A palavra “máquina” é um dos atalhos preferidos da análise política. Quando um governador lidera as pesquisas, reúne quase todos os prefeitos, domina o tempo de televisão e comanda uma coligação do tamanho de uma composição ferroviária, pronto: está explicado. É a máquina. Uma explicação que tem uma vantagem inegável. Cabe numa frase. O problema é que também esconde dentro dela quase tudo aquilo que realmente precisa ser explicado.
O governador Eduardo Riedel e seu vice Barbosinha dispõem hoje da mais poderosa estrutura política e eleitoral de Mato Grosso do Sul. Isso não é opinião, elogio nem denúncia. É correlação de forças. Governam o Estado, reúnem a maior coligação, contam com o apoio declarado da imensa maioria dos prefeitos, dispõem de ampla presença municipal e têm uma vantagem quase constrangedora na propaganda eleitoral. No bloco destinado pelo TRE-MS às candidaturas ao governo e ao Senado, a aliança governista ficou com 9 minutos e 20 segundos e 653 inserções. A coligação de Fábio Trad ganhou 3 minutos e 15 segundos e 229 inserções. Lucien Rezende ficou com 44 segundos; Delcídio do Amaral, com 39. João Henrique Catan, Jeferson Bezerra, Renato Gomes e Daniel Lemes não dispõem de tempo na televisão.
A urna será igual para todos. O caminho até ela, evidentemente, não é.
As pesquisas mais recentes discordam sobre quase tudo, menos sobre quem está na frente. O IPEMS atribui 57,70% a Riedel e 11,59% a Fábio Trad. O Ranking Brasil Inteligência registra 48% para o governador e 20,1% para o candidato petista. O Real Time Big Data encontra uma disputa mais apertada: 42% a 26%.
Entre o melhor e o pior resultado de Riedel existe uma diferença de 15,7 pontos percentuais. Não é oscilação de margem de erro. É praticamente outra eleição. A distância para Fábio Trad varia de 16 a 46,11 pontos. Um instituto anuncia vitória no primeiro turno; outro mantém aberta a possibilidade de segundo. Apesar disso, os três fotografam a mesma assimetria: Riedel lidera com folga, enquanto a oposição ainda discute quem ocupará o segundo lugar e qual tamanho terá quando finalmente ocupá-lo. A explicação mais fácil é a máquina. E ela explica muito.
Riedel não surgiu politicamente do nada. Foi escolhido por Reinaldo Azambuja por seu currículo de bom gestor público, recebeu o apoio de sua estrutura e herdou uma articulação construída ao longo de dois mandatos. O azambujismo entregou-lhe em 2022 a frondosa árvore do poder estadual, com raízes nos municípios, galhos na Assembleia Legislativa e sombra suficiente para abrigar boa parte da classe política. Riedel poderia ter se acomodado debaixo dela, desfrutado da sombra, da água fresca e do Diário Oficial. Poderia administrar como sucessor obediente, conservar o governo recebido e esperar que Azambuja continuasse pensando a política por ele. Não foi o que fez.
Sem romper com o padrinho nem cometer o tradicional parricídio político praticado por tantos sucessores, Riedel construiu um governo com identidade própria. Manteve compromissos, preservou pontes e honrou acordos assumidos na campanha anterior, mas escalou seu time, reorganizou áreas e deu à administração uma linguagem que não existia com a mesma ênfase nos governos de Azambuja.
A “transversalidade” virou a palavra mais conhecida do dicionário riedelista. Traduzida do idioma administrativo, significa obrigar secretarias a trabalhar em conjunto, estabelecer metas, cruzar políticas públicas e evitar que cada repartição governe apenas o próprio corredor. Vieram com ela os contratos de gestão, as parcerias com o setor privado, as concessões, os programas municipalistas e uma cobrança permanente por entregas.
No balanço apresentado pelo governo ao fim de 2025, eram 299 projetos, 539 entregas e 88% das metas daquele ano atingidas. Como todo balanço governamental, os números pertencem ao próprio governo e precisam ser confrontados com a realidade. Mas ajudam a explicar por que Riedel não é visto apenas como o herdeiro encarregado de guardar o patrimônio de Azambuja.
Ao vocabulário moderno da transversalidade, acrescentou uma ferramenta muito mais antiga: o fio de bigode. Riedel cultiva a imagem de administrador técnico, mas aprendeu que política não é feita somente com planilhas, indicadores e apresentações em PowerPoint. Compromisso assumido precisa ser cumprido; prefeito recebido precisa voltar para casa com resposta; aliado não pode descobrir pelos jornais que deixou de ser aliado. Na tradução riedelista, a transversalidade organiza o governo. O fio de bigode mantém a coalizão sentada à mesma mesa.
É justamente nesse território da confiança que entra o vice-governador Barbosinha. A decisão de repetir a chapa na eleição deste ano não foi simples acomodação partidária nem preenchimento protocolar da vaga de vice. Foi o reconhecimento de que a escolha feita em 2022 deu certo. Conciliador nato, Barbosinha movimenta-se nos bastidores, roda o estado como ninguém, conversa com diferentes correntes, apara arestas e ajuda a impedir que pequenos conflitos se transformem em crises dentro de uma aliança tão numerosa quanto heterogênea.
