Valfrido Silva
As urnas ainda estão vazias, o eleitor continua livre para mudar de ideia e a matemática eleitoral conserva o péssimo hábito de humilhar previsões. Mesmo assim, a menos de uma semana da votação, já é possível enxergar os primeiros contornos das futuras bancadas de Mato Grosso do Sul no Senado, na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa. Não se trata de proclamar eleitos antes da apuração — pecado reservado aos candidatos que já mandaram confeccionar o terno da posse —, mas de combinar os últimos números das pesquisas com a força das chapas, a estrutura das campanhas e aquela informação subterrânea que não costuma aparecer nos levantamentos: quem tem voto próprio, quem depende da legenda e quem está cercado de amigos que mentem por amizade, o que, em campanha eleitoral, não conta como mentira, mas como apoio moral.
No Senado, a fotografia mais recente mostra Capitão Contar e Reinaldo Azambuja ocupando as duas primeiras posições, praticamente orelha a orelha. A antiga certeza de que Azambuja entraria para escolher a cadeira foi substituída por uma disputa em que até o cabide da alfaiataria de Maracaju começou a balançar. Pelo menos uma vaga parece encaminhada ao bolsonarismo, seja pelo capitão que voltou a crescer, seja pelo ex-governador que trocou o PSDB pelo PL e tenta apresentar-se como senador do agro. A segunda permanece ao alcance dos dois, mas Soraya Thronicke já demonstrou em 2018 que sabe atravessar a reta final montada numa zebra, enquanto Vander Loubet ainda olha para o céu à espera do KC-390 de Lula.
Na Câmara Federal, onde o Mato Grosso do Sul tem direito a apenas oito vagas, a pesquisa espontânea mais recente do Instituto Ranking coloca Rose Modesto e Mara Caseiro no andar de cima. Rose aparece com 4,2%, liderando a Federação União Progressista; Mara alcança 4% e comanda a fila do PL. São hoje os nomes que mais se aproximam da condição de favoritos, embora eleição proporcional não dê posse ao campeão de pesquisa: primeiro a legenda precisa conquistar as cadeiras, depois começa a briga para saber quem se sentará nelas.
É dentro do PL que se desenha uma das inversões mais interessantes da eleição. Rodolfo Nogueira, o Gordinho do Bolsonaro, aparece com 3,2%, ligeiramente à frente de Marcos Pollon, com 3%. Em 2022, Pollon foi o fenômeno que puxou a fila e deixou Rodolfo disputando espaço logo atrás. Agora, o gordinho ameaça devolver a ultrapassagem, ajudado pela presença constante ao lado de Jair e Michelle Bolsonaro, pela estrutura de campanha e pela dobradinha doméstica com Gianni Nogueira, candidata a deputada estadual. O casal conta ainda com o apoio integral do prefeito de Dourados, Marçal Filho, dono de estrondosa aprovação popular e de uma máquina política capaz de ampliar a vantagem de Rodolfo justamente na cidade em que ele e Pollon disputam o mesmo eleitorado conservador. Dois décimos ainda não constituem uma avenida, mas, com Bolsonaro no palanque, Gianni na garupa e Marçal abrindo caminho, podem transformar-se numa distância maior até domingo. Mara lidera a chapa, Rodolfo e Pollon brigam pela segunda posição, e todos dependem do mesmo eleitor bolsonarista, que costuma prometer fidelidade a mais candidatos do que a urna permite escolher.
Na Federação União Progressista, Rose lidera com folga relativa, mas atrás dela instalou-se um congestionamento. Carlos Bernardo, Dagoberto Nogueira e Luiz Ovando aparecem empatados com 3,2%; Geraldo Resende e André Matsushita vêm com 2,6%. Geraldo, portanto, enfrenta uma das reeleições mais difíceis de sua longa trajetória. Possui base consolidada em Dourados, serviços prestados e presença histórica na saúde, mas está numa chapa em que o voto dado à legenda poderá produzir cadeiras sem garantir que uma delas seja sua. Rose parece atravessar a porta primeiro; os demais disputarão no empurra-empurra quem passará antes que ela se feche.
Na Federação PT–PV–PCdoB, Camila Jara lidera com 2,5%, seguida por Marquinhos Trad, com 1,8%. A votação de Marquinhos poderá ser decisiva para que o grupo conquiste mais de uma cadeira e abra espaço para um segundo nome. É aí que Dourados olha para Elias Ishy, o azarão da chapa, lembrado por 0,4% dos entrevistados. Para chegar, Ishy não depende apenas de Marquinhos puxar votos para a federação. Precisará também ultrapassar a fila interna em que aparecem Sandro Omar, Roberto Matheus e Gisele Marques. O puxador ajuda a construir o prédio, mas não escolhe sozinho quem ficará com cada apartamento. Ainda assim, para quem começou longe das apostas principais, aparecer no caminho de uma possível sobra já é uma maneira de manter a candidatura respirando.
