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terça-feira, setembro 29, 2026

Contagem regressiva para a segunda-feira dos alfaiates, das farmácias e do Potreirito

Depois das urnas, oito ternos seguirão para Brasília, 24 cadeiras ganharão donos e uma multidão de candidatos descobrirá que garrafa vazia também perde eleição

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Na próxima segunda-feira, Mato Grosso do Sul amanhecerá dividido em três categorias humanas: os que estarão experimentando novos ternos, os que precisarão reforçar o Rivotril e os que pedirão informações sobre o caminho da Linha do Potreirito. Os primeiros caberão numa fotografia. Os segundos formarão fila nas farmácias. Quanto aos últimos, reza a lenda douradense que existe por aquelas bandas um recanto reservado a quem já não consegue mais enxergar luz no fim do túnel e deseja conversar em particular com o destino. Ninguém fornece o endereço completo, talvez por prudência, talvez porque nem o Google Maps aceite tamanha responsabilidade. Sabe-se apenas que, em véspera de eleição, somem das lojas as cordas destinadas a cercas, a roldanas de poços d’água caseiros, mudanças e outras atividades subitamente descobertas por candidatos que passaram quatro anos sem conseguir amarrar coisa alguma.

Aos mais previdentes restará solução menos definitiva e muito mais confortável. Quem contabilizou corretamente o dinheiro do fundão, pagou apenas as despesas indispensáveis e guardou uma reserva estratégica poderá esperar a apuração num pesqueiro, numa pousada do Pantanal ou em algum esconderijo paradisíaco do litoral. De preferência sem sinal de celular, televisão ou testemunhas. Na volta, bronzeado e recomposto, explicará que se retirou para refletir sobre os caminhos da democracia e que os 327 votos recebidos representam “uma semente plantada para o futuro”. Candidato derrotado nunca perde. Inicia um projeto político de longo prazo que geralmente termina quando acaba o saldo da campanha.

Por enquanto, porém, todos continuam eleitos. As ruas estão repletas de futuros deputados, futuros senadores, futuros secretários e futuros chefes de gabinete. Há candidato à Assembleia que já escolheu até a parede onde pendurará o retrato oficial, embora ainda não tenha convencido os moradores da própria rua. Outros contratam assessores, prometem presidências de comissões e distribuem cargos que só existirão caso os votos apareçam. É uma espécie de governo no exílio, instalado dentro da própria cabeça. A urna, essa repartição grosseira e sem sensibilidade, costuma despejar todos de uma vez na realidade.

O privilégio maior será reservado aos oito sobreviventes que ocuparão as cadeiras de Mato Grosso do Sul na Câmara Federal. Alguns fazem pouco barulho, mas seus alfaiates trabalham em regime de urgência. Ternos e tailleurs estão sendo ajustados discretamente, sempre sob a alegação de que se destinam a “compromissos institucionais”. Ninguém encomenda roupa para a posse; manda fazer um traje que, por coincidência, combina perfeitamente com o plenário da Câmara. Se a eleição falhar, servirá para casamento, velório ou entrevista coletiva em que o derrotado anunciará apoio ao vencedor.

Reinaldo Azambuja, segundo o folclore desta campanha, já deixou o seu encomendado numa alfaiataria de Maracaju. Fez bem em mantê-lo no cabide. A Quaest colocou Capitão Contar com 23%, Azambuja com 22%, Soraya Thronicke com 10% e Vander Loubet com 8% na disputa pelas duas vagas ao Senado. São números que não recomendam nem champanhe antecipado nem escolha de gravata. Soraya conhece melhor que todos a arte de deixar favoritos discutindo quem ocupará a cadeira e aparecer na hora de sentar. Vander, por sua vez, continua observando o céu à espera do KC-390 de Lula, carregado dos prometidos “santinhos” capazes de fazer sua candidatura decolar na reta final. Resta saber se o cargueiro pousará a tempo, se virá abastecido e se haverá pista eleitoral suficiente.

Para o Governo, Eduardo Riedel aparece em situação mais confortável. Os 51% apontados pela Quaest, contra 12% de Fábio Trad e 6% de Delcídio do Amaral, funcionam como ansiolítico natural. Ainda assim, pesquisa acalma, mas não substitui receita médica nem imuniza candidato contra debate ao vivo. Antes de autorizar a retirada do terno, Riedel precisará atravessar o estúdio da TV Morena, o último obstáculo de uma campanha que seus aliados já tratam como goleada. Diante de Fábio Trad, talvez deva limitar-se a cinco gotinhas de Rivotril: quantidade suficiente para conter a ansiedade, mas não tanta a ponto de deixá-lo sonolento diante de um adversário que maneja o vernáculo como quem carrega uma peixeira dentro do dicionário.

O governador possui ainda, em seu quartel-general, um sistema considerado confiável de aferição diária das tendências do eleitorado. Seus operadores falam em mais de 60% no Estado e acima de 70% em Dourados. Se acertarem, poderão vender a tecnologia aos institutos que passaram a campanha apanhando de todos os lados. Se errarem, o equipamento será desligado discretamente na noite de domingo e reaparecerá, quatro anos depois, com novo programa, nova senha e a garantia de que desta vez vai funcionar.

Mas o verdadeiro mercado de calmantes será a disputa pelas 24 cadeiras da Assembleia Legislativa. Ali não haverá pesquisa capaz de organizar a fila, marqueteiro que prometa segurança nem sistema de aferição que contabilize a última semana. É quando as garrafas vazias finalmente serão colocadas à venda e o eleitor descobrirá quem possuía voto, quem possuía dinheiro e quem apenas possuía amigos mentirosos. Chegou a hora do acerto com cabos eleitorais, do combustível, das marmitas, dos carros alugados e das mudanças repentinas de apoio. O sujeito passa a campanha inteira jurando fidelidade a um candidato e, na sexta-feira, sofre uma profunda transformação ideológica depois de uma conversa reservada no estacionamento da padaria do fuxico.

Também floresce nesta época o folclore das cargas que atravessariam a fronteira do Paraguai trazendo “santinhos” misturados a mercadorias, das boiadas sacrificadas no altar eleitoral e do dinheiro da corrupção que precisaria ser desovado antes que a polícia resolva conferir os porta-malas. Nada disso aparece nas pesquisas registradas na Justiça Eleitoral. Instituto mede intenção de voto, não pesa caminhão, não conta novilho abatido nem revista bolso de coordenador de campanha. Por isso, entre a pesquisa de sexta-feira e a urna de domingo cabe um Mato Grosso do Sul inteiro — com suas estradas vicinais, porteiras abertas, pistas clandestinas e eleitores que descobrem uma súbita admiração pelo candidato depois de receberem ajuda para o combustível.

Na segunda-feira, os vencedores declararão que a democracia triunfou e que o povo soube reconhecer suas propostas. Os derrotados denunciarão o poder econômico dos adversários, inclusive aqueles que passaram os últimos dias tentando exercer o próprio. Oito ternos seguirão para Brasília, 24 cadeiras ganharão novos donos e dois senadores descobrirão que o eleitor não respeita encomenda de alfaiate. Nas farmácias, o Rivotril terá acabado. Nos pesqueiros, não haverá mais quartos. Nas praias, alguns hóspedes usarão chapéu e óculos escuros mesmo à noite.

E, para os que não reservaram pousada, não guardaram dinheiro do fundão nem tiveram votos suficientes para justificar uma entrevista coletiva, restará aquela estradinha discreta na Linha do Potreirito. Não se sabe exatamente o que existe no fim dela. Mas, depois de uma eleição, todo candidato derrotado parece conhecer o caminho.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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