com a candidatura, existe uma relação profissional que pode ser legítima. Se o dinheiro compra apenas a aparência do apoio e a permanência do cartaz, o carro deixa de carregar uma preferência para transportar um contrato clandestino de publicidade.

Existe ainda uma hipótese mais grave: a cota pode estar comprando não apenas trabalho ou exposição, mas a promessa de influência sobre determinado grupo de eleitores. Compra de apoio político não é automaticamente compra de votos, distinção que precisa ser respeitada para que a cautela não seja a primeira vítima da denúncia. Uma liderança pode receber para trabalhar por uma campanha sem assumir o compromisso de votar no candidato nem distribuir dinheiro ou vantagens a outras pessoas. A natureza do fato muda se o acordo envolver o voto pessoal de quem recebe ou se parte da cota for utilizada para oferecer benefícios a eleitores com a finalidade de conquistar-lhes o sufrágio. Nesse caso, desde que se demonstrem a finalidade específica e a participação, ciência ou anuência da candidatura beneficiada, a discussão deixa o terreno da propaganda irregular e entra no da corrupção eleitoral.

A fronteira, portanto, não está necessariamente no valor pago, mas naquilo que se exigiu em troca. Os mesmos R$ 15 mil podem remunerar um contrato regular de prestação de serviços, pagar ilegalmente pela exibição de propaganda em propriedade particular, adquirir uma adesão política ou alimentar uma rede de compra de votos. Sem conhecer o acordo, o caminho do dinheiro e a atuação concreta do beneficiário, não é possível colocar todas essas situações no mesmo saco — embora o costume eleitoral tenha desenvolvido uma grande variedade de eufemismos justamente para que caibam. Militância, coordenação, mobilização e apoio são palavras perfeitamente respeitáveis. Também podem funcionar como fantasias contábeis quando vestidas em despesas que não resistem a uma conferência mais cuidadosa.

Chama a atenção, nesse ambiente, a presença de pessoas que exibem propaganda de candidatos diferentes. Há automóveis transformados em chapas eleitorais sobre rodas, com nomes para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Em alguns casos, as combinações reproduzem alianças partidárias ou dobradinhas formalmente organizadas; em outros, misturam candidaturas que mal conseguem dividir o mesmo palanque. Isso pode revelar ecumenismo eleitoral, mudança de preferência, compromisso com vários amigos ou apenas disposição para aproveitar todos os espaços disponíveis no vidro. Pode também indicar que uma mesma liderança mantém acordos com mais de uma campanha. A fotografia do automóvel oferece uma pista, mas não comprova pagamento algum. O adesivo é apenas a parte visível de relações construídas muito antes da campanha e movimentadas por favores, pedidos, empregos, encaminhamentos e promessas que raramente aparecem na prestação de contas.

Lideranças comunitárias conhecem famílias, organizam reivindicações, encaminham moradores a gabinetes, procuram vagas em serviços públicos e sabem quais ruas precisam de iluminação, patrolamento, posto de saúde ou transporte. Muitas exercem trabalho legítimo e permanente, tornando-se referências justamente porque o poder público só consegue localizar determinados bairros quando precisa de votos. Outras ressurgem a cada dois anos com uma lista de reivindicações numa mão e uma tabela de preços na outra. É aí que entram os vereadores, apontados nos relatos de bastidor como os articuladores mais caros desse mercado por não oferecerem apenas o próprio trabalho. Têm mandato, assessores, presença institucional e redes formadas por líderes de bairro, presidentes de associações, suplentes, ex-candidatos e pessoas que procuram diariamente seus gabinetes. Não vendem apenas uma voz; apresentam-se como atacadistas capazes de abrir várias portas ao mesmo tempo.

Essa descrição também exige cuidado. Vereador pode apoiar, coordenar e trabalhar legitimamente por uma candidatura, reunir seu grupo político e pedir votos ao deputado, senador ou governador com quem mantém afinidade. Outra coisa seria receber dinheiro clandestino para colocar essa rede a serviço de uma campanha ou intermediar pagamentos destinados à cooptação de eleitores. Dizer que os vereadores são os mais caros sem identificar valores, pagadores, beneficiários e contrapartidas equivaleria a transformar conversa de bastidor em sentença. A pergunta jornalisticamente correta não é quanto custa um vereador, mas se existe dinheiro pagando aquilo que publicamente aparece como adesão espontânea — e, caso exista, onde foi registrado, quem recebeu e qual serviço foi efetivamente prestado.

A matemática dos supostos R$ 15 mil ajuda a dimensionar o tamanho da questão. Dez lideranças contratadas nesse patamar custariam R$ 150 mil; 20 consumiriam R$ 300 mil; 50 elevariam a conta a R$ 750 mil; e cem acordos representariam R$ 1,5 milhão, valor equivalente à cota individual de fundão recebida por alguns candidatos a deputado federal em Mato Grosso do Sul. O custo por voto dependeria da quantidade de eleitores que cada liderança afirma influenciar. Se uma cota de R$ 15 mil estiver associada a 50 votos, cada um sairia hipoteticamente por R$ 300; se forem cem, por R$ 150; com 300, a conta cairia para R$ 50. Trata-se apenas de uma simulação, porque ninguém pode demonstrar quantos votos uma liderança efetivamente entrega. O eleitor pode ouvir a orientação, aceitar o material, colocar o adesivo no carro e escolher outra candidatura diante da urna. Quem promete entregar cem, duzentos ou trezentos votos vende uma mercadoria que não lhe pertence.

