Os gregos eram mesmo otimistas. Inventaram uma deusa chamada Thêmis, colocaram-lhe uma espada na mão direita para punir os culpados, uma balança na esquerda para pesar as razões de cada lado e cobriram-lhe os olhos com uma venda, convencidos de que a Justiça jamais deveria distinguir reis de plebeus, ricos de pobres ou poderosos de anônimos. Era uma ideia tão bonita que atravessou mais de dois mil anos praticamente intacta e acabou eternizada na imponente estátua de granito que permanece sentada diante do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Confesso, porém, que de vez em quando me bate uma dúvida quase herética. Será que, aqui por estas bandas, a velha Thêmis continua mesmo de olhos vendados ou resolveu afrouxar discretamente o pano apenas para conferir quem está entrando primeiro na fila dos tribunais? A pergunta pode parecer irreverente, mas nasce da simples observação dos fatos, e os fatos, por mais teimosos que sejam, continuam sendo o melhor alimento do jornalismo.
Afinal, não é qualquer país que consegue assistir, num espaço relativamente curto de tempo, três ex-presidentes da República passarem pelo sistema de Justiça em velocidade impressionante. Fernando Collor de Mello, Luiz Inácio Lula da Silva e, agora, Jair Bolsonaro, cada qual com sua história, suas circunstâncias, seus processos e seus direitos de defesa, acabaram transformando-se em protagonistas de decisões que mobilizaram o país inteiro. Não discuto nenhuma delas. Elas pertencem aos tribunais, não às redações. O que desperta minha curiosidade é outra coisa: a diferença de ritmo. Porque basta deixar Brasília para trás, embarcar na ponte aérea rumo ao Centro-Oeste e observar, lá de cima, os intermináveis renques de eucaliptos avançando sobre o antigo cerrado sul-mato-grossense para a impressão mudar completamente. A mesma Justiça que parece correr os cem metros rasos na Praça dos Três Poderes, por aqui, às vezes prefere caminhar no compasso dos intermináveis “pare e siga” das obras de duplicação da BR-163, entre Campo Grande e Dourados.
Talvez seja apenas impressão. Talvez não. O fato é que este Estado coleciona algumas das mais rumorosas operações policiais de sua história recente, acompanhadas de investigações, delações premiadas, empresários narrando em detalhes a entrega de malas e mais malas de dinheiro, relatos de achaques milionários, gravações, documentos e um enredo que, durante anos, ocupou manchetes nacionais. Passado o impacto das sirenes, das coletivas de imprensa e das imagens cinematográficas das buscas e apreensões, instala-se um velho conhecido da política brasileira: o tempo. E o tempo, como escrevi ontem, costuma ser o mais fiel aliado da corrupção. Enquanto ele passa, recursos se acumulam, processos amadurecem lentamente, personagens envelhecem, legislaturas terminam e novas eleições chegam trazendo de volta ao palco muitos daqueles que a opinião pública imaginava já terem encerrado sua carreira política.
É justamente por isso que a convenção partidária marcada para este sábado, em Campo Grande, tem tudo para produzir uma cena digna da mitologia grega. Não porque ali estarão reunidos apenas homens públicos em busca de legenda para disputar mais uma eleição. Convenções existem para isso mesmo. O que chama a atenção é o contraste entre a velocidade demonstrada pela Justiça em alguns episódios nacionais e a impressionante resistência do calendário em determinados casos regionais. Entre os discursos, os abraços e as fotografias oficiais estarão personagens ligados a grupos políticos que, há anos, convivem com investigações rumorosas, delações amplamente divulgadas e processos que parecem caminhar em outro fuso horário. Alguns responderam, outros ainda respondem, outros tiveram situações definidas pela Justiça. O que permanece comum entre eles é a capacidade de continuar ocupando o centro da cena política enquanto boa parte dessas histórias ainda aguarda um desfecho definitivo.
O exemplo mais eloquente talvez seja justamente o do deputado Neno Razuk. Ele não estará amanhã na convenção para ter o nome referendado como candidato à Câmara Federal, mas não por causa das graves questões criminais que hoje pesam contra ele. Sua ausência decorre da perda do mandato provocada por uma recontagem de votos realizada três anos depois da eleição. Não fosse esse detalhe, provavelmente estaria no mesmo palco recebendo aplausos e cumprimentos. Enquanto isso, sua condenação a 14 anos de prisão e a inclusão na difusão vermelha da Interpol revelam que, quando o Estado resolve agir, sabe agir com rapidez e firmeza. O espanto nasce exatamente da comparação. Em outros episódios igualmente conhecidos dos sul-mato-grossenses, o relógio parece marcar outra hora.
Há mais de três décadas, por exemplo, a política estadual convive com suspeitas, investigações e episódios envolvendo famílias tradicionais, algumas delas profundamente entrelaçadas com a própria história do poder em Mato Grosso do Sul. Os Name são um exemplo dessa presença permanente no cenário político. Os Jamil também. Gandhi Jamil foi deputado estadual e federal, disputou o Governo do Estado em 1990. Jamilson Name continua exercendo mandato parlamentar e deverá participar da convenção deste sábado. Ao longo desse período, investigações sobre organizações criminosas, relações políticas e estruturas de poder foram sendo construídas, ampliadas e aprofundadas pelas autoridades competentes, alimentando uma pergunta que continua sem resposta convincente para o cidadão comum: por que determinadas engrenagens do sistema levam tanto tempo para começar a funcionar, quando outras parecem operar em velocidade máxima?
Porque uma Justiça que demora demais para entregar sua palavra final produz um efeito perverso. Não apenas deixa a sociedade em permanente estado de expectativa. Ela educa mal. Ensina que recursos podem durar mais que mandatos. Ensina que operações policiais podem envelhecer antes de produzir suas consequências definitivas. Ensina que escândalos capazes de dominar telejornais em rede nacional acabam, anos depois, substituídos por novas manchetes, enquanto seus protagonistas retornam aos palanques como se nada tivesse acontecido. Não se trata de negar a ninguém o direito constitucional ao devido processo legal. Trata-se de reconhecer que uma Justiça excessivamente lenta também comunica uma mensagem. E essa mensagem nunca fortalece a confiança das instituições.
Talvez por isso a velha Thêmis de Brasília continue exatamente como os gregos a imaginaram: imóvel, silenciosa e rigorosamente vendada. Talvez quem esteja enxergando diferente sejamos nós, aqui no MS, cansados de ver o tempo transformar investigações em lembranças, operações policiais em arquivos e personagens de ontem em candidatos de amanhã. Se for assim, a estátua não precisa trocar a espada, nem a balança. Basta apertar um pouco mais a venda. Porque, no Brasil contemporâneo, o maior risco para a Justiça talvez não seja deixar de punir. Seja permitir que o calendário pareça decidir, antes dela, quem continua no palco e quem finalmente desce dele.
