Até parece que a vereadora Luiza Ribeiro andou lendo o contrapontoMS, mais precisamente um texto cujo título parece ter envelhecido mais depressa do que imaginávamos: “Adriane Lopes, o nome que não merecia estar no texto”. Aquela história já era, por sua vez, uma suíte. Nasceu depois que publicamos um texto de Lúdio Coelho sobre Campo Grande e, ao terminá-lo, percebemos que, mesmo falando dos problemas da cidade — buracos incluídos —, não havíamos lembrado uma única vez da prefeita Adriane Lopes. Foi desse esquecimento que nasceu a brincadeira — séria, como costumam ser as melhores brincadeiras políticas — com o significado de subtexto, aquela técnica aprendida pelo velho escriba num curso de cinema segundo a qual nem tudo precisa ser dito para que seja perfeitamente compreendido. Se o leitor conseguia chegar à prefeita sem que precisássemos escrever seu nome, bastavam os buracos, as reclamações dos moradores e aquela incapacidade ainda não solucionada pela tecnologia moderna de editar uma cratera no asfalto até fazê-la desaparecer num passe de mágica. Pois o subtexto resolveu pedir passagem para virar texto: Luiza Ribeiro (PT) apresentou nesta quinta-feira requerimento para criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar possíveis irregularidades nos serviços de tapa-buraco da Capital.
Se prosperar, a CPI terá uma tarefa que vai muito além de discutir o desconforto de dirigir desviando de crateras. O requerimento propõe investigar a falta de respostas da administração municipal às reclamações da população, os prejuízos provocados pela precariedade das vias, a redução dos investimentos destinados à manutenção das ruas e avenidas e denúncias envolvendo a execução dos contratos. E os números apresentados ajudam a medir o tamanho do buraco — desta vez não apenas daquele que aparece na fotografia. Segundo o documento, a dotação destinada ao projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas teria despencado de mais de R$ 132 milhões em 2025 para pouco mais de R$ 40 milhões em 2026, redução próxima de 70%. No primeiro semestre deste ano, das 24.673 indicações encaminhadas pelos vereadores ao Executivo, quase 9 mil pediam serviços de tapa-buraco. Traduzindo o burocratês: mais de uma em cada três solicitações feitas pela Câmara ao Paço Municipal dizia respeito ao estado das ruas.
Mas eis que aparece a cereja do bolo — ou, para permanecermos no vocabulário adequado, a cratera no meio da pista. O requerimento informa que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul investiga questões relacionadas aos serviços de tapa-buraco e cita uma operação que apurou suspeitas de fraude em contratos, incluindo possíveis irregularidades em medições e pagamentos por obras parcialmente executadas ou não realizadas. O nome escolhido para a operação foi “Buraco Sem Fim”. Não, caro leitor, este velho escriba não inventou. Há ocasiões em que a realidade demonstra uma capacidade de produzir títulos diante da qual qualquer jornalista deveria simplesmente baixar a cabeça e agradecer. Depois de escrevermos sobre buracos que aparentemente resistem às tentativas de edição da administração municipal, surge no requerimento de uma CPI uma operação policial chamada Buraco Sem Fim. Se acrescentássemos alguma coisa, correríamos o risco de estragar.
Há, porém, assunto muito sério debaixo da graça involuntária. Um pedido de CPI não nasce provando culpa de ninguém, tampouco sua apresentação significa que as irregularidades mencionadas estejam comprovadas. O requerimento precisa cumprir o caminho regimental, e eventuais responsabilidades dependerão de investigação e provas. Mas a iniciativa acrescenta uma dimensão institucional àquilo que o campo-grandense percebe diariamente pelo para-brisa. Uma coisa é o cidadão reclamar do buraco. Outra é o Legislativo reunir milhares dessas reclamações, apontar redução de recursos, cobrar informações não respondidas e propor investigação parlamentar sobre contratos que já despertaram atenção de órgãos de controle. Segundo o próprio requerimento, a Câmara havia aprovado no primeiro semestre o Requerimento de Informações nº 34/2026, solicitando dados sobre a execução dos serviços, mas o prazo teria expirado sem resposta do Executivo. Se confirmado, temos outro daqueles fenômenos curiosos da administração pública: o buraco permanece aberto e a pergunta sobre ele também.
Talvez esteja aí a melhor explicação para a suíte jornalística involuntária que a política nos ofereceu. No texto anterior, brincávamos que ainda não havia sido descoberto efeito mágico de edição capaz de fazer um buraco desaparecer. Agora sabemos que existe coisa ainda mais difícil de editar: quase 9 mil indicações de vereadores, dezenas de milhões de reais a menos na previsão orçamentária, requerimento sem resposta, investigação de órgãos de controle e pedido de CPI. A prefeita Adriane Lopes tem, evidentemente, todo o direito de apresentar sua versão, explicar os investimentos, mostrar o que está sendo executado e contestar números ou acusações que considere incorretos. Da mesma forma, uma eventual CPI terá obrigação de investigar em vez de simplesmente produzir palanque eleitoral. Fiscalização séria não pode começar com sentença pronta, especialmente quando se discutem suspeitas que ainda precisam ser comprovadas.
Mas aquela velha história do subtexto ficou um pouco mais complicada. No texto de Lúdio e Nelsinho ainda era possível falar de Campo Grande sem pronunciar o nome da prefeita no corpo da história porque a ausência fazia parte da provocação. Agora apareceram a Câmara, os números, o Ministério Público, o pedido de CPI e até uma Operação Buraco Sem Fim. A realidade parece ter decidido preencher, ela própria, os espaços que havíamos deixado em branco. E diante de tamanho esforço coletivo para escrever a suíte, continuar escondendo o nome da personagem principal já não seria exercício de subtexto. Seria omissão.
contrapontoMS