Os números oficiais de 2022 oferecem uma régua para essa comparação. Os 24 deputados estaduais eleitos em Mato Grosso do Sul declararam, juntos, despesas de R$ 15,076 milhões e receberam 639.028 votos. Na divisão agregada, cada voto correspondeu a R$ 23,59 em gastos oficiais, enquanto a mediana individual ficou em R$ 24,12. Paulo Corrêa declarou R$ 294,3 mil e recebeu 49.184 votos, equivalentes a R$ 5,99 por voto. No outro extremo, Lia Nogueira gastou R$ 1,05 milhão para obter 15.155 votos, chegando a R$ 69,28. Entre os deputados diretamente ligados ao tabuleiro de Dourados, Zé Teixeira declarou R$ 745,4 mil e conquistou 39.329 votos, custo contábil de R$ 18,95 por eleitor; Renato Câmara gastou R$ 450,8 mil e recebeu 17.756 votos, ou R$ 25,39 por voto.

A geografia eleitoral acrescenta outra camada à conta. Lia recebeu em Dourados 12.883 votos, equivalentes a 85% de toda a sua votação. Zé Teixeira obteve 8.176 votos no município, 20,8% de seu total, enquanto Renato Câmara conquistou aqui 3.795, ou 21,4%. Isso demonstra que a mesma rede local pode ser decisiva para uma candidatura e apenas complementar para outra. Também ajuda a explicar por que lideranças capazes de reunir eleitores num território específico adquirem valor tão diferente conforme a necessidade de cada campanha. Quem já dispõe de votos espalhados pelo Estado compra reforço. Quem depende de Dourados procura sustentação.

Esses números não representam o preço do voto, mas apenas o resultado da divisão entre despesas declaradas e votos recebidos. Não medem trabalho voluntário, estruturas partidárias utilizadas coletivamente, exposição espontânea nem dinheiro eventualmente movimentado fora das contas. Também não permitem concluir que uma campanha mais cara seja irregular ou que a mais barata tenha sido necessariamente mais eficiente, sobretudo numa eleição proporcional, em que o desempenho do partido ou da federação participa da conquista da cadeira. Servem, entretanto, para mostrar a dimensão dos R$ 15 mil atribuídos a cada liderança. Na mediana das campanhas eleitas em 2022, esse valor corresponderia contabilmente ao custo de aproximadamente 622 votos; pelo índice de Paulo Corrêa, equivaleria a mais de 2,5 mil; pelo de Lia Nogueira, financiaria cerca de 216.

Na eleição presidencial, as diferenças foram igualmente expressivas. Lula declarou R$ 131,3 milhões e obteve 60,345 milhões de votos no segundo turno, equivalentes a R$ 2,18 por voto. Jair Bolsonaro declarou R$ 89 milhões e recebeu 58,206 milhões, custo de R$ 1,53, enquanto Soraya Thronicke gastou R$ 39,3 milhões e conquistou 600.955 votos no primeiro turno, chegando a R$ 65,54 por eleitor. Em 2026, a conta ainda não pode ser fechada porque já existem despesas, mas ainda não existem votos. Até 12 de setembro, Flávio Bolsonaro havia declarado R$ 55,2 milhões em despesas contratadas; Ronaldo Caiado, R$ 24,1 milhões; Lula, R$ 15,4 milhões; e Romeu Zema, R$ 3,3 milhões. Entre as candidaturas à Assembleia de Mato Grosso do Sul, Bárbara Resende apresentava R$ 587,1 mil, o maior total registrado naquele momento. São números parciais, informados em ritmos diferentes e destinados a crescer à medida que partidos completam a distribuição dos recursos e candidatos aceleram a montagem de suas estruturas.

É precisamente nesse momento que chega a última perna. Para saber se ela sustenta um serviço legítimo ou atravessa a fronteira da ilegalidade, será necessário seguir o dinheiro. Os nomes dos supostos beneficiários devem ser cruzados com fornecedores e trabalhadores relacionados no DivulgaCandContas; contratos precisam ser comparados com Pix, notas fiscais, recibos, períodos de trabalho e serviços realizados; as três parcelas, se existirem, terão origem, datas e destinatários. Fotografias dos automóveis podem comprovar a exposição da propaganda, mas não o pagamento. Mensagens podem revelar uma negociação, desde que sejam autenticadas e contextualizadas. A prestação de contas abrirá caminhos, sem necessariamente oferecer a resposta final, porque um gasto pode aparecer formalmente como militância e esconder outra finalidade, assim como pode ser perfeitamente legítimo e despertar suspeita apenas porque o contratado exerce influência política no bairro.

Depois de mostrar quanto dinheiro os partidos entregaram aos candidatos e como algumas famílias políticas foram contempladas pelo fundão, resta acompanhar a outra ponta da lavoura: quem recebe esses recursos nas ruas e o que oferece em troca. A campanha pode comprar material, combustível, publicidade e trabalho; pode contratar o cabo eleitoral e remunerar a liderança comunitária por serviços reais. Não pode pagar pelo vidro particular como se alugasse um outdoor, muito menos comprar a vontade de quem está atrás dele. Na política, quase tudo pode ter preço. O voto, não. E a diferença entre uma coisa e outra talvez esteja escondida justamente na “última perna”.

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