No Republicanos está a grande incógnita da campanha federal. O estreante Jaime Verruck aparece com 2%, Beto Pereira com 1,8% e Isa Marcondes, a Cavala, com 1,6%. Aquilo que começou como candidatura quase folclórica, movida a bordões, vídeos e uma proclamada experiência em “zona”, ganhou alguma materialidade eleitoral. Isa está atrás dos dois favoritos internos, mas perto o suficiente para transformar a apuração numa prova sobre os limites da publicidade política. Saberemos no domingo se o eleitor apenas riu, compartilhou e seguiu adiante ou se concluiu que entender de zona constitui qualificação suficiente para representar Mato Grosso do Sul em Brasília.
A disputa pela Assembleia Legislativa é ainda mais traiçoeira porque distribui 24 cadeiras entre chapas superlotadas. Para Dourados, Zé Teixeira continua tratado como dono de cadeira cativa. Na última Ranking aparece com 1,75%, apenas na sexta posição da forte chapa do PL, mas carrega décadas de mandato, estrutura regional e um eleitorado que raramente aparece inteiro antes da urna. Não convém declarar aposentado um político que atravessou mais eleições do que muitos adversários atravessaram reuniões partidárias.
No PT, a disputa douradense é quase uma eleição particular. Tiago Botelho aparece com 1,2%, muito próximo de Zeca do PT, que lidera a federação com 1,3%. Gleice Jane, candidata à reeleição, surge com 0,5%, atrás também de Luiza Ribeiro e Pedro Kemp. A diferença não sentencia ninguém, mas mostra que Tiago chega à última semana em posição mais confortável do que a deputada. Os dois disputam o mesmo território político, a mesma base ideológica e parte considerável do mesmo eleitorado. Se a federação não ampliar sua bancada, a camaradagem partidária terminará quando começar a contagem dos votos.
Renato Câmara vive dificuldade semelhante no Republicanos. Aparece com 0,3%, atrás de Pedro Pedrossian Neto, Herculano Borges, Bruno Ortiz, Alessandra Alencar e Antonio Vaz. É deputado, foi prefeito, conhece a máquina e possui base no interior, mas entrou numa legenda que oferece companhia demais e cadeiras de menos. Sua reeleição dependerá de uma reação que a pesquisa ainda não captou — ou de provar, mais uma vez, que mandato, prefeitos e cabos eleitorais pesam mais na urna do que na lembrança espontânea.
Lia Nogueira fez barulho, ocupou espaços e manteve presença constante no debate público, mas aparece com 0,5% na Federação PSDB–Cidadania. À sua frente estão Pedro Caravina, Angelo Guerreiro, Paulo Duarte, Eduardo Rocha, Flávio Cabo Almi e Silvio Pitú. A incógnita é saber se o volume político produzido durante o mandato converteu-se em voto ou ficou restrito à repercussão. Barulho ajuda a campanha a ser ouvida; não garante que o eleitor reconheça a voz quando entra sozinho na cabine.
Há ainda a cadeira que Dourados perdeu com a saída de Neno Razuk depois da retotalização dos votos de 2022. Sem um herdeiro eleitoral automático, ela virou território em disputa. Aurélio Bonatto, ex-assessor de Neno, aparece com 1,2% na chapa do Avante, atrás de Lídio Lopes, Rogério Rohr e Ruy Costa. Pode reivindicar parte do espólio político, mas herança eleitoral não passa por escritura: precisa ser confirmada voto a voto. Zé Teixeira, Gianni, Tiago, Gleice, Renato e Lia também disputam, cada qual à sua maneira, o espaço que ficou aberto na representação douradense.
Nada disso autoriza encomendar placas de gabinete. Nas pesquisas proporcionais, ainda há um oceano de indecisos, brancos e nulos, e pequenas variações mudam completamente a ordem interna das chapas. Além disso, a urna não elege os oito federais ou os 24 estaduais mais votados isoladamente. Ela soma votos de candidatos e legendas, calcula quocientes, distribui vagas e produz eleitos que às vezes tiveram menos votos que derrotados de outros partidos. É uma matemática criada para dar representação às correntes políticas e, de quebra, fornecer assunto para advogados, jornalistas e candidatos inconformados.
Mas a fotografia disponível já permite enxergar o esboço. Rose e Mara caminham com passos de favoritas. Rodolfo tenta trocar de posição com Pollon. Geraldo luta para não ser engolido pela própria chapa. Marquinhos pode aumentar a bancada petista e manter viva a esperança de Ishy. A Cavala descobrirá se seu conhecimento de zona ultrapassa as fronteiras da propaganda. Na Assembleia, Zé Teixeira protege sua cadeira, Tiago e Gleice travam uma guerra doméstica, Renato enfrenta uma legenda congestionada, Lia espera transformar barulho em voto e o espólio de Neno procura herdeiro.
Os plenários futuros começam a ganhar rosto, mas continuam sem nome gravado nas portas. Até domingo, todos são deputados em potencial. Na segunda-feira, alguns descobrirão que foram puxadores; outros, puxados; e muitos perceberão, tarde demais, que passaram a campanha inteira tentando pegar carona num ônibus que não tinha lugar para eles.
(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
