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domingo, agosto 16, 2026

Os altos e baixos da performance eleitoral do azambujismo

A saída de Nelsinho, o fim de um contencioso judicial de oito anos e a tentativa de amarrar o segundo voto recolocam uma velha pergunta: qual é, afinal, o verdadeiro tamanho eleitoral de Reinaldo Azambuja?

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Valfrido Silva

Quando, no texto anterior, escrevi sobre a possibilidade de um estouro de boiada no azambujismo, não estava focando apenas na decisão do prefeito “mais louco do Brasil”, Juliano Ferro, de Ivinhema, de anunciar o segundo voto para senador em Vander Loubet, contrariando o que parecia ser uma determinação de Reinaldo Azambuja para que seus aliados fechassem a dobradinha com Capitão Contar. Havia algo maior por trás daquela porteira: o primeiro efeito dessa tentativa de enquadramento já havia sido a retirada da candidatura à reeleição de Nelsinho Trad, senador competitivo nas pesquisas, que acabou acomodado justamente como primeiro suplente de Azambuja. E havia ainda uma circunstância capaz de tornar essa movimentação muito mais intrigante: praticamente na undécima hora da pré-campanha, o ex-governador acabara de se livrar de um contencioso judicial que o acompanhava havia oito anos, aí incluído o bloqueio de seus bens, consequência das explosivas delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS.

Nelsinho não era um candidato sem voto procurando um lugar ao sol. Tinha mandato, estrutura, sobrenome eleitoralmente pesado e aparecia competitivo nas pesquisas, fungando no cangote de Azambuja. As explicações para sua desistência passaram por dificuldades para formação de chapa, falta de palanque, espaço na propaganda eleitoral de Eduardo Riedel, seu aliado de primeira hora, e pelas acomodações próprias de uma aliança política que precisava caber dentro do mesmo cercado. Tudo isso pode ter pesado. Mas Nelsinho desistiu da reeleição e foi parar exatamente como primeiro suplente do candidato que até ali liderava a corrida.

Não há, ainda, nada que permita afirmar que Azambuja tenha convencido Nelsinho a sair para diminuir o próprio risco eleitoral. Mas seria ingenuidade jornalística fingir que a pergunta não existe. Dois e dois continuam sendo quatro, e não cinco, como ensina o rei Roberto Carlos. Azambuja tinha Capitão Contar, representante do bolsonarismo-raiz e dono de eleitorado comprovado nas urnas, disputando espaço de um lado; Vander Loubet, candidato do PT e beneficiário potencial do fator Lula, crescendo do outro; e, entre eles, Nelsinho, com mandato, estrutura e votos próprios. Sua retirada tornou objetivamente mais confortável o caminho de quem já aparecia na frente. Mais conveniente ainda: o concorrente não atravessou a rua para reforçar outro palanque. Acomodou-se dentro da própria chapa de Azambuja.

A circunstância ganha peso quando se olha para a outra pedra que saíra antes desse caminho. O contencioso que acompanhava Azambuja desde as delações da JBS não nasceu de uma denúncia qualquer de adversário em período eleitoral, muito menos de um subordinado da imprensa. Joesley e Wesley Batista, protagonistas de uma delação premiada que sacudiu o País, fizeram acusações gravíssimas envolvendo o então governador de Mato Grosso do Sul e benefícios fiscais concedidos ao grupo. Em depoimento de enorme repercussão nacional, Wesley afirmou que, entre os pagamentos relacionados a Azambuja, R$ 10 milhões teriam sido feitos em espécie, além de R$ 12,6 milhões destinados à empresa Buriti. As acusações chegaram ao Jornal Nacional e ajudaram a dar origem à Operação Vostok. Azambuja, evidentemente, sempre negou ter recebido vantagem indevida e contestou duramente as declarações dos delatores.

A investigação atravessou operações policiais e eleições e somente agora, praticamente na entrada da campanha de 2026, teve seu capítulo judicial encerrado sem que o todo-poderoso da política estadual tivesse se tornado réu naquele inquérito. O Ministério Público Federal manifestou-se pelo arquivamento e decisões judiciais apontaram insuficiência de elementos para justificar o prosseguimento das investigações. Convém deixar as duas informações juntas: as acusações foram pesadíssimas e produziram enorme desgaste político; ao final de oito anos, a investigação foi arquivada sem que Azambuja se tornasse réu. Jornalismo não pode ter memória apenas para a manchete, muito menos amnésia para o desfecho.

