15.9 C
Dourados
domingo, setembro 13, 2026

O processo involutivo da civilização

Da política de Ulysses e Brizola à lacração, de Elis aos algoritmos e de Pelé às bets, acumulamos recursos técnicos enquanto perdemos altura humana

- Publicidade -

Valfrido Silva

Alguma coisa se perdeu no caminho entre a civilização que produziu Shakespeare, Mozart, Machado de Assis, Ulysses Guimarães, Elis Regina e Pelé e esta que transformou lacração em argumento, repetição em música, ostentação em medida de sucesso e casa de apostas em patrocinadora do esporte. Não foi por falta de instrumentos. Nunca tivemos tanta tecnologia, tanto conhecimento disponível, tantos meios de criar e tamanha facilidade para mostrar ao mundo o resultado da criação. As ferramentas cresceram, o alcance tornou-se quase infinito e o espetáculo ganhou proporções planetárias. Curiosamente, enquanto tudo isso avançava, a grandeza humana parecia começar a caminhar na direção contrária.

O passado não foi habitado por santos. Foi povoado por monstros — alguns admiráveis, outros assustadores, quase todos maiores que as próprias contradições. Getúlio Vargas podia caber na história como criador de direitos trabalhistas e ditador do Estado Novo. Juscelino Kubitschek ergueu Brasília, acelerou a industrialização e também deixou contas para quem viesse depois. Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas e tantos outros carregavam virtudes, defeitos, ideias, cicatrizes e biografias suficientes para serem amados ou combatidos por razões um pouco mais profundas que uma postagem nas redes sociais. Até Paulo Maluf, símbolo da direita, protagonista de escândalos e personagem de prontuário bastante conhecido, possuía uma densidade política que a comparação com muitos sucessores acabou tornando quase respeitável.

Talvez tenha sido olhando para a galeria dos adversários disponíveis no presente que Lula sofreu, outro dia, um raro ataque de saudosismo. Não das derrotas que sofreu, das campanhas intermináveis ou das viagens em que atravessou o País tentando chegar ao Palácio do Planalto. Sentiu falta do tempo em que o adversário tinha formação política, capacidade de debate, história para contar e alguma ideia de Brasil. Em resumo, teve saudade de uma época em que até a divergência possuía grandeza.

Numa entrevista exibida pela Record, o presidente lembrou-se das eleições em que enfrentou Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, adversários com os quais travou disputas duríssimas, mas em quem ainda reconhecia alguma estatura política. Voltou sobretudo à memorável eleição de 1989, a primeira escolha direta para presidente depois de 29 anos, quando 22 candidatos se apresentaram ao eleitorado. Fernando Collor, o caçador de marajás fabricado pela televisão, acabou vencendo, mas, para chegar ao Palácio do Planalto, precisou atravessar um campo ocupado por Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Paulo Maluf, Aureliano Chaves, Roberto Freire, Guilherme Afif Domingos e o próprio Lula. Não era apenas uma disputa entre nomes conhecidos. Havia naquele tabuleiro biografias, partidos, correntes de pensamento e diferentes projetos de Brasil.

Lula resumiu a diferença com uma frase desconfortavelmente atual: “Hoje tem gente que acha que brincar ou lacrar na internet dá a ele o direito de ser presidente.” Não é preciso concordar com Lula para reconhecer o tamanho do rebaixamento. Houve um tempo em que o político precisava dominar um assunto para subir ao palanque. Agora, muitas vezes, basta dominar o algoritmo.

A política talvez ofereça apenas o retrato mais visível de uma redução que alcançou praticamente todas as atividades humanas. O personagem substituiu o estadista, a celebridade ocupou o lugar do artista, o influenciador tomou a cadeira do pensador e a capacidade de provocar reações passou a valer mais que a capacidade de produzir ideias. Antes, alguém construía uma obra e, como consequência, alcançava reconhecimento. Agora, primeiro conquista seguidores e depois procura alguma coisa para oferecer a eles.

Pode ser apenas mais uma manifestação da nostalgia, esse mecanismo generoso que conserva os encantos do passado e manda seus defeitos para uma gaveta distante da memória. O mundo antigo não era melhor para todos. Era mais pobre, mais desigual, mais preconceituoso, mais violento e muito menos acessível. Milhões de pessoas estavam excluídas da escola, da cultura, do voto, dos teatros, das bibliotecas e até do direito de falar.

