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quinta-feira, setembro 17, 2026

O filme que não fala de Bolsonaro, mas explica o bolsonarismo

“Dark Horse”, concebido para transformar o ex-presidente em herói, não consegue chegar às telas, mas “O Aniversário” também mostra como o autoritarismo atravessa a porta de casa, senta-se à mesa e destrói uma família

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Valfrido Silva

Enquanto “Dark Horse” não chega às telas — se é que chegará, depois de tanta polêmica em torno dos repasses feitos pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, à produção, após cobranças de Flávio Bolsonaro —, “O Aniversário” não fala de Jair Bolsonaro, mas explica o bolsonarismo. O suspense político dirigido pelo polonês Jan Komasa e disponível no Prime Video não reproduz o cercadinho do Alvorada, não coloca motocicletas na avenida nem veste seus personagens de verde e amarelo. Ainda assim, para o espectador brasileiro, é difícil assistir à história sem reconhecer na tela aquilo que o bolsonarismo fez com o país — e, principalmente, com as famílias.

Toda ditadura começa muito antes do primeiro tanque aparecer na rua. Às vezes começa num almoço de família, quando alguém decide que o parente deixou de ser parente porque vota do lado errado. É desse ponto aparentemente doméstico, quase banal, que parte “O Aniversário”. A trama começa durante a comemoração dos 25 anos de casamento de Ellen e Paul Taylor, interpretados por Diane Lane e Kyle Chandler. Professora universitária, Ellen recebe em casa os quatro filhos do casal para aquilo que deveria ser apenas mais um encontro de uma família americana próspera, instruída e aparentemente sólida.

O primeiro ruído surge quando um dos filhos apresenta a nova namorada, Elizabeth, antiga aluna de Ellen e autora de um livro que alimentará um movimento político chamado “A Mudança”. A partir daí, ao longo de cinco anos e sucessivos aniversários, a mesa permanece no mesmo lugar, mas o país, a família e as pessoas sentadas em torno dela já não são os mesmos.

Jan Komasa teve o cuidado de não associar “A Mudança” a partido, líder ou ideologia oficialmente reconhecível. Segundo o diretor, isso impediria que o filme envelhecesse junto com um governo ou uma eleição. Criou, então, um movimento autoritário genérico, sustentado por uma grande corporação, capaz de prometer renovação, capturar ressentimentos e apresentar a intolerância como necessária à salvação nacional. É justamente essa ausência de sobrenome que torna a história tão incômoda. O espectador americano pode enxergar o trumpismo. Um europeu reconhecerá movimentos nacionalistas de seu continente. O brasileiro não precisará de legenda para encontrar o bolsonarismo.

Nós já assistimos a esse filme fora do cinema. Vimos famílias romperem relações por causa de urna eletrônica, vacina, cloroquina, máscara e mensagens encaminhadas por algum tio bem-intencionado no WhatsApp. Vimos parentes antes razoáveis passarem a desconfiar de médicos, professores, jornalistas, cientistas e instituições, enquanto depositavam fé absoluta num vídeo gravado dentro de um automóvel por um desconhecido de óculos escuros. Durante a pandemia, mesas de Natal transformaram-se em plenários improvisados; irmãos viraram adversários; pais e filhos deixaram de conversar. O extremismo não precisou arrombar a porta. Entrou convidado, recebeu prato, sobremesa e a senha do Wi-Fi.

É aqui que o cinema produz uma ironia quase perfeita. “Dark Horse”, a cinebiografia planejada para apresentar Bolsonaro ao mundo como herói improvável, segue sem previsão de estreia e atravessada por uma investigação sobre seu financiamento. Já “O Aniversário”, que não cita Bolsonaro uma única vez, chegou silenciosamente ao streaming e talvez explique o bolsonarismo com muito mais precisão. Um filme queria fabricar o mito; o outro mostra o mecanismo pelo qual mitos políticos entram na cabeça das pessoas, transformam divergência em traição e fazem da democracia um obstáculo à suposta redenção nacional.

O mais assustador em “O Aniversário” não é a possibilidade de a distopia acontecer. É a sensação de que parte dela já aconteceu diante de nós e foi recebida como normalidade. O autoritarismo raramente se anuncia dizendo que pretende destruir a democracia. Apresenta-se como mudança, ordem, moralidade, patriotismo, defesa da família e restauração de um passado glorioso que provavelmente nunca existiu. Quando o cidadão percebe o preço da promessa, talvez já tenha perdido amigos, parentes, direitos e a capacidade de reconhecer a própria casa.

O filme de Komasa não é apenas sobre política contaminando uma família. É sobre uma família funcionando como miniatura de um país. Enquanto alguns percebem a transformação e tentam resistir, outros se adaptam, prosperam, silenciam ou aderem com entusiasmo. A mesa continua posta, mas já não existe comunhão. Restam pessoas ligadas pelo sangue e separadas pela devoção política.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. Tampouco é exclusividade brasileira. Eis a força e o desconforto do filme: Bolsonaro pode desaparecer da vida pública, Trump pode deixar a Casa Branca e “A Mudança” pode conservar seu nome fictício. O método, entretanto, continuará procurando uma nova família, uma nova mesa e alguém disposto a abrir a porta.

ContrapontoMS–IA, sob revisão e edição final do autor. Colaborou Alfredo Barbara Neto

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