Pois, num intervalo relativamente curto, duas pedras importantes desapareceram do caminho de Reinaldo Azambuja. Uma saiu pela Justiça. A outra, pela política. Não dá para estabelecer relação entre uma coisa e outra. O que existe é uma consequência eleitoral perfeitamente mensurável: Azambuja chegou à campanha sem o contencioso judicial que carregara durante anos e sem um dos concorrentes competitivos da disputa. E talvez esteja justamente aí a pergunta que faltava à nossa trilogia de porteiras, currais e boiadas. Se a candidatura de Azambuja ao Senado é realmente essa força da natureza propagandeada por cabos eleitorais, aspones e integrantes da máquina governista, quanto dessa força pertence efetivamente ao candidato e quanto pertence à gigantesca estrutura política construída ao seu redor?

Antes que alguém solte novamente a boiada, portanto, talvez seja conveniente fazer a conta mais elementar desta história: a dos votos. Não o tamanho político de Azambuja, que é indiscutível, nem sua capacidade de montar alianças, acomodar adversários, eleger aliados e permanecer no centro do tabuleiro estadual. A pergunta é outra: quando o nome dele aparece na urna, o que vem, efetivamente, na cabeça do eleitor?

A primeira obrigação é separar prognóstico de resultado eleitoral. Há uma percepção recorrente de que Azambuja carregaria historicamente dificuldades em Campo Grande e Dourados. Mas os números mostram o contrário. Em 2014, por exemplo, venceu nas duas cidades e ampliou sua vantagem no segundo turno. Portanto, nada de torturar urna até ela confessar aquilo que gostaríamos de escrever. O que sobra depois que retiramos o exagero é mais interessante: Reinaldo Azambuja é eleitoralmente forte, mas sua própria biografia demonstra que nunca foi invencível.

A história começa onde sua força é incontestável: Maracaju. Ali construiu patrimônio político e econômico, foi eleito prefeito em 1996 com 5.461 votos, 44,03%, e reeleito em 2000 com 8.434, chegando a 61,61%. Depois expandiu a invernada. Em 2006 elegeu-se deputado estadual com 47.772 votos, a maior votação entre os eleitos naquele pleito; quatro anos depois saltou para Brasília, eleito deputado federal com 122.213 votos. Até aí, uma trajetória praticamente ascendente: prefeitura, Assembleia Legislativa, Câmara Federal.

Foi então que achou que já tinha criado pelo suficiente para encarar Campo Grande. E descobriu que o curral era outro. Em 2012, candidato a prefeito da Capital, recebeu 113.629 votos, 25,90%, terminando em terceiro lugar. Alcides Bernal liderou com 176.288, 40,18%, seguido de Edson Giroto, com 122.813, 27,99%. Azambuja nem passou ao segundo turno. É uma derrota que costuma desaparecer quando se conta a história do político que depois governaria Mato Grosso do Sul por oito anos. Mas ela importa: o futuro coronel descobriu na Capital que sobrenome, mandato parlamentar e estrutura partidária não garantiam patente eleitoral automática.

Dois anos depois veio a eleição que efetivamente mudou seu tamanho. Em 2014, quem venceu o primeiro turno para governador foi Delcídio do Amaral, com 567.331 votos, 42,92%, contra 516.744, 39,09%, de Azambuja. No segundo turno o tucano virou: 741.516 votos, 55,34%, contra 598.461, 44,66%, de Delcídio. Não há como diminuir o feito. Mas também não há razão para reescrever a história como se Azambuja tivesse desembarcado naquela disputa carregando a faixa no bolso. Entrou no segundo turno atrás e precisou buscar a vitória.

Campo Grande e Dourados, ao contrário do que uma percepção recorrente poderia sugerir, ajudaram na virada. Na Capital, Azambuja saiu de 199.555 votos no primeiro turno para 289.862 no segundo; em Dourados, de 49.987 para 67.386. Talvez esteja aí um de seus talentos políticos mais consistentes: não necessariamente entrar em todas as eleições como favorito absoluto, mas saber reorganizar forças quando a primeira fotografia lhe é desfavorável.

Quatro anos depois veio talvez o melhor antídoto contra a tentativa de transformá-lo em bicho-papão. Azambuja era governador candidato à reeleição, tinha exposição permanente, ampla coligação e a estrutura política construída desde 2014. Ainda assim, precisou novamente de segundo turno. Fez 571.337 votos, 44,61%, contra 405.606, 31,67%, do Juiz Odilon de Oliveira, recém-chegado às urnas depois de construir enorme notoriedade na magistratura federal.

E havia um ingrediente adicional. Em setembro de 2018, em plena campanha, a Polícia Federal deflagrou a Operação Vostok, derivada das acusações originadas na delação da JBS. A investigação que agora saiu definitivamente do caminho de Azambuja já havia, portanto, atravessado seu caminho eleitoral oito anos antes. E ele venceu: 677.310 votos, 52,35%, garantindo o segundo mandato.