Para Riedel, essa parceria oferece uma segurança política rara. O governador pode viajar, afastar-se temporariamente ou entregar o comando do Estado ao vice sem precisar olhar por cima do ombro para saber se alguém começou a medir as cortinas do gabinete. Reinaldo Azambuja conhece bem a diferença: em seu segundo mandato, conviveu com a desconfiança provocada pelos movimentos de Murilo Zauith para antecipar a sucessão e assumir o governo antes da hora. Barbosinha representa o contrário. Mexe com a política para que Riedel possa governar — e não para governar no lugar de Riedel.
É nesse ponto que a máquina deixa de ser apenas uma herança e passa a ser também uma construção. Em agosto, 70 dos 79 prefeitos participaram de uma reunião de apoio à reeleição. O presidente da Assomasul, Thalles Tomazelli, chegou a afirmar que todos os 79 estariam com o governador. A unanimidade é uma declaração política ainda sujeita à prova das ruas e das urnas, mas a fotografia dos 70 prefeitos já revela uma capilaridade que nenhum adversário conseguiu montar.
Prefeito não adere apenas por encanto ideológico. Adere porque precisa de estrada, escola, hospital, convênio, ponte, máquina, pavimentação e interlocução com o governo estadual. Programas como o MS Ativo transformaram parceria administrativa em patrimônio político. Não significa que recurso público compre apoio nem que obra dê ao governante a propriedade do voto. Significa apenas que política municipal tem memória: prefeito costuma se lembrar de quem abriu a porta, cumpriu o acordo e entregou o que prometeu.
Também não se deve confundir máquina eleitoral com uso ilegal da administração. Não há nesta análise uma acusação de desvio, abuso ou emprego irregular de recursos públicos. A máquina pode funcionar inteiramente dentro das regras: visibilidade do cargo, obras realizadas, relações institucionais, partidos aliados, prefeitos, candidatos proporcionais, tempo de televisão e presença cotidiana nos municípios. O desequilíbrio existe antes de qualquer irregularidade.
Mas máquina alguma se movimenta sozinha. Precisa de direção, combustível, manutenção e alguém capaz de impedir que seus passageiros desembarquem na primeira curva.
As pesquisas oferecem uma pista de que Riedel acumulou capital político próprio. No levantamento espontâneo do IPEMS, aparece com 26,01%. No Ranking, tem 26,4%. É uma convergência impressionante entre dois institutos que divergem bastante no cenário estimulado. Quando o entrevistador não apresenta os nomes, aproximadamente um quarto do eleitorado lembra espontaneamente do governador. Isso não é apenas estrutura partidária. É conhecimento, presença e algum grau de identificação pessoal.
A oposição sofre o problema inverso. Fábio Trad dispõe de partido, recursos, experiência e apoio nacional, mas ainda não montou uma rede municipal comparável. Catan tem discurso, combatividade e um nicho conservador, mas ficou sem televisão e enfrenta o governador justamente no campo político onde Riedel recebeu o apoio de Flávio Bolsonaro. Delcídio conserva memória eleitoral, porém com reduzida estrutura partidária. Os demais candidatos lutam primeiro para provar que existem — como mostrou o contrapontoMS em “Muito prazer, eu também sou candidato a governador”.
Riedel cresce, portanto, por duas forças simultâneas: a potência de sua articulação e a dificuldade dos adversários de construírem uma alternativa reconhecível. A máquina amplia o favoritismo; a fragmentação da oposição multiplica seus efeitos.
Isso não torna a eleição decidida. O Real Time encontrou Riedel com 42%, oito pontos abaixo do necessário para liquidar a disputa no primeiro turno, considerando apenas os votos válidos. Uma campanha longa oferece tempo para erros, crises, denúncias, mudanças de humor e consolidação de um adversário. Máquinas poderosas também enguiçam. E tamanho excessivo pode produzir acomodação, arrogância e conflitos entre aliados que acreditam ter comprado bilhete na primeira classe.
A vantagem do governador é que, até agora, ele parece compreender que herança política não é aposentadoria antecipada.
Azambuja plantou a árvore, cuidou das raízes e entregou parte do pomar. Riedel não renegou o agricultor nem mandou derrubar a plantação. Também não ficou deitado à sombra esperando os frutos caírem. Podou alguns galhos, fez enxertos, irrigou o terreno e começou a cultivar uma lavoura com a própria marca. Da mesma forma o vice, Barbosinha, que não ficou panguando debaixo do famoso Chico Magro que faz sombra em seu gabinete, como o antecessor.
A máquina explica muito. Explica os prefeitos, os partidos, a televisão, a capilaridade e boa parte do desequilíbrio da disputa. Mas não explica Riedel e Barbosinha inteiros. Afinal, máquinas não fazem política por conta própria. E esta, pelo menos até agora, parece estar sendo bem tocada.
