25.7 C
Dourados
segunda-feira, outubro 12, 2026

Eu vi nascer o Mato Grosso do Sul, já sob o símbolo da discórdia

À entrada do ano do cinquentenário, a memória de quem acompanhou a criação do estado revela os bastidores que a fotografia oficial não conta

- Publicidade -

Valfrido Silva*

O Mato Grosso do Sul completa neste 11 de outubro 49 anos. Para mim, a data tem endereço, horário e personagens: o Salão Leste do Palácio do Planalto, às 11 horas da manhã de 1977, quando o presidente Ernesto Geisel assinou a Lei Complementar nº 31, criando o estado. Eu estava lá, em carne e osso, como repórter. Entre as lideranças reunidas para assistir ao nascimento da nova unidade da Federação, acompanhava um acontecimento que depois me daria assunto para um livro. Sonhos e Pesadelos — Mato Grosso do Sul, 30 anos, não foi escolhido por acaso.

Saímos de Campo Grande naquela manhã num voo especial da Vasp, fretado pela Liga Divisionista, presidida pelo pecuarista Paulo Coelho Machado. A bordo estava a elite política do futuro estado. Fui o único jornalista de Dourados a cobrir pessoalmente aquele ato histórico, pelo jornal O Progresso. Hoje, um dos poucos participantes daquela viagem ainda vivos, guardo lembranças que nem sempre aparecem nas solenidades de aniversário. A fotografia registra quem estava perto da mesa. O repórter tenta entender o que cada um espera levar dela.

A assinatura concretizava uma antiga aspiração do sul de Mato Grosso, mas a emancipação administrativa vinha acompanhada de uma disputa muito menos desinteressada: quem mandaria no novo estado. As divergências em torno da vaga de senador biônico, disputada pelos cunhados Italívio Coelho e Rachid Saldanha Dérzi, pertencem a esses bastidores. A criação era celebrada em nome de um futuro comum; os lugares nesse futuro já tinham pretendentes. O estado nasceu sob o signo da discórdia. Havia um território para organizar e um poder para repartir.

Essa disputa atravessaria a formação do primeiro governo. A oposição de Mendes Canale à escolha de Pedro Pedrossian, a nomeação de Harry Amorim Costa e os conflitos que se seguiram ajudam a compreender por que a certidão de nascimento não trouxe consigo a pacificação política. A criação, em outubro de 1977, e a instalação, em janeiro de 1979, são marcos distintos. Entre eles houve preparação administrativa, negociações e interesses em choque. Depois deles, continuou a tarefa de construir um estado que fosse maior do que as ambições de seus dirigentes.

Na volta de Brasília, tivemos uma amostra bastante concreta de como uma viagem pode fugir ao roteiro. Uma pane na turbina do avião nos deixou por cerca de duas horas embretados na cabeceira da pista do aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek. Enquanto esperávamos, víamos o pessoal trabalhar em meio a porcas, arruelas e parafusos. Ali estava reunida boa parte de quem pretendia conduzir Mato Grosso do Sul, dependendo de um conserto para conseguir sair do lugar. Resolvido o problema, fizemos um voo de brigadeiro até Campo Grande. A apreensão ficou na memória. A comparação com os caminhos da política viria depois.

Não cabe num artigo tudo o que aconteceu naquela viagem, muito menos nos anos seguintes. Foi por isso que escrevi o livro quando o estado completou trinta anos. Quis examinar os sonhos, os erros e as consequências das disputas que acompanhei. Agora, quase vinte anos depois da publicação, há novas páginas a acrescentar. Mato Grosso do Sul construiu instituições, ampliou oportunidades e transformou sua economia. Também acumulou problemas que não desaparecem quando termina o discurso de aniversário. Reconhecer as conquistas exige olhar igualmente para quem ainda espera participar delas.

O governador Eduardo Riedel quer uma comemoração em alto estilo para os cinquenta anos, em 2027, com entregas e homenagens. A agenda comemorativa começa a ser anunciada neste aniversário. Que venha a festa, acompanhada de realizações que justifiquem o entusiasmo. E que as homenagens alcancem também quem trabalhou longe das mesas principais: professores, trabalhadores, migrantes, comunidades indígenas e tantos cidadãos cuja contribuição não dependeu de mandato ou retrato oficial.

Espero estar vivo até lá. Tenho muitas histórias para contar e curiosidades para conferir o que fizemos daquele futuro anunciado no Salão Leste. A pane da Vasp foi resolvida em duas horas; algumas divergências políticas tiveram duração bem maior. Meio século depois, a melhor homenagem ao nascimento de Mato Grosso do Sul será mostrar que aprendemos a trabalhar por ele sem transformar cada conquista numa disputa por sua propriedade. A certidão pertence ao estado. O futuro precisa pertencer a todos.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-