07/04/2017 – 10h14
Bombardeio contra base militar deixou 9 civis mortos. Presidente russo afirma que ação foi baseada em ‘pretextos inventados’. Moscou reforçará defesa aérea do Exército sírio
MOSCOU — O presidente da Rússia, Vladimir Putin, considerou o bombardeio dos Estados Unidos contra uma base militar na Síria uma “agressão contra um Estado soberano”, baseada “em pretextos inventados”, informou o Kremlin nesta sexta-feira. Em uma mudança de postura em relação ao regime de Bashar al-Assad, o presidente americano, Donald Trump, ordenou o bombardeio na noite de quinta-feira em retaliação ao ataque químico que matou mais de 70 pessoas em uma cidade controlada pelos rebeldes no Noroeste da Síria. De acordo com o Exército russo, apenas 23 dos 59 mísseis lançados pelos EUA atingiram a base aérea síria, deixando nove mortos — incluindo quatro crianças. Esta é a primeira agressão direta dos EUA contra o governo de Assad em seis anos de guerra civil.
“O presidente Putin considera que os bombardeios americanos contra a Síria são uma agressão a um Estado soberano, que violam as normas do direito internacional”, declarou o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov, afirmando que a ação foi baseada em “pretextos inventados”. “Esta ação de Washington causa um dano considerável nas relações russo-americanas, que já se encontram em um estado lamentável”.
A base de al-Shayrate, na província de Homs (centro da Síria), foi atacada às 00h40 (21h40 de Brasília, na quinta-feira) por 59 mísseis “Tomahawk” disparados pelos navios americanos “USS Porter” e “USS Ross”. Os mísseis estavam no Mediterrâneo e foram lançados em resposta ao ataque químico de terça-feira na localidade de Khan Sheikhun, atribuído por Washington ao regime sírio.
Segundo Peskov, a ação ordenada por Trump cria sérios obstáculos para a constituição de uma coalizão internacional para lutar contra o terrorismo. O porta-voz negou que o Exército sírio possua reservas de armas químicas, recordando que a destruição do arsenal químico de Damasco foi verificada por organizações internacionais.
Para o presidente russo, “os ataques americanos na Síria são uma tentativa de desviar a atenção da comunidade internacional das numerosas vítimas civis no Iraque” em razão dos ataques aéreos contra o grupo Estado Islâmico em Mossul, onde dezenas de civis foram mortos no final de março.
Depois do bombardeio, o porta-voz militar russo disse que Moscou reforçará as defesas aéreas do Exército sírio. Em outra reação ao ataque, a Rússia decidiu suspender o acordo assinado com os EUA para evitar incidentes com aeronaves dos dois países na Síria — ambos combatem o Estado Islâmico no território sírio.
“A fim de proteger a infraestrutura síria mais sensível, uma série de medidas será tomada o mais rápido possível para fortalecer e melhorar a eficácia do sistema de defesa aéreo das Forças Armadas Sírias”, disse o porta-voz Igor Konachenkov.
A agência de notícias estatal da Síria informou que o ataque à base área matou ao menos nove civis, incluindo quatro crianças, e destruiu nove aviões sírios. Segundo a Sana, os civis foram mortos em vilarejos perto da base. Mais sete pessoas ficaram feridas e casas na região foram severamente danificadas.
Os militares sírios chamaram o ataque de “agressão descarada” e disseram que a ação tornou os Estados Unidos um “aliado” de “grupos terroristas”, incluindo o Estado Islâmico.
O ataque levou os Estados Unidos a confrontarem diretamente a Rússia, que tem forças militares no terreno em apoio a Assad, e foi respaldado por países ocidentais.
Nesta sexta-feira, o presidente da França, François Hollande, disse que a “resposta” dos Estados Unidos na Síria após o ataque químico deve “agora prosseguir em nível internacional”.
— Considero que esta operação foi uma resposta — disse Hollande. — Agora, deve prosseguir em nível internacional, se for possível no âmbito das Nações Unidas, para que possamos sancionar Bashar al-Assad e evitar que voltem a ser utilizadas armas químicas.
Trump anunciou o ataque de sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, onde recebia o presidente da China, Xi Jinping
— Anos de tentativas anteriores de mudarem o comportamento de Assad fracassaram e fracassaram drasticamente — disse Trump. — Até bebês foram cruelmente assassinados por esse ataque selvagem.
Países ocidentais culpam o regime de Assad pelo ataque químico, o que Damasco nega. Na versão da Rússia, aviões sírios teriam bombardeado um depósito dos rebeldes que continha substâncias tóxicas.
— Nenhum filho de Deus deveria passar por tanto horror — assinalou o presidente americano.

