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quinta-feira, julho 30, 2026

O tempo: o maior cúmplice da corrupção

Da Owari à Cifra Negra, Dourados colecionou operações policiais. O que continua em julgamento é a capacidade do Estado de convencer o próximo corrupto de que o crime, definitivamente, não compensa

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Valfrido Silva

Toda vez que um figurão da política douradense reaparece nas páginas policiais, como aconteceu nesta quarta-feira com a condenação do ex-presidente da Câmara Municipal, Idenor Machado, a memória coletiva faz uma viagem inevitável ao passado. Volta imediatamente à Operação Uragano, a maior ofensiva contra a corrupção já desencadeada pela Polícia Federal em Mato Grosso do Sul. Naquela manhã de setembro de 2010, Dourados acordou atônita. Cerca de sessenta pessoas foram presas de uma só vez. Entre elas, o prefeito Ari Artuzi, o vice-prefeito Carlinhos Cantor, a primeira-dama Maria Artuzi, nove dos doze vereadores da Câmara, secretários municipais, empresários e empreiteiros. Parecia que a corrupção havia encontrado, finalmente, um freio capaz de mudar a história política da cidade.

Não mudou.

Antes mesmo da Uragano, Dourados já havia assistido às operações Owari e Brothers, igualmente rumorosas, embora menores em número de presos. Também ali desfilaram nomes conhecidos da política e da administração pública. O caso mais emblemático talvez seja o de Eduardo Campos, preso na época ao lado da esposa, a advogada Paula Consalter Campos. Hoje ele é o prefeito de Ponta Porã e ela ocupa uma secretaria estratégica do município. Não se trata de discutir aqui o mérito jurídico daqueles processos, mas de registrar um fato político: o tempo correu mais depressa que a Justiça.

Dezesseis anos depois da Uragano, o estado continua assistindo ao mesmo roteiro. Recursos se acumulam, processos caminham lentamente, condenações de primeira instância aguardam julgamento definitivo e a vida política segue seu curso. Alguns personagens voltam a ocupar cargos públicos, outros assessoram candidatos, outros permanecem influentes nos bastidores. A política não espera o relógio do Judiciário.

Foi justamente nesse ambiente que surgiu a Operação Cifra Negra. A investigação foi deflagrada em 2018 para apurar supostas fraudes em licitações, corrupção, peculato e organização criminosa na Câmara Municipal. Oito anos depois veio a sentença de primeiro grau, condenando Idenor Machado e outros réus, absolvendo outros acusados e abrindo, naturalmente, espaço para os recursos previstos na legislação.

Seria natural imaginar que a Cifra Negra encerrasse mais um capítulo dessa longa história. Mas a realidade foi mais rápida que a Justiça. Antes mesmo de essa operação alcançar uma decisão definitiva, Dourados já se via diante de outra investigação de grande repercussão: a Operação Gutenberg, que apura suspeitas de irregularidades em contratações ligadas à educação durante a administração passada. Se na Uragano as suspeitas recaíam sobre recursos destinados à saúde, agora a investigação volta seus olhos para um setor igualmente sensível: a educação. Depois dos hospitais, chegam as bibliotecas. Mudam os cenários, mudam os personagens e mudam os objetos da investigação. O roteiro, infelizmente, continua assustadoramente parecido. A Gutenberg apenas começou. Terá investigação, defesa, contraditório e julgamento, como determina o Estado de Direito. O desfecho ninguém conhece. Mas sua simples existência reforça uma constatação incômoda: enquanto uma operação ainda percorre o longo caminho da Justiça, outra já ocupa seu lugar no noticiário.

Não cabe discutir o mérito dessas decisões ou dessas investigações. Essa tarefa pertence às instâncias superiores. A reflexão é outra. Se operações do porte da Uragano, antecedidas por Owari e Brothers e seguidas pela Cifra Negra, não foram suficientes para criar um ambiente de temor capaz de inibir novas práticas e, antes mesmo de seu desfecho definitivo, a cidade já convive com a Gutenberg, alguma coisa deixou de cumprir sua função.

O combate à corrupção não se resume a prender, denunciar ou condenar. Seu principal efeito deveria ser pedagógico. A punição precisa servir de exemplo para quem pensa em repetir o mesmo caminho. Quando ela leva oito, dez ou dezesseis anos para produzir consequências definitivas, deixa de funcionar como advertência e passa a integrar o cálculo de risco de quem decide delinquir.

É exatamente “aí que surge o pobrema”, como diria nosso já consagrado personagem, o meu sogro Manoel Torquato, tio do prefeito Marçal Filho. Porque o maior patrimônio da corrupção brasileira talvez não seja o dinheiro desviado, nem a influência política, nem os bons advogados. É o tempo. O tempo desgasta provas, muda governos, altera mandatos, esfria a indignação popular e faz com que escândalos gigantescos se transformem em lembranças difusas de um passado distante.

O caso recente do ex-deputado Roberto Razuk Filho, o Neno, condenado e agora incluído na difusão vermelha da Interpol, também ilustra como investigações complexas podem atravessar décadas até alcançarem seu desfecho judicial. Independentemente das particularidades de cada processo, permanece a mesma sensação de que o calendário costuma correr em velocidade muito superior à da Justiça.

Enquanto isso, a política segue seu ritmo. As eleições chegam a cada dois anos. Os mandatos terminam. Novos grupos assumem o poder. Outros retornam. E o eleitor, muitas vezes, é chamado novamente às urnas sem que processos iniciados muitos anos antes tenham recebido uma resposta definitiva.

A corrupção não prospera apenas porque existem corruptos. Ela prospera porque, entre um escândalo e outro, consolidou-se a percepção de que o tempo joga a seu favor. Enquanto essa lógica não for invertida, continuaremos assistindo a novas operações, novos escândalos e novas manchetes. Mudarão apenas os nomes. O enredo continuará rigorosamente o mesmo.

Tudo isso acontecendo e eu ali, na velha Padaria do Fuxico, ouvindo histórias e mais histórias. Depois volto para casa, fico na sacada olhando o horizonte e imaginando quantas comunidades já trocaram de dono, quantas operações policiais ainda serão necessárias e quantas manchetes ainda teremos de escrever antes que alguém descubra que corrupção não se combate apenas com algemas. Combate-se, principalmente, com a certeza de que a punição chegará antes que o próximo corrupto conclua que vale a pena tentar. Enquanto Raul Seixas cantava olhando o horizonte, eu continuo olhando Dourados. E, infelizmente, a paisagem ainda insiste em repetir o mesmo filme.

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