A entrega de um caminhão, uma esteira de separação de resíduos, uniformes e equipamentos de proteção individual para os trabalhadores da Agecold (Associação dos Agentes Ecológicos de Dourados) poderia ser apenas mais um daqueles eventos administrativos destinados a ocupar espaço nos releases oficiais. Mas quem observa a política além dos discursos protocolares talvez tenha percebido algo mais interessante acontecendo na manhã desta segunda-feira nos fundos do Parque Arnulpho Fioravante. Entre uma fala sobre reciclagem, outra sobre sustentabilidade e algumas fotografias institucionais, Dourados assistiu a uma cena cada vez mais rara no Brasil das redes sociais e cada vez mais necessária na vida real: adversários políticos dividindo o mesmo palanque em torno de um interesse comum.
De um lado estava o prefeito Marçal Filho, eleito por um campo político claramente identificado com as forças que hoje sustentam o governo estadual. Do outro, o deputado federal Vander Loubet, principal liderança do PT em Mato Grosso do Sul e nome que aparece com frequência nas conversas sobre a próxima disputa ao Senado. Entre ambos, não havia disputa ideológica, troca de farpas ou competição por holofotes. Havia uma associação de agentes ecológicos recebendo equipamentos para ampliar a coleta seletiva e melhorar as condições de trabalho de 26 famílias que sobrevivem da reciclagem.
Pode parecer pouco. Mas não é
Durante muitos anos a política brasileira acostumou-se a transformar qualquer diferença partidária em trincheira permanente. Prefeitos deixavam de conversar com deputados. Governadores ignoravam prefeitos. Parlamentares destinavam recursos apenas para aliados. O cidadão assistia a tudo pagando a conta e esperando a obra prometida. Em Dourados, pelo menos neste episódio, aconteceu exatamente o contrário. O recurso veio por articulação de Vander Loubet junto à Itaipu Binacional. O município ofereceu a estrutura institucional necessária. A Agecold recebeu os equipamentos. E a população ganhou um serviço que pode ajudar a ampliar uma coleta seletiva que hoje alcança apenas cerca de 30% da cidade.
O simbolismo talvez seja ainda mais importante do que o investimento. Afinal, ninguém imagina que um caminhão e uma esteira resolvam os desafios ambientais de uma cidade do tamanho de Dourados. O que chama atenção é a capacidade de diálogo. Marçal Filho poderia ter tratado a entrega como uma conquista exclusivamente municipal. Vander Loubet poderia ter transformado o evento em palanque antecipado de sua caminhada rumo ao Senado. Nenhuma das duas coisas aconteceu. Pelo contrário. O discurso predominante foi o da parceria institucional.
Também não é irrelevante que essa aproximação aconteça justamente num momento em que Vander Loubet amplia sua presença política no interior do Estado. Se a eleição para o Senado costuma premiar candidatos capazes de construir pontes além de seus próprios redutos ideológicos, cada agenda compartilhada com prefeitos de diferentes correntes políticas ajuda a consolidar essa imagem. E Marçal Filho, por sua vez, parece compreender que a cidade ganha mais quando o prefeito conversa com todos os canais de poder disponíveis, independentemente das cores partidárias de cada interlocutor.
Assim, o caminhão entregue à Agecold pode acabar transportando mais do que materiais recicláveis. Pode transportar também uma mensagem cada vez mais necessária para tempos de radicalização permanente: a de que a boa política continua sendo aquela capaz de reunir pessoas diferentes em torno de objetivos comuns. Se isso acontece em nome da sustentabilidade, da geração de renda e da melhoria da qualidade de vida, tanto melhor. A ecologia agradece. E a política também.
ContrapontoMS, com dados da Agecom/PMD
