03/04/2017 – 00h58
Com orçamento generoso, Junior Mochi e Zé Teixeira abastecem veículos de comunicação com mídias milionárias em ano pré-eleitoral
Os iluminados que conceberam o mote – “reformar é preciso” – com o qual a Assembleia Legislativa do Estado tenta ludibriar a opinião pública jogando para debaixo do tapete os escândalos que parece incrustrados na genética dos que se sucedem nas confortáveis poltronas do plenário do tal do Palácio Guaicurus não levaram em consideração um dos mais elementares princípios da propaganda – aquele que recomenda que ela não seja enganosa. Uma confusão talvez decorrente da dubiedade de uma frase do general romano Pompeu para encorajar marinheiros receosos um século antes de Cristo; depois, no século XIV, transformada pelo poeta italiano Petrarca na expressão “navegar é preciso, viver não é preciso”, e que Caetano Veloso converteu no fado brasileiro “os argonautas” como se fosse de autoria do lisboeta Fernando Pessoa.
Diante de uma “criação” tão simples e objetiva aos seus olhos os deputados Junior Mochi e Zé Teixeira, respectivamente presidente e secretário da mesa diretora da Assembleia (os que assinam os cheques), desconsideraram os riscos que correriam com esta nova versão da famosa farra da publicidade que deixou recentemente o ex-governador Zeca do PT inelegível. Ou, mais recente ainda, da decisão do STJ obrigando o deputado Dagoberto Nogueira a devolver quase seis milhões de reais aos cofres públicos, também por promoção pessoal quando era secretário de Justiça do mesmo Zeca do PT. E, desrespeito maior, por se tratar de peças publicitárias nunca antes na história tão enganosas, dessas que chegam a embrulhar o estômago de ouvintes de rádio, de telespectadores de TV e de internet, e de leitores que, felizmente, são os mesmos eleitores a quem cabe despachar essa gente de volta pra casa.
Tudo errado. Além da desfaçatez do plágio da frase de Pompeu, de Fernando Pessoa, ou seja lá de quem for e que joga na lata de lixo os tão melodiosos versos de Caetano Veloso, Mochi e Zé Teixeira tentam burlar o artigo 37 da Constituição, que elenca os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência da publicidade pública. O presidente Mochi, por seu proselitismo televisivo, numa clara antecipação de sua pretendida campanha ao Senado, que já começou nos bastidores. O secretario Zé Teixeira, também se cacifando politicamente (ele sonha ser vice-governador numa chapa boiadeira, com Azambuja), pela irresponsabilidade de autorizar toda essa gastança para alardear uma “economia” para a Casa com a demissão de alguns barnabés pela chegada dos primeiros funcionários concursados. Pior, sabe-se agora, demissão “de mentirinha”, talvez só mesmo para justificar o dinheiro gasto com a mídia, pois que os demitidos estariam já retornando aos seus postos. Ora bolas, que economia seria essa, de cerca de R$ 330 mil por mês, quando se torra o triplo com esse tipo de propaganda? Que grande feito justifica tanto dinheiro jogado fora? Os deputados deveriam é se envergonhar, depois de 37 anos de instalada e com tantas denúncias de nepotismo e de funcionários fantasmas só agora a Casa ter realizado o primeiro concurso público para admissão de servidores.
Bem provável que o ouvinte de rádio, o telespectador, o leitor, e o eleitor, não tenham a pachorra de pôr na ponta do lápis esta brincadeira de mau gosto bancada pela instituição que – pelo histórico compadrio com os vizinhos do Tribunal de Justiça – é useira e vezeira em afrontar a opinião pública. Pelo menos, até que apareça algum destemido promotor de justiça bom em matemática que seja capaz de fazer algumas continhas. Dois exemplos, apenas, por se tratar do mais poderoso e do mais antigo entre os veículos de comunicação do Estado, multiplicando-se, por exemplo, R$ 12.900 (custo de um minuto em horário nobre na TV Morena) pelo número de vezes que Junior Mochi põe sua carequinha na telinha, ou R$ 7.500 (custo de meia página de O Progresso) pelo número de veiculações dessa e de outras mídias assembleianas. E olha que, independentemente do que esteja rolando em “reformas”, abunda criatividade das agências que atendem a Assembleia para abastecer este sessentão interioriano, pois é sagrado, quase que diariamente, como se a metade de sua terceira página fosse exclusiva para as “ações” de suas excelências. E por aí vai, com a dinheirama jorrando também em todos os sites da capital, cujos espaços normalmente utilizados para essas mídias beiram aos R$ 100 mil, por mês, sem contar a picaretagem CTRL C/CTRL V simpática ao ganancioso demo que, não contente com a chave do cofre da Assembleia agora quer porque quer também colocar seus prepostos para controlar a comunicação e a venda de carteiras e materiais escolares, sem abrir mão, claro, da sempre rentável medição das obras da prefeitura de Dourados.
Como disse Pompeu, navigare necesse, vivere non est necesse. Mas será que “reformar” e, principalmente, divulgar exaustivamente essas “reformas” seria mesmo tão necessário, ou preciso?! A menos que seja “precisão” no sentido daquela que transformou o inconformismo do tremendão Erasmo Carlos em inspiração para seus não menos antológicos versos “tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”. Que o Ministério Público descubra as contas bancárias de quem esta desavergonhada mídia estaria engordando.
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