A campanha de Gianni Nogueira descobriu uma das maravilhas da matemática eleitoral: quanto menor o ponto de partida, mais espetacular parece a porcentagem de crescimento. Ao saltar de 0,30% em julho para 1% em setembro, a vice-prefeita de Dourados e candidata a deputada estadual pelo PL pode anunciar, sem cometer qualquer pecado contra a aritmética, que mais que triplicou sua intenção de voto. Cresceu precisamente 233%. Traduzida do idioma dos releases para a língua dos números absolutos, entretanto, a façanha fica um pouco mais modesta: Gianni avançou 0,7 ponto percentual.
Como os três levantamentos do Instituto Ranking Brasil Inteligência ouviram 2 mil pessoas, os percentuais equivalem, aproximadamente e antes de eventuais ponderações estatísticas, a seis citações espontâneas em julho, 13 em agosto e 20 em setembro. A candidata conquistou, portanto, algo próximo de 14 novas lembranças entre os entrevistados e transformou esse acréscimo numa manchete de crescimento superior a 200%. Não há fraude na conta. Há apenas aquela velha habilidade da propaganda política de escolher o lado mais vistoso da calculadora.
Também seria injusto tratar o 1% como se não significasse nada. Na pesquisa espontânea, o entrevistador não apresenta uma lista de candidatos; o eleitor precisa retirar o nome da própria memória. Para uma vice-prefeita que disputa pela primeira vez, individualmente, uma eleição estadual e precisa romper os limites territoriais de Dourados, aparecer espontaneamente para cerca de 20 pessoas numa amostra de 2 mil indica que sua campanha começa a produzir algum reconhecimento fora do círculo mais próximo. O movimento de 0,30% para 0,65% e, depois, para 1% aponta na mesma direção. Aponta — ainda não confirma uma arrancada eleitoral.
O retrato mais recente também recomenda alguma moderação no foguetório. Gianni não aparece isoladamente com 1%. Divide esse patamar dentro do PL com Sindoley Moraes, Sargento Betânia, Ana Portela, Sargento Prates e Zé Teixeira. À frente do grupo estão Paulo Corrêa, com 2,10%; Coronel David, com 1,65%; Odilon de Oliveira, com 1,60%; e Lucas de Lima, com 1,55%. A vice-prefeita chegou, portanto, ao pelotão intermediário de uma chapa povoada por deputados, vereadores e candidatos com bases regionais consolidadas. É um avanço político perceptível, mas ainda muito distante da consagração sugerida pelo tom triunfal do release.
Há outra cautela indispensável. O levantamento realizado entre 4 e 9 de setembro possui margem de erro máxima de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. Como o crescimento acumulado de Gianni foi de 0,7 ponto, as pesquisas, isoladamente, não autorizam tratar a alta como uma tendência imune às variações da amostra. A repetição do movimento nas três rodadas fortalece a hipótese de ganho de lembrança, mas não transforma hipótese em mandato. A pesquisa mais recente está registrada na Justiça Eleitoral sob os números MS-09894/2026 e BR-08288/2026. Os dados foram publicados neste sábado, 12 de setembro, e podem ser conferidos no levantamento divulgado sobre a disputa pela Assembleia.
Também não é possível atribuir o crescimento exclusivamente às viagens, reuniões e propostas apresentadas pela candidata, como faz sua assessoria. Entre julho e setembro, a campanha eleitoral entrou nas ruas, aumentou a propaganda e tornou conhecidos vários nomes que até então permaneciam restritos às próprias bases. Na pesquisa realizada em julho, brancos, nulos e eleitores que não sabiam responder somavam 61,15%. Em setembro, esse contingente caiu para 43,5%. A memória eleitoral cresceu para quase todos porque a eleição se aproximou para todos. O levantamento mostra que Gianni surfou esse movimento; não demonstra que tenha sido ela quem produziu a onda.
É justamente aí que esta pesquisa se encontra com os dois textos anteriores do contrapontoMS sobre o fundão eleitoral. Gianni recebeu R$ 600 mil do PL para financiar sua campanha à Assembleia. Seu marido, o deputado federal Rodolfo Nogueira, recebeu R$ 1,505 milhão. Juntas, as duas candidaturas da família administram R$ 2,105 milhões de dinheiro público. O primeiro texto perguntou se a campanha da vice-prefeita teria musculatura própria ou funcionaria como cartão adicional da candidatura do marido. O segundo acompanhou o caminho que leva o dinheiro dos cofres partidários às estruturas montadas nas ruas. Agora surge uma terceira pergunta, inteiramente legítima e mensurável: quanto desse investimento começa a aparecer na lembrança do eleitor?
Não se trata de estabelecer uma divisão simplória entre dinheiro recebido e intenção de voto. Gianni não gastou necessariamente toda a cota, a prestação de contas ainda está em andamento e eleição proporcional não se resolve por pesquisa individual. O desempenho da candidata dependerá de sua votação, da soma obtida pelo PL e da distribuição das cadeiras. Muito menos se pode confundir financiamento eleitoral declarado com os relatos de pagamentos clandestinos examinados na reportagem anterior. A ligação entre as pautas é política e contábil: depois de saber quanto dinheiro público entrou nas campanhas, o eleitor tem o direito de observar o que cada candidatura consegue construir com ele.
A assessoria informa que Gianni percorre municípios defendendo proteção às crianças, regionalização da saúde, fortalecimento do agronegócio, segurança para as mulheres e desenvolvimento do interior. São bandeiras suficientemente amplas para caber no programa de quase qualquer candidato e cuidadosamente temperadas com as posições conservadoras esperadas de uma integrante do PL. O desafio será transformar essa prateleira de boas intenções numa identidade política própria, capaz de fazer a candidata ser lembrada não apenas como vice-prefeita de Dourados, esposa de Rodolfo ou integrante da chapa de Reinaldo Azambuja/Capitão Contar.
Matematicamente, Gianni mais que triplicou. Politicamente, saiu dos décimos e chegou ao congestionamento de candidatos estacionados em 1%. É melhor estar ali do que permanecer nos 0,30%, naturalmente, mas ainda faltam três semanas de campanha, milhares de votos e uma disputa interna feroz até a Assembleia.
O fundão já saiu dos cofres, passou pelos cartões das campanhas, ganhou as ruas e agora começa a aparecer nas pesquisas. A multiplicação definitiva, porém, não será feita pela assessoria nem pela calculadora. Será feita pela urna.