Mas o progresso material não trouxe, automaticamente, elevação intelectual. Nunca tivemos tanto conhecimento disponível e nunca pareceu tão difícil manter a atenção durante mais de alguns minutos. Carregamos no bolso bibliotecas que nenhuma civilização anterior conseguiu reunir, mas usamos grande parte dessa potência para distribuir fofoca, insulto, dancinha e desinformação. A humanidade levou séculos para reunir o conhecimento universal e poucos segundos para passá-lo para o lado com o polegar.

A literatura produziu Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski, Tolstói, Kafka e García Márquez. No Brasil, tivemos Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Evidentemente, ainda existem grandes escritores. Talvez existam até mais pessoas escrevendo bem do que em qualquer outro tempo. A diferença é que o mercado, a pressa e as redes nem sempre premiam quem escreve melhor. Premiam quem aparece mais.

O livro virou resumo, o pensamento virou frase de efeito e a frase de efeito virou figurinha de WhatsApp. O jornalismo, que já errou muito mesmo quando dispunha de espaço e tempo, agora precisa explicar o mundo antes que o leitor perca a paciência no terceiro parágrafo. A manchete deixou de ser um convite à leitura para se tornar, muitas vezes, uma armadilha para o clique.

Na música, Viena ofereceu ao mundo Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert e tantos outros gênios num intervalo histórico impressionantemente curto. O Brasil respondeu, em épocas diferentes, com Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Milton Nascimento e Elis Regina.

A música sertaneja saiu das modas de viola de Tonico e Tinoco e Tião Carreiro e Pardinho, que narravam um Brasil rural, suas dores, distâncias e despedidas, para uma indústria universitária em que muitas canções parecem contar a mesma bebedeira, no mesmo camarote e com pequenas alterações no nome da pessoa traída.

O funk tem origem, identidade e importância cultural que não podem ser apagadas pelo preconceito social. O problema não é o gênero, assim como nunca foi a guitarra, a viola ou o tambor. O problema é uma indústria que extrai de qualquer gênero exatamente o que ele tem de mais simples, repetitivo e comercial, até transformar criação artística em matéria-prima para coreografias de poucos segundos. O algoritmo não pergunta se a música é boa. Pergunta se ela gruda.

No futebol, tivemos Pelé, Garrincha e a seleção de 1970, com Carlos Alberto, Gérson, Tostão, Rivelino e Jairzinho. Jogadores que pareciam produzir arte com uma bola num tempo em que as chuteiras pesavam, os gramados castigavam e as câmeras mal conseguiam acompanhar a jogada. Hoje, cada detalhe é analisado por computadores, os atletas têm fisiologistas, nutricionistas, psicólogos, equipamentos sofisticados e centros de treinamento que fariam aquela geração imaginar estar visitando a Nasa.

Mesmo assim, o espetáculo frequentemente termina dominado por calendários insanos, empresários corruptos, transferências milionárias, logotipos de casas de apostas e escândalos envolvendo as próprias bets. Há uma meninada muito boa de bola, evidentemente. O drama é que muitos se tornam milionários antes de se tornarem adultos. O dinheiro chega antes da biografia, a celebridade chega antes do futebol e a ostentação às vezes acaba maior que a carreira.

Neymar talvez seja o retrato mais completo desse tempo. Recebeu um talento extraordinário, dinheiro quase ilimitado e todas as ferramentas que a ciência poderia oferecer. Produziu momentos de gênio, mas também permitiu que festas, polêmicas, negócios e exibições fora de campo disputassem espaço com sua obra. Não lhe faltou futebol. Talvez tenha lhe sobrado época.

Essa é a contradição do processo involutivo. As máquinas evoluíram, a medicina evoluiu, a comunicação evoluiu, os estádios evoluíram, os instrumentos evoluíram e os meios de produção evoluíram. O homem ganhou recursos extraordinários para criar, aprender e se comunicar. Mas construiu uma engrenagem que recompensa o mais rápido, o mais ruidoso, o mais fácil e o mais rentável — não necessariamente o melhor.

Não significa que o passado tenha concentrado todo o talento e deixado para o presente apenas as sobras. Há bons políticos, grandes escritores, músicos extraordinários e jogadores encantadores em atividade. Maria Rita, por exemplo, é uma das honrosas exceções da música contemporânea. Tem voz, personalidade, repertório e construiu uma carreira que não depende apenas do sobrenome que recebeu.

Mas já imaginaram Elis Regina, com aquele gogó, aquela inteligência musical e aquela capacidade de transformar cada verso numa experiência humana, dispondo dos recursos de gravação, reprodução, divulgação e alcance que existem hoje? A pergunta não diminui a filha. Engrandece a mãe e expõe o paradoxo.

A tecnologia chegou ao futuro. Resta saber por que nós parecemos estar voltando.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-