Valfrido Silva*
O jornalismo de Mato Grosso do Sul perdeu a graça. Desde que soube da morte de João Natalício de Oliveira, às 22 horas desta segunda-feira, em Ponta Porã, tento imaginar como será esta lida sem aquele homem que encontrava uma história onde os outros enxergavam apenas um acontecimento, uma piada onde sobrava solenidade e uma saída bem-humorada até quando a prefeitura estava sem dinheiro. Aos 88 anos, parte o meu guru. E aqui fica uma de suas “crias”, como ele gostava de me apresentar, procurando palavras para uma despedida que preferia nunca precisar escrever.
O “JN famoso”, assim apelidado por seu xará João Totó Câmara, entrou na minha vida profissional nos anos 1970, quando era assessor de imprensa do prefeito de Dourados. Promovido a chefe de gabinete de Totó, deixou-me em seu lugar. Acumulei a função com a de redator da Rádio Clube, naquele tempo em que aprender jornalismo significava conviver, observar, ouvir os mais velhos e descobrir, às vezes pelo caminho mais trabalhoso, como transformar a vida em notícia. João ensinava no meio da conversa, entre uma observação política e uma história engraçada. Anos depois, dizia ter orgulho de mim. Talvez nunca tenha lhe explicado direito quanto significava ouvir aquilo.
Natural de Caarapó, fez em Dourados sua formação profissional. Passou por O Progresso, pela Rádio Clube e pela Folha de Londrina, da qual foi diretor regional. Foi nessa última escola que desbravamos juntos a Grande Dourados, a Fronteira e o Conesul, levando o jornal de João Milanez aos rincões mais distantes, por estradas que ainda não conheciam asfalto e pareciam determinadas a testar nossa vocação. Uma vez, saímos de Dourados ao meio-dia e só chegamos a Ponta Porã às oito da noite, depois de atolar o fuscão da Folha. Oito horas para vencer um percurso que hoje se faz tão depressa. Na memória, entretanto, aquela viagem continua perto. Ainda consigo enxergar meu companheiro de estrada.
Quando resolveu fundar seu jornal, escolheu o nome Jornal da Praça, encomendado a uma agência de publicidade de São Paulo. Perguntei o motivo. Ele já tinha pensado adiante: se um dia mudasse de Dourados, o nome serviria em qualquer praça. Pouco mais de um ano depois, lá estava o JP fazendo história em Ponta Porã. Mais tarde, desfeita a sociedade com a família Jamil, João encontrou no próprio nome a identidade da nova empreitada: Jornal de Notícias. O JN que dirigiu até morrer, sempre com Izolina Machado de Oliveira, sua valente companheira, ao lado. Hoje, ao pensar nela, recordo também que os dois foram padrinhos do meu primeiro casamento, em 1976, na Catedral Imaculada Conceição. Nossa história já havia atravessado a redação e entrado para a família.
João gostava das colunas políticas apimentadas, das metáforas afiadas e daquele humor que fazia os poderosos rirem antes de perceber onde havia sido atingido. Na coluna Zero, o famoso “Padre de Caarapó” era referência recorrente; para uma informação de peso, aparecia um político “de alto coturno”. Criava suas próprias histórias e tinha resposta pronta para situações que deixariam muita gente encurralada. Na prefeitura, dispensou certa vez um dono de jornal ansioso pela verba mensal com uma explicação que merecia entrar nos manuais de administração pública: “Totó não tá; Tito tá tonto e a prefeitura não tem tutu”. O prefeito ausente, o tesoureiro atordoado e o caixa vazio couberam numa frase. Era muito João.
A filha, Vívian Roberta de Oliveira, levou adiante a vocação do pai. Jornalista e autora de novelas e séries bíblicas da Record, nossa Vivinha foi a daminha de honra daquele casamento. O Roberta do nome homenageia Roberto Rivellino, ídolo do Corinthians, o time de João. São detalhes que voltam agora com uma nitidez dolorosa: o amigo, a mulher, a menina, a igreja, o começo de tantas coisas. Quando alguém tão próximo parte, as lembranças parecem se reunir sem pedir licença.
Da última vez que estive com ele, há uns três meses, João já estava muito debilitado. Tentamos recuperar algumas histórias, procurando juntos o que a memória ainda permitia alcançar. Ao recordar sua formação no Instituto Adventista Campineiro, animou-se de repente: “Fui eu o autor da letra do hino oficial da escola”. Busquei no Google e encontrei a confirmação. Mostrei-lhe, emocionado, pensando ter devolvido ao meu amigo uma pequena parte de si mesmo. Ele leu e respondeu: “Essa letra não é minha”. Insisti: estava ali, autor, João Natalício de Oliveira. Então veio a explicação, sem a ironia habitual, num tom de reconhecimento que ainda ouço: “Foi Jesus Cristo quem me inspirou”.
Guardo essa conversa como quem guarda uma carta que não pode perder. O homem que tantas vezes me ensinou a encontrar a palavra certa me deixou, naquele encontro, uma frase para a qual não tive resposta. Hoje também não tenho. Tenho saudade, gratidão e uma vida inteira de histórias que continuarão me levando até ele. O jornalismo de Mato Grosso do Sul perdeu a graça. Eu perdi o amigo que me ensinou a encontrá-la.