Outra vitória que precisa ser registrada sem asterisco. Mas 52,35% também não é número de bicho-papão. É número de uma eleição competitiva, vencida por um político forte contra um adversário que nunca havia ocupado cargo eletivo. Talvez os admiradores de Azambuja confundam sua enorme capacidade de sobreviver eleitoralmente ao aperto com invencibilidade. Só que sobreviver ao aperto e não correr risco são coisas completamente diferentes.

A prova seguinte não teve o nome de Reinaldo na urna, mas talvez seja a maior demonstração do poder político do azambujismo. Em 2022, depois de oito anos de governo, conseguiu levar à disputa sucessória Eduardo Riedel, seu ex-secretário e candidato da continuidade, que jamais havia disputado cargo eletivo. Não usaremos aquela expressão pouco generosa normalmente aplicada a candidatos lançados por padrinhos, até porque a história posterior demonstrou que Riedel possui luz própria. Mas era inegável que boa parte de seu capital inicial vinha da estrutura política comandada por Azambuja.

E até essa operação passou pelo sufoco. No primeiro turno, Capitão Contar chegou na frente, com 384.275 votos, 26,71%. Riedel fez 361.981, 25,16%. No segundo ocorreu outra virada: Riedel saltou para 741.522 votos, 56,40%, contra 573.149, 43,60%, de Contar. A vitória pode ser contabilizada entre as demonstrações da capacidade de articulação de Azambuja, mas seria intelectualmente preguiçoso atribuir-lhe todos aqueles votos. Quem estava na urna era Eduardo Riedel. E o governador que chega a 2026 já pode pedir votos pelos próprios méritos.

Talvez seja essa distinção — voto de Azambuja e poder do azambujismo — que tenha faltado às análises. Azambuja demonstrou capacidade para eleger-se, virar eleições, organizar prefeitos, agregar antigos adversários e ajudar decisivamente na eleição do sucessor. Isso é poder político. Transformá-lo na afirmação de que o eleitorado simplesmente marcha para onde ele aponta exige uma prova que as urnas anteriores não oferecem.

E aqui voltamos à porteira. As pesquisas de 2026 mostram Azambuja liderando a corrida ao Senado. Ele entra forte. Mas liderança em agosto significa propriedade sobre outubro? E, numa eleição em que o eleitor terá dois votos para senador, a força do primeiro nome basta para transportar junto o segundo?

Aí reaparece Capitão Contar. O homem que ficou na frente de Riedel no primeiro turno de 2022 agora é justamente aquele que o azambujismo pretende levar na dobradinha para o Senado. Há quatro anos, a máquina comandada por Azambuja precisou construir uma virada contra ele. Agora precisa convencer parte do eleitorado de Azambuja a apertar também a tecla do antigo adversário. E Juliano Ferro já mostrou que nem os aliados necessariamente obedecerão: anunciou Azambuja no primeiro voto e Vander no segundo. A capacidade de construir alianças no andar de cima continua evidente. O que permanece por demonstrar é a capacidade de fazê-las chegar intactas à cabine.

É depois de atravessar derrota, viradas, oito anos de governo, eleição do sucessor, acusações de enorme repercussão e posterior arquivamento da investigação que Azambuja volta a colocar o próprio nome diante do eleitor. Os números dizem que é favorito. A biografia diz que subestimá-lo seria estupidez. Mas a mesma biografia recomenda que seus aliados não confundam favoritismo com invencibilidade.

Reinaldo Azambuja já perdeu eleição, chegou atrás ao segundo turno, virou disputa e venceu eleição apertada. Viu também seu candidato à sucessão chegar atrás e depois virar. É menos um bicho-papão eleitoral do que talvez algo politicamente mais perigoso: um competidor que aprendeu a sobreviver quando a eleição aperta. Quem conhece tão bem eleições difíceis talvez saiba melhor que ninguém que favoritismo não dá imunidade contra derrota.

Por isso, a desistência de Nelsinho deixa uma pergunta além daquela sobre quem herdará seus votos: por que deixar no caminho um adversário competitivo quando é possível tê-lo sentado ao seu lado? Não sabemos se foi essa a conta feita pelos protagonistas. Sabemos que a política produziu exatamente esse resultado.

Coronel pode ser medido pelas estrelas. Fazendeiro, pelo tamanho da propriedade. Chefe político, pela quantidade de aliados. Candidato continua sendo medido pela urna. E, depois de um contencioso de oito anos sair de suas costas e de um concorrente sair de seu caminho, em 4 de outubro saberemos, outra vez, quantos votos tem realmente o sucessor do lendário expedicionário, o coronel Marcondes, de Maracaju.

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