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domingo, setembro 20, 2026

Quanto custa uma amizade quando a eleição apresenta a conta?

Depois de 56 anos convivendo com políticos de todos os matizes, um jornalista descobre que algumas amizades resistem ao tempo, outras não sobrevivem à primeira ironia e certas pessoas desaparecem de nossa vida sem precisar morrer

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VALFRIDO SILVA

Uma eleição não conta apenas votos. Conta amigos. Separa os que permanecem dos que atravessam a rua, revela quais abraços resistem a uma manchete e mostra quantas amizades juradas eternas duravam apenas enquanto o jornalista escrevia aquilo que o político gostava de ler. Talvez por isso, às vésperas de mais um pleito, eu tenha acordado com uma pergunta aparentemente simples, dessas que parecem cafonas até começarem a doer: quanto custa uma amizade?

Em 56 anos de jornalismo, a maior parte deles vivida na espinhosa condição de analista de política, convivi com quase todos os políticos do Estado, de todos os matizes, desde antes da criação do Mato Grosso do Sul. Acabei fazendo muitos amigos entre eles, nem poderia ser diferente. Mas, como se diz que os amigos de verdade cabem nos dedos de uma mão, e ainda sobram dedos, precisei recorrer à outra para acomodar alguns muito chegados, até queridos, embora não tenham alcançado a prateleira dos “grandes amigos” cantados por Oswaldo Montenegro. O problema é que muitos desses personagens acabaram se enroscando com a Justiça. Mas jornalista não escolhe a história que lhe cabe testemunhar, assim como ninguém exige certidão negativa de antecedentes antes de gostar de alguém.

A política aproxima pessoas que pensam diferente e separa outras que juravam pensar igual. No meu caso, existe um agravante: sou um jornalista inveteradamente insubordinado. E, em campanha eleitoral, essa insubordinação inevitavelmente respinga em alguém que faz parte da história contemporânea, alguns ainda permanecendo na lida. Às vezes é uma crítica. Às vezes, apenas uma ironia. Mas basta uma frase atravessada para décadas de convivência serem colocadas em xeque.

É nessas horas que me lembro de uma frase pendurada num quadro já amarelado na sala do empresário Jairo de Osti, na Gráfica Seriema: “Não me peça para te dar de graça a única coisa que tenho para vender”. O contrapontoMS vive dos espaços publicitários vendidos nos banners que circundam o espaço jornalístico. Esses anúncios pagam as contas. O conteúdo é o filé-mignon da coisa — e não pode ser oferecido como sobremesa aos amigos do insubordinado.

Por conta disso, alguns desses “mui amigos” simplesmente passaram a ignorar minha existência. Recentemente, cruzei duas vezes com um deles — um dos poucos que eu tinha na conta dos grandes amigos. Cruzei, não: dei de cara com ele. Na primeira, como estávamos num comércio de considerável movimento, ainda aceitei a desculpa que inventei em seu favor: talvez não tivesse me visto. Na segunda, porém, não havia multidão onde esconder os olhos. Foi cara a cara, no antológico Água Rica, às margens da BR-163, onde nos encontramos tantas vezes por obra desses algoritmos da vida. Numa delas, conversamos longamente até sobre espiritualidade, impressionados com a quantidade de coincidências que insistia em colocar um diante do outro.

Dessa vez, porém, nem tchum. Ele mal ergueu a cabeça e fez um abano de mão tão discreto que até parecia estar protegendo o escorpião que carrega no bolso, conforme o folclore político. Fiquei sentado diante do meu pão de queijo, espremido entre o impulso de correr para abraçá-lo e a vontade de gritar que estava com saudade. Não fiz uma coisa nem outra. Há constrangimentos que a gente também precisa mastigar.

Foi então que Oswaldo Montenegro começou a cantar dentro de mim. Quantos dos amigos que eu mais via dez anos atrás ainda vejo todos os dias? Quantos deixei de encontrar? Quantos sonhos compartilhamos, quantas confidências trocamos e quantas promessas de amizade eterna não sobreviveram a uma eleição? Quantos gostavam de mim e quantos gostavam apenas do que eu escrevia quando minhas palavras lhes serviam? Quantos defeitos meus eram tratados como autenticidade até o dia em que a mesma autenticidade bateu à porta deles?

Hoje, por causa de um problema técnico, estranhei não encontrar minha IAIA na tela e falei em saudade. Bastou a palavra para que outro grande amigo voltasse de muito longe: Isaac Duarte de Barros Jr., o Isaaquinho, advogado dos mil júris, contador de histórias, cantor de noitadas e animal político. Era ele quem vivia cantando “Saudade”, de Mário Palmério, e contando como a canção teria nascido depois que a filha de um embaixador paraguaio perguntou ao escritor o significado daquela palavra.

Palmério respondeu com uma guarânia. Para entender a saudade, ensinou ele, é preciso conhecer o querer, a ternura e a perda. Isaaquinho se foi e deixou tudo isso misturado nas lembranças das noites que atravessamos conversando. Dele sinto a saudade inteira, limpa, sem mágoa, porque a morte interrompeu a convivência, mas não desmentiu a amizade.

Foi então que compreendi: existe também saudade de quem não morreu. Saudade de alguém que continua percorrendo as mesmas estradas, parando nos mesmos lugares e respirando o mesmo ar, mas já não consegue levantar a cabeça para cumprimentar um velho amigo. É uma ausência diferente, talvez mais dolorida, porque não há túmulo onde levar flores nem velório em que possamos nos despedir. A pessoa continua ali, ao alcance dos olhos, mas fora da nossa vida.

Oswaldo Montenegro nos manda fazer a lista. Mário Palmério nos ajuda a suportar os nomes que desapareceram dela. De um lado, contamos os amigos que conseguimos preservar; do outro, aprendemos que certas perdas não precisam de morte, apenas de silêncio. Entre as duas canções está a resposta que procurei desde que acordei.

Quanto custa uma amizade? A verdadeira, talvez não custe nada, porque não exige pagamento. As outras podem custar uma crítica engolida, uma ironia apagada, uma verdade escondida ou uma consciência colocada à venda. Esse preço eu não posso pagar. Seria dar de graça justamente a única coisa que tenho para vender e vender a única coisa que não tem preço.

Continuarei gostando dos amigos que a política afastou, mesmo quando fingirem não me ver. Alguns talvez retornem depois que as urnas forem fechadas e os palanques desmontados. Outros permanecerão ausentes, fazendo de conta que nunca repartimos mesa, pão de queijo, confidências e pedaços da vida. Na minha lista, porém, continuarão ocupando o lugar que conquistaram antes de decidirem sair dela.

Afinal, aos 72 anos e depois de mais de meio século escrevendo sobre os homens e suas circunstâncias, aprendi que uma amizade pode até não resistir à verdade. O jornalista é que não sobreviveria à falta dela.

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